Carta da Terra no Brasil

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domingo, 28 de dezembro de 2008

Como escapar do fim do mundo

Leonardo Boff

Teólogo

Chegamos a um tal acúmulo de crises que, conjugadas, podem pôr fim a este tipo de mundo que nos últimos séculos o Ocidente impôs a todo o globo. Trata-se de uma crise de civilização e de paradigma de relação com o conjunto dos ecossistemas que compõem o planeta Terra, relação de conquista e de dominação. Não temos tempo para acobertamentos, meias-verdades ou simplesmente negação daquilo que está à vista de todos. O fato é que assim como está, a humanidade não pode continuar. Caso contrario, vai ao encontro de um colapso coletivo da espécie. É tempo de balanço face à catástrofe previsível.

Inspira-nos uma escola de historiadores bíblicos que vem sob o nome de escola deuteronomista, derivada do livro do Deuteronômio que narra a tomada de Israel e a entronização de chefes tribais (juízes). A escola refletiu sobre 500 anos da história de Israel, a idade do Brasil, fazendo uma espécie de balanço das várias catástrofes politicas havidas, especialmente, a do exílio babilônico. Segue um esquema, diria, quase mecânico: o povo rompe a aliança; Deus castiga; o povo aprende a lição e reencontra o rumo certo; Deus abençoa e faz surgir governantes sábios.

Usando um discurso secular, apliquemos, analogamente, o mesmo esquema à presente situação: a humanidade rompeu a aliança de harmonia com a natureza; esta a castigou com secas, inundações, tufões e mudanças climáticas; a humanidade tirou as lições destes cataclismas e definiu um outro rumo para o futuro; a natureza resgatada favorece o surgimento de governos que mantém a aliança originária de harmonia natureza-humanidade.

Ocorre que apenas uma parte deste esquema está sendo vivida: estamos tirando algumas lições dos transtornos globais. Muitos se dão conta de que temos que mudar os fundamentos da convivência humana e com a Terra, organismo vivo doente e incapaz de se auto-regular. Essa mudança deve possuir uma função terapêutica: salvar a Terra e a Humanidade que se condicionam mutuamente. Outros, no entanto, querem continuar pela mesma rota que os conduziu ao desastre atual. O fato é que precisamos escutar aqueles que com consciência da situação nos estão oferecendo as melhores propostas. Eles não se encontram nos centros do poder decisório do Império. Estão na periferia, no universo dos pobres, aqueles que para sobreviver têm que sonhar, sonhos de vida e de esperança.

Uma destas vozes é de um indígena, o Presidente da Bolívia, Evo Morales. Ele escreveu, agora em novembro, uma carta aberta à Convenção da ONU sobre mudanças climáticas na Polônia. Escutando o chamado da Pacha Mama conclama:

“Necessitamos de uma Organização Mundial do Meio Ambiente e da Mudança Climática, a qual se subordinem as organizações comerciais e financeiras multilaterais, para promover um modelo distinto de desenvolvimento, amigável com a natureza e que resolva os graves problemas da pobreza. Esta organização tem que contar com mecanismos efetivos de implantação de programas, verificação e sanção para garantir o cumprimento dos acordos presentes e futuros… A humanidade é capaz de salvar o planeta se recuperar os princípios da solidariedade, da complementaridade e da harmonia com a natureza, em contraposição ao império da competição, do lucro e do consumismo dos recursos naturais.”

Evo Morales é indígena de um pais pobre. Temo que ele conheça o destino da triste história narrada pelo livro do Eclesiastes:”Um rei poderoso marchou sobre uma pequena cidade; cercou-a e levantou contra ela grandes obras de assédio. Havia na cidade um homem pobre, porém sábio que poderia ter salvo a cidade. Mas ninguém se lembrou daquele homem pobre porque a sabedoria do pobre é desprezada”(9,14-15). Que isso não se repita de novo.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Misterioso cartão de Natal

Leonardo Boff
Teólogo

O Natal é a festa das crianças e da divina Criança que se esconde dentro de cada adulto. É altamente inspiradora a crença de que Deus se acercou dos seres humanos na forma de uma criança. Assim ninguém pode alegar que Ele é apenas um mistério insondável, fascinante por um lado e aterrador por outro. Não. Ele se aproximou de nós na fragilidade de um recém-nascido que choraminga de frio e que busca, faminto, o seio materno. Precisamos respeitar e amar esta forma como Deus quis entrar no nosso mundo. Pelos fundos, numa gruta de animais, numa noite escura e cheia de neve “porque não havia lugar para ele nas pousadinhas de Belém”.

Mais consoladora é ainda a ideia de que seremos julgados por uma criança e não por um juiz severo e esquadrinhador. Criança quer brincar. Ela se enturma imediatamente com todas as outras, pobres, ricas, japonesas, negras e loiras. É a inocência originária que ainda não conheceu as malícias da vida adulta.

A divina Criança nos introduzirá na dança celeste e no festim que a família divina do Pai, do Filho e do Espírito Santo prepara para todos os seus filhos e as suas filhas, não excluidos aqueles que, um dia, foram desgarrados.

Estava refletindo sobre esta realidade benaventurada quando um um anjo, daqueles que cantaram aos pastores nos campos de Belém, se aproximou espiritualmente e me entregou um cartãozinho de Natal. De quem seria? Comecei a ler. Nele se dizia:

“Queridos irmãozinhos e irmãzinhas:

Se vocês ao olharem o presépio e ao verem lá o Menino Jesus no meio de Maria e de José e junto do boi e do jumento, se se encherem de fé de que Deus se fez criança, como qualquer um de vocês;

Se vocês conseguirem ver nos outros meninos e meninas a presença inefável do Menino Jesus que uma vez nascido em Belém, nunca nos deixou sozinhos neste mundo;

Se vocês forem capazes de fazer renascer a criança escondida nos seus pais, nos seus tios e tias e nas outras pessoas que vocês conhecem para que surja nelas o amor, a ternura, o cuidado com todo mundo, também com a natureza;

Se vocês, ao olharem para o presépio, descobrirem Jesus pobremente vestido, quase nuzinho e lembrarem de tantas crianças igualmente mal vestidas e se sofrerem no fundo do coração por esta situação e se puderem dividir o que vocês têm de sobra e desejarem já agora mudar este estado de coisas;

Se vocês ao verem a vaquinha, o burrinho, as ovelhas, os cabritos, os cães, os camelos e o elefante no presépio e pensarem que o universo inteiro é também iluminado pela divina Criança e que todos eles fazem parte da grande Casa de Deus;

Se vocês olharem para o alto e virem a estrela com sua cauda luminosa e recordarem que sempre há uma estrela como a de Belém sobre vocês, acompanho-os, iluminando-os, mostrando-lhes os melhores caminhos;

Se vocês se lembrarem que os reis magos, vindos de terras distantes, eram, na verdade, sábios e que ainda hoje representam os cientistas e os mestres que conseguem ver nesta Criança o sentido secreto da vida e do universo;

Se vocês pensaram que esse Menino é simultaneamente homem e Deus e por ser homem é seu irmão e por ser Deus existe uma porção Deus em vocês e por causa disso, se encherem de alegria e de legítimo orgulho;

Se pensarem tudo isso então fiquem sabendo que eu estou nascendo de novo e renovando o Natal entre vocês.

Estarei sempre perto, caminhando com vocês, chorando com vocês e brincando com vocês até aquele dia em que chegaremos todos, humanidade e universo, na Casa de Deus que é Pai e Mãe de infinita bondade, para morarmos sempre juntos e sermos eternamente felizes”.

Belém, 25 de dezembro do ano 1.

Assinado: Menino Jesus

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Eles não amam a vida , de Leonardo Boff

Leonardo Boff
Teólogo

A busca de uma saída para a crise econômico-financeira mundial está cercada de riscos. O primeiro é que os paises ricos busquem soluções que resolvam seus problemas, esquecendo do caráter interdependente de todas as economias. A inclusão dos paises emergentes pouco significou, pois suas propostas mal foram consideradas. Prevaleceu ainda a lógica neo-liberal que garante a parte leonina aos ricos. O segundo é perder de vista as demais crises, a ecológica, a climática, a energética e a alimentar. Concentrar-se apenas na questão econômica, sem considerar as outras, é jogar com a insustentabilidade a médio prazo. Cabe recordar o que diz a Carta da Terra:”nossos desafios ambientais, econômicos, políticos, sociais e espirituais estão interligados e juntos podemos forjar soluções includentes”(Preâmbulo). O terceiro risco, mais grave, consiste em apenas melhorar as regulações existentes em vez de buscar alternativas, com a ilusão de que o velho paradigma neoliberal teria ainda a capacidade de tornar criativo o caos atual.

O problema não é a Terra. Ela pode continuar sem nós e continuará. A magna quaesto, a questão maior, é o ser humano voraz e irresponsável que ama mais a morte que a vida, mais o lucro que a cooperação, mais seu bem estar individual que o bem geral de toda a comunidade de vida. Se os responsáveis pelas decisões globais não considerarem a inter-retro-dependência de todas estas questões e não forjarem uma coalizão de forças capaz de equacioná-las aí sim estaremos literalmente perdidos.

Na verdade, se houvesse um mínimo de bom senso, a solução do cataclismo econômico e dos principais problemas infra-estruturais da humanidade seria encontrada. Basta proceder a um amplo e geral desarmamento já que não há confrontos entre potências militares. A construção de armas, propiciada pelo complexo industrial-militar, é a segunda maior fonte de lucro do capital. O orçamento militar mundial é da ordem de um trilhão e cem bilhões de dólares/ano. Já se gastaram só no Iraque dois trilhões de dólares. Para este ano, o governo norte-americano encomendou armas no valor de um trilhão e meio de dólares.

Estudos de organismos de paz revelaram que com 24 bilhões de dólares/ano – apenas 2,6% do orçamento militar total - poder-se-ia reduzir pela metade a fome do mundo. Com 12 bilhões – 1,3% do referido orçamento – poder-se-ia garantir a saúde reprodutiva de todas as mulheres da Terra.

Com grande coragem, o atual Presidente da Assembléia da ONU, o padre nicaragüense Miguel d’Escoto, denunciava em seu discurso inaugural em meados de outubro: existem aproximadamente 31.000 ogivas nucleares em depósitos, 13.000 distribuidas em vários lugares no mundo e 4.600 em estado de alerta máximo, quer dizer, prontas para serem lançadas em poucos minutos. A força destrutiva destas armas é aproximadamente de 5.000 megatons, força que é 200.000 vezes mais avassaladora que a bomba lançada sobre Hiroshima. Somadas com as armas químicas e biológicas, pode-se destruir por 25 formas diferentes toda a espécie humana. Postular o desarmamento não é ingenuidade, é ser racional e garantir a vida que ama a vida e que foge da morte. Aqui se ama a morte.

Só este fato mostra que a atual humanidade é feita, em grande parte, por gente irracional, violenta, obtusa, inimiga da vida e de si mesma. A natureza da guerra moderna mudou substancialmente. Outrora “morria quem ia para a guerra”. Agora não, as principais vitimas são civis. De cada 100 mortos em guerra, 7 são soldados, 93 são civis, dos quais 34, crianças. Na guerra do Iraque já morreram 650.00 civis e apenas cerca de 3.000 soldados aliados. Hoje assistimos algo, absolutamente inédito e de extrema irracionalidade: a guerra contra a Terra. Sempre se faziam guerras entre exércitos, povos e nações. Agora, todos unidos, fazemos guerra contra Gaia: não deixamos um momento sem agredi-la, explorá-la até entregar todo seu sangue. E ainda invocamos a legitimação divina para o nosso crime, pois cumprimos o mandato:”multiplicai-vos, enchei e subjugai a Terra”(Gn 1,28). Se assim é, para onde vamos? Não para o reino da vida.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

O pior da crise ainda está por vir?

O pior da crise ainda está ainda por vir?

Leonardo Boff, Teólogo

Num artigo anterior afirmávamos que a atual crise mais que econômico-financeira é uma crise de humanidade. Atingiram-se os fundamentos que sustentam a sociabilidade humana – a confiança, a verdade e a cooperação - destruídos pela voracidade do capital. Sem eles é impossível a política e a economia. Irrompe a barbárie. Queremos levar avante esta reflexão de cariz filosófico, inspirados em dois notáveis pensadores: Karl Marx e Max Horkheimer. Este último foi proeminente figura da escola de Frankfurt ao lado de Adorno e Habermas. Antes mesmo do fim da guerra, em 1944, teve a coragem de dizer, em palestras na Universidade de Colúmbia nos EUA, publicadas sob o titulo Eclipse da Razão (no Brasil 1976) que pouco adiantava a vitória iminente dos aliados. O motivo principal que gerou a guerra continuava atuante no bojo da cultura dominante. Seria o seqüestro da razão para o mundo da técnica e da produção, portanto, para o mundo dos meios, esquecendo totalmente a discussão dos fins. Quer dizer, o ser humano já não se pergunta por um sentido mais alto da vida. Viver é produzir sem fim e consumir o mais que pode. É um propósito meramente material, sem qualquer grandeza. A razão foi usada para operacionalizar esta voracidade. Ao submeter-se, ela se obscureceu deixando de colocar as questões que ela sempre colocou: que sentido tem a vida e o universo, qual é o nosso lugar? Sem estas respostas só nos resta a vontade de poder que leva à guerra como na Europa de Hitler.

Algo semelhante dizia Marx no terceiro livro do Capital. Ai deixa claro que o ponto de partida e de chegada do capital é o próprio capital em sua vontade ilimitada de acumulação. Ele visa o aumento sem fim da produção, para a produção e pela própria produção, associada ao consumo, em vista do desenvolvimento de todas as forças produtivas. É o império dos meios sem discutir os fins e qual o sentido deste tresloucado processo. Ora, são os fins humanitários que sustentam a sociedade e conferem propósito à vida. Bem o expressou o nosso economista-pensador Celso Furtado:”O desafio que se coloca no umbral do século XXI é nada menos do que mudar o curso da civilização, deslocar o eixo da lógica dos meios a serviço da acumulação, num curto horizonte de tempo, para uma lógica dos fins em função do bem estar social, do exercício da liberdade e da cooperação entre os povos”(Brasil: a construção interrompida,1993,76).

Não foi isso que os ideólogos do neo-liberalismo, da desregulação da economia e do laissez-faire dos mercados nos aconselharam. Eles mentiram para toda a humanidade, prometendo-lhe o melhor dos mundos. Para essa via não existiam alternativas, diziam. Tudo isso foi agora desmascarado, gerando uma crise que vai ficar ainda pior.

A razão reside no fato de que a atual crise se instaurou no seio de outras crises ainda mais graves: a do aquecimento global que vai produzir dimensões catastróficas para milhões da humanidade e a da insustentabilidade da Terra em conseqüência da virulência produtivista e consumista. Precisamos de um terço a mais de Terra. Quer dizer, a Terra já passou em 30% sua capacidade de reposição. Ela não agüenta mais o crescimento da produção e do consumo atuais como é proposto para cada pais. Ela vai se defender produzindo caos, não criativo, mas destrutivo.

Aqui reside o limite do capital: o limite da Terra. Isso não existia na crise de 1929. Dava-se por descontada a capacidade de suporte da Terra. Hoje não: se não salvarmos a sustentabilidade da Terra, não haverá base para o projeto do capital em seu propósito de crescimento. Depois de haver precarizado o trabalho, substituindo-o pela máquina, está agora liquidando com a natureza.

Estas ponderações aparecem raramente no atual debate. Predomina o tema da extensão da crise, dos índices da recessão e do nível de desemprego. Neste campo os piores conselheiros são os economistas, especialmente os ministros da Fazenda. Eles são reféns de um tipo de razão que os cega para estas questões vitais. Há que se ouvir os pensadores e os que ainda amam a vida e cuidam da Terra.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Não desperdiçar as oportunidades da crise, artigo de Leonardo Boff

Face ao cataclismo econômico-financeiro mundial se desenham dois cenários: um de crise e outro de tragédia. Tragédia seria se toda a arquitetura econômica mundial desabasse e nos empurasse para um caos total com milhões de vítimas por violência, fome e guerra. Não seria impossível, pois o capitalismo, geralmente, supera as situações caóticas mediante a guerra. Ganha ao destruir e ganha ao reconstruir. Somente que hoje esta solução não parece viável pois uma guerra tecnológica liquidaria com a espécie humana; só cabem guerras regionais sem uso de armas de destruição em massa.

Outro cenário seria de crise. Para ela, não acaba o mundo econômico, mas este tipo de mundo, o neoliberal. O caos pode ser criativo, dando origem a outra ordem diferente e melhor. A crise teria, portanto, uma função purificadora, abrindo espaço para uma outra oportunidade de produção e de consumo.

Não precisamos recorrer ao idiograma chinês de crise para saber de sua significação como risco e oportunidade. Basta recordar o sânscrito matriz das línguas ocidentais.

Em sânscrito, crise vem de kir ou kri que significa purificar e limpar. De kri vem também crítica que é um processo pelo qual nos damos conta dos pressupostos, dos contextos, do alcance e dos limites seja do pensamento, seja de qualquer fenômeno. De kri se deriva outrossim crisol, elemento químico com o qual se limpa ouro das gangas e, por fim, acrisolar que quer dizer depurar e decantar. Então, a crise representa a oportunidade de um processo critico, de depuração do cerne: só o verdadeiro fica, o acidental cai sem sustentabilidade.

Ao redor e a partir deste cerne se constrói uma outra ordem que representa a superação da crise. Os ciclos de crise do capitalismo são notórios. Como nunca se fazem cortes estruturais que inaugurem uma nova ordem econômica mas sempre se recorre a ajustes que preservam a lógica exploradora de base, ele nunca supera propriamente a crise. Alivia seus efeitos danosos, revitaliza a produção para novamente entrar em crise e assim prolongar o recorrente ciclo de crises.

A atual crise poderia ser uma grande oportunidade para a invenção de um outro paradigma de produção e de consumo. Mais que regulações novas, fazem-se urgentes alternativas. A solução da crise econômica-financeira passa pelo encaminhamento da crise ecológica geral e do aquecimento global. Se estas variáveis não forem consideradas, as soluções económicas, dentro de pouco tempo, não terão sustentabilidade e a crise voltará com mais virulência.

As empresas nas bolsas de Londres e de Wall Street tiveram perdas de mais de um trilhão e meio de dólares, perdas do capital humano. Enquanto isso, segundo dados do Greenpeace, o capital natural tem perdas anuais da ordem de 2 a 4, trilhões de dólares, provocadas pela degradação geral dos ecossistemas, desflorestamento, desertificação e escassez de água. A primeira produziu pânico, a segunda sequer foi notada. Mas desta vez não dá para continuar com o business as usual.

O pior que nos pode acontecer é não aproveitar a oportunidade advinda da crise generalizada do tipo de economia neoliberal para projetar uma alternativa de produção que combine a preservação do capital natural com o capital humano. Há que se passar de um paradigma de produção industrial devastador para um de sustentação de toda a vida.

Esta alternativa é imprescindível, como o mostrou corajosamene François Houtart, sociólgo belga e grande amigo do Brasil, numa conferência diante da Assembleia da ONU em 30 de outubro do corrrente ano: se não buscarmos uma alternativa ao atual paradigma econômico em quinze anos 20% a 30% das espécies vivas poderão desaparecer e nos meados do século haverá cerca de 150 a 200 milhões de refugiados climáticos.

Agora a crise em vez de oportunidade vira risco aterrador. A crise atual nos oferece a oportunidade, talvez uma das últimas, para encontrarmos um modo de vida sustentável para os humanos e para toda a comunidade de vida. Sem isso poderemos ir ao encontro da escuridão.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Oxalá, Eduardo Galeano

Oxalá!
Barack Obama, primeiro presidente negro da história dos Estados Unidos, concretizará o sonho de Martin Luther King ou o pesadelo de Condoleezza Rice? Esta Casa Branca, que agora é sua casa, foi construída por escravos negros. Oxalá ele não se esqueça disso, nunca.

Eduardo Galeano
Data: 09/11/2008

Obama provará no governo que suas ameaças de guerra contra o Irã e o Paquistão não foram mais do que palavras, proclamadas para seduzir ouvidos difíceis durante a campanha eleitoral?

Oxalá. E Oxalá não caia por nenhum momento na tentação de repetir as façanhas de George W. Bush. Ao fim e ao cabo, Obama teve a dignidade de votar contra a guerra do Iraque, enquanto o Partido Democrata e o Partido Republicano ovacionavam o anúncio dessa carnificina.

Durante sua campanha, a palavra “leadership” foi a mais repetida nos discursos de Obama. Durante seu governo, continuará crendo que seu país foi escolhido para salvar o mundo, tóxica idéia que compartilha com quase todos seus colegas? Seguirá insistindo na liderança mundial dos Estados Unidos e na sua messiânica missão de mando?

Oxalá esta crise atual, que está sacudindo os cimentos imperiais, sirva ao menos para dar um banho de realismo e de humildade a este governo que começa.

Obama aceitará que o racismo seja normal quando exercido contra os países que seu país invade? Não é racismo contar um por um os mortos dos invasores no Iraque e ignorar olimpicamente os muitíssimos mortos entre a população invadida? Não é racista este mundo onde há cidadãos de primeira, segunda e terceira categoria, e mortos de primeira, segunda e terceira?

A vitória de Obama foi universalmente celebrada como uma batalha ganha contra o racismo. Oxalá ele assuma, a partir de seus atos de governo, esta formosa responsabilidade.

O governo de Obama confirmará, uma vez mais, que o Partido Democrata e o Partido Republicano são dois nomes de um mesmo partido?

Oxalá a vontade de mudança, que estas eleições consagraram, seja mais do que uma promessa e mais que uma esperança. Oxalá o novo governo tenha a coragem de romper com essa tradição de partido único, disfarçado de dois partidos, que, na hora da verdade, fazem mais ou menos o mesmo ainda que simulem uma disputa entre eles.

Obama cumprirá sua promessa de fechar a sinistra prisão de Guantánamo? Oxalá, e Oxalá acabe com o sinistro bloqueio a Cuba.

Obama seguirá acreditando que está certo que um muro evite que os mexicanos atravessem a fronteira, enquanto o dinheiro passa livremente sem que ninguém lhe peça passaporte?

Durante a campanha eleitoral, Obama nunca enfrentou com franqueza o tema da imigração. Oxalá a partir de agora, quando já não corre o risco de espantar votos, possa e queira acabar com esse muro, muito maior e vergonhoso que o Muro de Berlim, e com todos os muros que violam o direito à livre circulação das pessoas.

Obama, que com tanto entusiasmo apoiou o recente presente de 750 bilhões de dólares aos banqueiros, governará, como é costume, para socializar as perdas e para privatizar os lucros. Temo que sim, mas oxalá que não.

Obama firmará e cumprirá o protocolo de Kyoto, ou seguirá outorgando o privilégio da impunidade à nação mais envenenadora do planeta? Governará para os automóveis ou para as pessoas? Poderá mudar o rumo assassino de um modo de vida de poucos no qual se rifam o destino de todos?

Temo que não, mas Oxalá que sim.

Obama, primeiro presidente negro da história dos Estados Unidos, concretizará o sonho de Martin Luther King ou o pesadelo de Condoleezza Rice? Esta Casa Branca, que agora é sua casa, foi construída por escravos negros. Oxalá ele não se esqueça disso, nunca.Publicado originalmente no jornal Página 12.Tradução: Katarina Peixoto
Fonte: CARTA MAIOR

A hegemonia do bem?

Colunista:Boaventura de Sousa Santos11/11/2008

DEBATE ABERTO

A hegemonia do bem?

Obama tem esse privilégio de oferecer ao mundo um momento de hegemonia do bem. Só por isso ficará na história. Esse momento não durará muito. A realidade não costuma demorar quando sai para almoçar. Quando terminar, tudo vai depender do modo como o impulso do bem enfrentará o do mal.
Data: 09/11/2008

Madison, Wisconsin 5 de Novembro 2008

A eleição do Presidente Obama é um acontecimento de global e transcendente importância para todos os que acreditam na possibilidade de um mundo melhor. Nos últimos quinze anos, dois outros acontecimentos adquiriram esta mágica qualidade: a eleição de Nelson Mandela como Presidente a África do Sul em 1994 e os quinze milhões de cidadãos que por todo o mundo sairam à rua em 15 de fevereiro de 2003 para protestar contra a invasão do Iraque. Muito distintos entre si, estes três acontecimentos têm em comum uma concepção pós-nacionalista do mundo. O mundo é a cidade natal da esperança e o que acontece num país diz respeito a todos os demais. Partilham também o serem testemunho da inesgotável criatividade da espécie humana, para o melhor e para o pior.

Os três acontecimentos foram considerados impossíveis quase até ao momento de nos baterem à porta. Partilham ainda a capacidade mágica dos seres humanos de celebrarem incondicionalmente a magia dos momentos de comunhão liberta dos contrangimentos da realidade, como se esta tivesse saído para almoçar e ainda não tivesse regressado.

Mas a relação entre a vitória de Obama e os dois outros acontecimentos é ainda mais profunda. Obama e Mandela são dois homens com fortes raízes na África e são orgulhosos das sua raízes. Mandela é, além de tudo, um líder de linhagem nobre Xhosa e Obama é membro da etnia Lou do Quenia (uma etnia discriminada antes e depois da independência), como refere com naturalidade no seu livro bestseller. As suas identidades foram tecidas pela memória do sofrimento injusto, da segregação, do colonialismo.

Mandela simboliza o caso extremo de uma maioria submetida a um cruel sistema da apartheid durante décadas. Obama, apesar de não ser ele mesmo descendente de escravos, simboliza o resgate do inominavél sofrimento que foi infligido aos afro-americanos, um sofrimento tão naturalizado pelos opressores que continuou até aos nossos dias sob a forma do racismo. Para além do voto dos brancos, Obama conquistou o voto esmagador dos cidadãos afro-descendentes e latino-descendentes e conquistou ainda o voto de uma minoria quase esquecida, os jovens.

A sua vitória é a vitória das minorias quando estas descobrem que, unidas, são a maioria. Nos últimos quinze anos, a África mostra-se ao mundo nos ombros destes dois gigantes e assim responde Basta! aos insultos do Banco Mundial e do FMI para quem a África é o continente infeliz onde o capitalismo global decidiu depositar multidões de seres humanos considerados descartáveis. Por uma via muito própria—selada no seu passado colonial - a África chega ao protagonismo mundial que nas duas últimas décadas conquistaram a Ásia e a América Latina (que também é Afro-latina e Indo-latina).

A relação entre a vitória de Obama e os milhões em protesto contra a guerra ilegal e injusta contra o Iraque não é menos relevante. As multidões em protesto não conseguiram impedir a guerra, tal como aconteceu com o senador Obama, um dos poucos que votou contra a guerra. Mas agora, como presidente dos EUA, tem nas suas mãos a possibilidade de pôr fim a essa guerra e, aliás, foi isso mesmo que prometeu aos seus eleitores. Os que votaram neles querem aliás que ele ponha fim à guerra gêmea que avassala o Afeganistão.

Neste domínio o seu estado de graça será curto, tanto no país como no mundo. O Afeganistão tem uma memória e uma história exaltantes de lutas vitoriosas contra invasores estrangeiros bem mais poderosos militarmente. Não há armas que verguem este país. Tudo indica que Obama privilegiará a diplomacia e que entenderá que a Al-Queda não pode ser destruída militarmente. Pode, isso sim, ser isolada pela paz e pela cooperação não colonialista. A vitória de Obama significa que, afinal, os protestantes não protestaram em vão.

A menção conjunta de três acontecimentos que visam devolver a humanidade ao melhor de si mesma pode ser surpreendente já que a vitória de Obama parece ter um significado global incomparavelmente superior aos dos outros dois. Este desequilíbrio é o resultado do privilégio hegemônico dos EUA no mundo de hoje, um privilégio em declínio, sobretudo no domínio econômico, mas por enquanto muito forte. Para o bem e para o mal. O 11 de Setembro “transformou o mundo” quando outras populações do mundo sofrem anualmente ataques tão injustos, tão criminosos e muitas vezes mais devastadores do que o ataque às torres gêmeas, sem que isso mereça mais de uma pequena referência noticiosa. Da mesma forma, um pequeno país, o Paraguai, elegeu, em 2008, um bispo, teólogo da libertação, para libertar o país da mais odiosa oligarquia sem que tal merecesse referência detalhada na imprensa internacional.

Obama tem esse privilégio de oferecer ao mundo inteiro um momento glorioso de hegemonia do bem. Só por isso ficará na história. Esse momento não durará muito. A realidade não costuma demorar muito quando sai para almoçar. Quando terminar, tudo vai depender do modo como o impulso do bem enfrentará o do mal. E tudo vai começar nos EUA, um país contraditório e sofrido. Contraditório, porque é o mesmo povo que há oito anos “elegeu” W.Bush, o pior presidente da história dos EUA. Sofrido, porque a estupidez, a avareza e a corrupção que dominaram a Casa Branca deixaram o país à beira da falência financeira e moral. Esta última foi rapidamente resgatada por Obama. A primeira será muito mais difícil de resgatar.

Fonte: CARTA MAIOR
http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=4025&boletim_id=488&componente_id=8559

Obama: a realização do sonho de Luther King

Aqui vai o artigo para a semana que entra sobre o significado de Barac Obama.Um abraçoLboff

Leonardo Boff
Teólogo

Obama: a realização do sonho de Luther King

A eleição do afro-americano Barack Hussein Obama para a presidiencia dos EUA realiza o sonho de Luther King Jr:”tenho um sonho de que um dia as pessoas seráo julgadas não pela cor de sua pele, mas pela força de seu caráter”. Tudo parece indicar que se iniciou, na política, um tempo pós-racista, pois tanto os eleitores quanto o cadidato não repararam a cor da pele mas a pessoa e suas idéias.

Esta eleição sinaliza também o fim da era dos fundamentalismos: do mercado, iniciado por Tatcher e Reagan, responsável pela atual crise econômico-financeira. E do político-religioso que alimentou a concepção imperial e belicosa da política externa dos EUA. Bush e Reagan acreditavam no Armageddon e no destino-manifesto, quer dizer, na excepcionalidade conferida por Deus aos EUA com a missão de levar a todo o mundo os valores da sociedade americana de cariz capitalista e individualista. Isso era feito por todos os meios, inclusive com conspirações, golpes de estado, articulados pela CIA e guerras “humanitárias”. Essa idéia de missão explica a arrogância dos presidentes, bem expressa numa frase do candidato McCain: “Os EUA são o farol e o líder do mundo. Podemos agir como bem entendemos: afinal somos o único poder da Terra. Os inimigos de ontem e de hoje hão de temer o nosso porrete”.

Bush criou o terrorismo de estado, constituindo-se no maior perigo para a humanidade. Não há de se admirar que tenha levado a uma ampla desmoralização do pais, inclusive a um anti-americanismo generalizado no mundo.

Essa atitude parece ter sido superada com Obama. À estratégia da guerra e do intervencionismo, ele opoõe a do dialogo aberto com todos, até com os talibãs. Enfatizou:”é preciso mais que tudo dialogar; a saída é uma ampla negociação e não apenas ataques aéreos e matança de civis”. Ele está convencido de que os EUA não merecem ganhar a guerra contra o Iraque porque está assentada sobre uma mentira e por isso, é injustificável.

Mas mais que tudo, ele soube captar o que estava latente na sociedade especialmente nos jovens: a necessidade de mudança. “Change”-mudança foi a grande palavra geradora. Suscitou esperança e auto-estima:”sim nós podemos”. Atirou as atenções para o futuro e para as oportunidades novas que se estão desenhando e não para a continuidade do passado e do presente desolador. Com isso falou para a profundade das pessoas e as mobilizou para dar um salto absolutamente inesperado e novo: eleger um negro, representante de uma tragédia humana que envergonha a história americana, de resto com páginas brilhantes de liberdade, de criatividade, de democracia, de ciência, de técnica e de artes que enobrecem cultura norte-americana. Obama deixou claro que a real força dos EUA não reside nas armas mas nestes valores morais e no potencial de esperança que vige no povo.

A eleição de Obama parece possuir algo de providencial, como se fora um gesto da compaixão divina para com a humanidade. Vivemos tempos dramáticos com grandes crises: a ecológica, a climática, a alimentar, a energética e a econômica. O arsenal conceptual e pratico disponível não oferece condições para forjar uma saída libertadora. Precisamos de uma mudança, de um novo horizonte utópico, de coragem para inventar novos caminhos. Faz-se necessário uma figura carismática que inspire confiança, segurança e serenidade para enfrentar estes cataclismos e galvanizar as pessoas para um novo ensaio de convivência, um modo diferente de arquitetar a economia e de montar um tipo de globalização pluripolar que respeite as diferenças e possa incluir a todos num mesmo destino juntamente com a Casa Comum, a Terra.

Barack Obama preenche estas exigências de carisma. Se for realmente profunda, a esperança criará seu caminho por entre os escolhos e as ruínas da velha ordem.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

CARTA DA TERRA, nosso trabalho continua


Carta da Terra
Nosso trabalho continua


Painel: “O Mundo e você” realizado pelos grupos: Girassol e lobo-Guará
Escola: Arte de crescer
Professoras : Cléa Mara e Rosana Arvani.


O objetivo deste texto é divulgar um trabalho realizado com crianças de 5 e 6 anos sem deixar de ter claro preceitos teóricos que estão nos livros ou que muitos afirmam não serem condizentes com a prática diária da educação.

O trabalho foi realizado com a turma Girassol em uma escola de Educação Infantil, o tema proposto Carta da Terra para crianças.

A partir das observações do espaço físico geográfico, o grupo saiu para um passeio e observação da Rua e Avenida, ao entorno da escola. Observou-se o fluxo de carro, sujeiras e poluição feita pelo homem e como tudo isso prejudica a todos nós. De posse das observações foi construído com o grupo um folder no qual registramos a poluição observada e como devemos combater.
Durante este trabalho que envolveu conversas, relatos, desenhos e outros exercícios das áreas do conhecimento o grupo chegou a verbalizar: “O que eu faço para mim eu também faço para o outro, seja coisa boa ou seja coisa ruim. Como jogar lixo na rua.” Ou ainda “o nosso folder pode poluir também se alguém não quiser mais e jogar na rua”. Com falas assim as crianças expressaram consciência sobre os próprios atos e como estes podem prejudicar o outro. A conclusão desta parte do trabalho foi a construção da carta resposta a Terra, que foi publicada no blog Vivemos Juntos e do painel “O Mundo e você” com o planeta Terra ao centro, auto-retrato de cada criança contornando e desenhos do que é importante para mim é para o outro, emoldurando o trabalho.

Pela integração das áreas do conhecimento ampliamos os estudos para a Amazônia, o Brasil e o Planeta com o conceito de INTEGRAÇÂO da Carta da Terra sinalizando que tudo está interligado, que meus atos podem prejudicar a mim e ao outro e vice versa como as crianças concluíram.

Não deixando de ter em mente objetivos pedagógicos definidos, o tema Brasil foi trabalhado pela interdisciplinaridade e metodologias para a construção dos conhecimentos e desenvolvimento das habilidades e competências. Habilidades estas que tem como base os 4 pilares educacionais: aprender a ser, a fazer, a conhecer e a vivermos juntos . Além da construção e busca do conhecimento pertinente e da Identidade Planetária afinal o livro “Os sete saberes necessários à educação do futuro”, e outros deste mesmo autor, Edgar Morin, permitiu e permite o diálogo entre a teoria e a prática do trabalho realizado, que pela poucas palavras escritas neste texto procuro registrá-lo.

Com base, portanto, nos pilares educacionais, na interdisciplinaridade, nas disciplinas e na busca pelo conhecimento, o tema Brasil foi trabalho no projeto linha do tempo, no qual contemplamos pelo jornal falado, pela escrita, e artes gráficas as habilidades aqui referidas.

De forma lúdica, porém com objetivos pedagógicos bem definidos as crianças leram jornais, textos científicos (adequados a sua faixa etária) livros e outros portadores de textos referentes ao assunto, ouviram e viram os vídeos da Amazônia, escreveram pautas dos jornais, reportagens, textos individuais e coletivos, discussões e se expressaram pela fala, através da dramatização do jornal televisionado construído em toda a sua integra pelas crianças. Eu, professora, segui meu trabalho de mediar e orientar com prazer de vê-los desenvoltos tecendo a pequena, porém grande, teia do saber.

Diante dessa proposta o Grupo Girassol apresenta uma Linha do Tempo que tem seu início na Pré-história da America do Sul cuja denominação Geo/histórica é A.P. (Antes do Presente) com o Brasil antes de se chamar Brasil no qual aprendemos e apresentamos os Paleo-índios, e animais de grande porte como Preguiça-gigante, Tigre-dente-de-sabre, Anta de porte médio (diferente da espécie atual) desenhos rupestres e cerâmicas. Todo esse trabalho baseado em fatos históricos descobertos por volta de 40 à 10 mil anos da época atual.

O segundo foco foi em 1500 com a chegada dos portugueses e o início do desmatamento com a extração desordenada do Pau – Brasil. Que recebeu o nome Brasil 500 anos na linha do tempo.
E o tema: Brasil hoje, como é? No qual os objetivos são Fauna, Flora e o desmatamento da Amazônia com a observação de mapas de como era a área de cobertura vegetal em 1500, 2000, 2007 e como poderá ficar em 2020.

Na conclusão dos mapas e trabalhos sobre a Amazônia o grupo Girassol mais uma vez nos mostra e verbaliza que, com a Amazônia desaparecendo todos vamos ser prejudicados e que nossa Amiga Terra deve estar muito triste, porque o ar bom das árvores não é nosso e sim de todos os seres vivos.

Interligando os temas, transcendendo o tempo através do aprendizado, construindo a identidade de ser brasileiro e conhecer o Brasil seja atual ou no passado recente, em se tratando da era histórica e cronológica da existência da humanidade, desenvolvemos o trabalho de alfabetização, afinal são crianças a serem alfabetizadas, conquistamos o nosso espaço de cidadãos, desenvolvemos a consciência Planetária e a importância do Eu e do Outro neste processo em defesa do meio ambiente e da nossa Amiga Terra sem deixar de ensinar a todos o que aprendemos.

Para finalizar, deixo registrado que pela simplicidade, e considerando a criança como produtora e construtora do saber, a ação de ensinar e alfabetizar tornou-se significativa, prazerosa e transcendeu o ato de ensinar. Para exemplificar melhor recorro a Morin que afirma: ”Educar para compreender a matemática ou uma disciplina determinada é uma coisa; educar para a compreensão humana é outra. Nela encontra-se a missão propriamente espiritual da educação: ensinar a compreensão entre as pessoas como condição e garantia da solidariedade intelectual e moral da humanidade”. (Os sete saberes necessários à educação do futuro, 2001, p. 93)

Cléa Mara Mattos – professora do 1º ano do Ensino Fundamental

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Política de mentes partidas, artigo de Leonardo Boff

Leonardo Boff
Teólogo

Não sabemos o que é pior no Rio de Janeiro: se a cidade partida entre favela e asfalto ou a política conduzida por mentes partidas entre sociedade e partidos. Mentes partidas são as dos políticos que se orientam mais pelos interesses dos partidos (partido é sempre parte) do que pelos interesses gerais da sociedade. O que assistimos nas últimas eleições para prefeito da cidade foi o predomínio soberano da mente partidária e da convicção ilusória de que os graves problemas da cidade se resolvem a partir da máquina do poder federal, estadual e local. É a velha fórmula que nunca deu certo: esperar as soluções que vêm de cima, da articulação dos poderes públicos, deixando à margem a sociedade e o poder da cidadania.

A gravidade da crise econômica, política, sanitária, educacional e de segurança da cidade que um dia foi “maravilhosa” e cheia de glamour exige uma nova forma de governar, uma alternativa de poder. Não pode ser mais do mesmo. Quer dizer, mais poder de cima para baixo, mais articulação entre os partidos, mais policia e mais repressão. A solução possível só pode vir de baixo para cima. Vale dizer, mais poder no meio do povo, mais envolvimento das comunidades e dos movimentos, mais participação dos cidadãos. O estado deve realizar radicalmente sua natureza e missão: ser a instância delegada do poder popular, o articulador das forças sociais e políticas em vista do bem de todos. O estado tem que se convencer de que não está acima nem de costas dos cidadãos. Ele é seu servidor. A impressão que temos é de que o povo, a cada quatro anos, tem o direito de escolher o seu ditador. Uma vez eleito, o cadidato faz uma política de ditador, palaciana e somente com os pares. A centralidade não é ocupada pelo povo. Geralmente se faz uma política pobre para com os pobres e rica para com os ricos. Essa é a grande partição que aprofunda o apartheid social vigente na cidade.

Assistimos nas últimas eleições o confronto de dois paradigmas politicos. Por um lado, Fernando Gabeira, vindo de larga experiência no exterior, líder do movimento ecológico, da democracia participativa, numa palavra, representante do pensamento alternativo e da política da democracia sem fim. Inaugurou uma forma nova de fazer campanha política ao redor de promessas às quais foi sempre fiel: não sujar a cidade com outdoors de sua imagem, transparência quanto aos doadores de campanha e jamais fazer acusações ao adversário. O outro, Eduardo Paes, com a maioria dos partidos que o apoiaram, representava a visão velhista e a confiança ingênua de que com as bênçãos e os gestos de subserviência aos poderes de cima - estadual e federal - teria a chave de solução para drama político-social da cidade. Os métodos de campanha foram os mais tradicionais e reprováveis: difamação, panfletos anômicos acusatórios e golpes baixos nos debates públicos.

A miopia dos partidos-parte, muitos deles de esquerda, impediu de ver por onde passava o novo, a alternativa possível que poderia criar um exercício de poder diferente, capaz de suscitar um horizonte de esperança na população e o encaminhamento das complexas questões da cidade.

Não se há de minizar a esperteza politica do governador, própria de uma mente partida, de antecipar o feriado para segunda-feira, quando as eleições se realizariam no domingo. Ele sabe do desinteresse político de tantos que ao invés de votar, preferem sair da cidade para o lazer. Cerca de um milhão de pessoas deixou de comparecer às urnas. Aí estariam seguramente os 54 mil votos que faltaram à vitória da proposta alternativa de Gabeira. Bem comentava um taxista indignado: “fomos governados, por anos, por um garotinho, agora seremos por um rapazinho; o Rio merece destino melhor.”

Só nos resta desejar ao novo prefeito que faça uma administração que supere a partição social e devolva à cidade a visão encantada de mundo que a faz ser maravilhosa.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Crise de humanidade, de Leonardo Boff

Crise de humanidade
Leonardo Boff, teólogo

A crise econômico-financeira, presivísvel e inevitável, remete a uma crise mais profunda. Trata-se de uma crise de humanidade. Faltaram traços de humanidade minimos no projeto neoberal e na economia de mercado, sem os quais nenhuma instituição, a médio e longo prazo, se agüenta de pé: a confiança e a verdade. A economia presupõe a confiança de que os impulsos eletrônicos que movem os papéis e os contratos tenham lastro e não sejam mera matéria virtual, portanto, fictícia. Pressupõe outrossim a verdade de que os procedimentos se façam segundo regras observadas por todos. Ocorre que no neoliberalismo e nos mercados, especialmente a partir da era Thatcher e Reagan, predominiou a financeirização dos capitais. O capital financeiro-especulativo é da ordem de 167 trilhões de dólares, enquanto o capital real, empregado nos processos produtivos (por volta de 48 trilhões de dólares anuais). Aquele delirava na especulação das bolsas, dinheiro fazendo dinheiro, sem controle, apenas regido pela voracidade do mercado. Por sua natureza, a especulação comporta sempre alto risco e vem submetida a desvios sistêmicos: à ganância de mais e mais ganhar, por todos os meios possíveis.

Os gigantes de Wall-Street eram tão poderosos que impediam qualquer controle, seguindo apenas suas próprias regulações. Eles contavam com as informação antecipadas (Insider Information), manipulavam-nas, divulgavam boatos nos mercados, induziam-nos a falsas apostas e tiravam dai grandes lucros. Basta ler o livro do mega-especulador George Soros A crise do capitalismo para constatá-lo, pois ai conta em detalhes estas manobras que destroem a confiança e a verdade. Ambas eram sacrificadas sistematicamente em função do ganância dos especuladores. Tal sistema tinha que um dia ruir, por ser falso e perverso, o que de fato ocorreu.

A estratégia inicial norte-americana era injetar tanto dinheiro nos “ganhadores”(winner) para que a lógica continuasse a funcionar sem pagar nada por seus erros. Seria prolongar a agonia. Os europeus, recordando-se dos resquícios do humanismo das Luzes que ainda sobraram, tiveram mais sabedoria. Denunciaram a falsidade, puseram a campo o Estado como instância salvadora e reguladora e, em geral, como ator econômico direto na construção na infra-estutura e nos campos sensíveis da economia. Agora não se trata de refundar o neoliberalismo mas de inaugurar outra arquitetura econômica sobre bases não fictícias. Isto quer dizer, a economia deve ser capítulo da política (a tese clássica de Marx), não a serviço da especulação mas da produção e da adequada acumulação. E a política se regerá por critérios éticos de transparência, de equidade, de justa media, de controle democrático e com especial cuidado para com as condições ecológicas que permitem a continuidade do projeto planetário humano.

Por que a crise atual é crise de humanidade? Porque nela subjaz um conceito empobrecido de ser humano que só considera um lado dele, seu lado de ego. O ser humano é habitado por duas forças cósmicas: uma de auto-afirmação sem a qual ele desaparece. Aqui predomina o ego e a competição. A outra é de integração num todo maior sem o qual também desaparece. Aqui prevalece o nós e a cooperação A vida só se desenvolve saudavelmente na medida em que se equilibram o ego com o nós, a competição com a cooperação. Dando rédeas só à competição do ego, anulando a cooperação, nascem as distorções que assistimos, levando à crise atual. Contrariamente, dando espaço apenas ao nós sem o ego, gerou-se o socialismo despersonalizante e a ruína que provocou. Erros desta gravidade, nas condições atuais de interdepedência de todos com todos, nos podem liquidar. Como nunca antes temos que nos orientar por um conceito adequado e integrador do ser humano, por um lado individual-pessoal com direitos e por outro social-comunitário com limites e deveres. Caso contrário, nos atolaremos sempre nas crises que serão menos econômico-financeiras e mais crises de humanidade.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Carta de São Francisco aos governantes dos povos

Repasso o artigo semanal do Leonardo após ler incrédula no jornal local (Correio Braziliense p.20) que no encontro que marca os 800 anos de carisma de São Francisco de Assis que reuniria leigos e religiosso do mundo todo aqui em Brasília esse final de semana sua presença foi considerada pelo arcebispo de Brasília dom João Braz de Avis como de "uma pessoa que não está em comunhão com a igreja".

Bem, talvez com a igreja ele não esteja de acordo, pois sua crença e seu trabalho a favor do pobres e dos oprimidos é conhecido mundialmente, bem como esse trabalho repercutiu na igraja secular. Mas com certeza Leonardo está em comunhão com DEUS e se existe alguém que hoje consegue experienciar e compartilhar generosamente a comunhão com o sagrado, esse alguém é Leonardo.

Sua palavra amorosa e sua vida de generosidade modifica vidas, a minha incluindo.
Lamento muito que Leonardo depois de tudo que viveu e vive seja discriminado e ainda tentem silenciá-lo.

Fazendo um movimento contrário, PUBLICIZO o texto que ele escreveu para esse encontro e peço a gentileza de todos de envia-lo ao maior número de pessoas possível.

PAZ E BEM

Valéria Labrea

CARTA DE SÃO FRANCISCO AOS GOVERNANTES DO POVO

LEONARDO BOFF
TEÓLOGO

Quase no final de sua vida, Francisco de Assis escreveu uma carta aberta aos governantes dos povos. Mais de mil franciscanos, vindos do mundo inteiro, reunidos em Brasília em meados de outubro, tentaram reescrevê-la. Dei minha colaboração, proibida pelo bispo local, nestes temos: “A todos os chefes de Estado e aos portadores de poder neste mundo, eu Frei Francisco de Assis, vosso pequenino e humilde servo, lhes desejo Paz e Bem.
Escrevo-vos esta mensagem com o coração na mão e com os olhos voltados ao alto em forma de súplica.

Ouço, vindo de todos os lados, dois clamores que sobem até ao céu. Um, é o brado da Mãe Terra terrivelmente devastada. E o outro, é a queixa lancinante dos milhões e milhões de nossos irmãos e irmãs, famintos, doentes e excluídos, os seres mais ameaçados da criação.
É um clamor da injustiça ecológica e da injustiça social que implora urgentemente ser escutado.

Meus irmãos e irmãs constituídos em poder: em nome daquele que se anunciou como o “soberano amante da vida”(Sabedoria 11,26) vos suplico: façamos uma aliança global em prol da Terra e da vida.

Temos pouco tempo e falta-nos sabedoria. A roda do aquecimento global do Planeta está girando e não podemos mais pará-la. Mas podemos diminuir-lhe a velocidade e impedir seus efeitos catastróficos.

Não queremos que a nossa Mãe Terra, para salvar outras vidas ameaçadas por nós, se veja obrigada a nos excluir de seu próprio corpo e da comunidade dos viventes.

Por tempo demasiado nos comportamos como um Satã, explorando e devastando os ecossistemas, quando nossa vocação é sermos o Anjo Bom, o Cuidador e o Guardião de tudo o que existe e vive.

Por isso, meus senhores e minhas senhoras, aconselho-vos firmemente que penseis não somente no desenvolvimento sustentável de vossas regiões. Mas que penseis no planeta Terra como um todo, a única Casa Comum que possuímos para morar, para que ela continue a ter vitalidade e integridade e preserve as condições para a nossa existência e para a de toda a comunidade terrenal.

A tecno-ciência que ajudou a destruir, pode nos ajudar a resgatar. E será salvadora se a razão vier acompanhada de sensibilidade, de coração, de compaixão e de reverência.

Advirto-vos, humildemente, meus irmãos e irmãs, que se não fizerdes esta aliança sagrada de cuidado e de irmandade universal deveis prestar contas diante do tribunal da humanidade e enfrentar o Juízo do Senhor da história.

Queremos que nosso tempo seja lembrado como um tempo de responsabilidade coletiva e de cuidado amoroso para com a Mãe Terra e para com toda a vida.

Por fim, irmãos e irmãs, modeladores e modeladoras de nosso futuro comum: recordeis que a Terra não nos pertence. Nós pertencemos a ela pois nos gestou e gerou como filhos e filhas queridos. Custo aceitar que depois de tantos milhões e milhões de anos sobre esse planeta esplendoroso, tenhamos que ser expulsos dele.

Pela iluminação que me vem do Alto, pressinto que não estamos diante de uma tragédia cujo fim é desastroso.

Estamos dentro de uma crise que nos acrisolará, nos purificará e nos fará melhores. A vida é chamada à vida. Nascidos do pó das estrelas, o Senhor do universo nos criou para brilharmos e cantarmos a beleza, a majestade e a grandeza da Criação que é o espaço do Espírito e o templo da Santíssima Trindade, do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

Se observardes tudo isso que Deus me inspirou para vos comunicar em breves palavras, garanto-vos que a Terra voltará novamente a ser o Jardim do Éden e nós os seus dedicados jardineiros e cuidadores”. Assinado F. de Assis.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Os engodos do mercado

Leonardo Boff
Teólogo
Podemos imaginar a profunda perplexidade que a crise dos mercados mundiais se abateu sobre os ideólogos do neoliberalismo, do Estado mínimo e dos vendedores das ilusões do mercado. A queda do muro do Berlin em 1989 e a implosão da União Soviética provocou a euforia do capitalismo. Reagan e Tatcher, agora sem o contraponto socialista, aproveitaram a ocasião para radicalizar os “valores” do capitalismo, especialmente das excelências do mercado que tudo resolveria. Para facilitar a obra, começaram por desmoralizar o Estado como péssimo gestor e difamar a política como o mundo da corrupção. Naturalmente havia e ainda há problemas nestas instâncias. Mas não se pode abrir mão do Estado e da política se não quisermos regredir à barbárie social. Em seu lugar, dizia-se, devem entrar as ordenações excogitadas no seio dos organismos nascidos em Bretton Woods e dos grandes conglomerados multiraterais. Entre nós, chegou-se a ridicularizar quem falasse em projeto nacional. Agora, sob a globalização, insistiam, vigora o projeto-mundo. E o Brasil deve inserir-se nele, mesmo de forma subalterna. O Estado deve ser reduzido ao mínimo e deixar livre campo para mercado fazer os seus negócios.

Nós que viemos, como tantos outros, do compromisso com os direitos humanos, especialmente, dos mais vulneráveis, demo-nos logo conta de que agora o principal violador destes direitos era o Estado mercantil e neo-liberal. Pois os direitos deixavam de ser inalienáveis. Eram transformados em necessidades humanas cuja satisfação deve ser buscada no mercado. Só tem direitos quem pode pagar e for consumidor Não é mais o Estado que vai garantir os mínimos para a vida. Como a grande maioria da população não participa do mercado, via negado seu direito.

Podemos e devemos discutir o estatudo do Estado-nação. Na nova fase planetaria da humanidade mais e mais se notam as limitações dos Estados e cresce a urgência de um centro de ordenação política que atenda às demandas coletivas da humanidade por alimento, água, saúde, moradia, saúde e segurança. Mas enquanto não chegarmos à implantação deste organismo, cabe ao Estado ter a gestão do bem comum, impor limites à voracidade das multinacionais e implementar um projeto nacional.

A crise econômica atual desmascarou como falsas as teses neoliberais e o combate ao Estado. Com espanto um jornal empresarial escreveu em letras garrafais em sua secção de economia “Mercado Irracional” como se um dia o mercado fosse racional, mercado que deixa de fora 2/3 da humanidade. Uma conhecida comentarista de assuntos econômicos, verdadeira sacerdotiza do mercado e do Estado mínimo, inflada de arrogância escreveu:”As autoridades americanas erraram na regulação e na fiscalização, erraram na avaliação da dimensão da crise, erraram na dose do remédio; e erram quando têm comportamento contraditório e errático” E por minha conta, acrescentaria: erraram em não convoca-la como a grande pitoniza que teria a solução adivinhatória para a atual crise dos mercados.

A lição é clara: deixada por conta do mercado e da voracidade do sistema financeiro especulativo, a crise ter-se-ia transformado numa tragédia de proporções planetárias pondo em grave risco o sistema econômico mundial. Logicamente, as grandes vitimas seriam os de sempre: os chamados zeros econômicos, os pobres e excluídos. Foi o difamado Estado que teve que entrar com quase dois trilhões de dólares para, no último momento, evitar o pior. São fatos que nos convidam a revisões profundas ou pelo menos, para alguns a serem menos arrogantes.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Carta da Terra para as Crianças-GIRASSOL


Queridas e lindas crianças GIRASSOL,

Hoje estou muito feliz ao sentir o carinho com que vocês, crianças-flores, cuidam de mim. Já pensaram como seria bacana se todas as pessoas agissem como vocês... Muito obrigada.
De tão emocionada, fiz até cair CHUVA no Cerrado e acabei cum uma seca de 6 meses!!
De tão alegre, os indios da Amazônia dançaram comigo, na beira do iguapé!
Para o dia de vocês ficar mais colorido, notaram como as cores das árvores estão mudando...Reparem nas árvores floridas que embelezam as suas ruas...
Tudo isso porque vocês, crianças-flores lembraram de mim, a TERRA!!


Vocês já pararam para pensar que os seres humanos, as plantas e os outros animalzinhos são SERES VIVOS. Como VIVOS todos vocês fazem parte do grande ciclo de vida que garante que eu, a Terra, continue VIVA também... Assim, estamos todos ligados, olha que bonito!

Olhem só, vamos combinar o seguinte: cada um de vocês fará UMA boa ação por dia. Só uma.

Se cada um de vocês fizer uma boa ação por dia já basta, pois vocês todos juntos são MUITOS a cuidar de mim.


Em troca, eu também vou cuidar de vocês e garantir que todos os seres humanos morem em mim. Eu vou continuar sendo a sua casa.

Vocês vão aprender e se divertir muito transformando a TERRA em um lugar melhor.

Meu amor e minha esperança mora em seus corações.

Muitos beijos da TERRA.

domingo, 21 de setembro de 2008

Democracia na Fábrica, Leonardo Boff

Leonardo Boff
Teólogo

A democracia entrou na fábrica Indubitavelmente a democracia é o melhor modelo de organização poliitica que a humanidade já excogitou. No entanto, lá onde se introduziu no contexto de relações capitalistas de produção, vive em permanente crise. Por sua própria lógica interna, tais relações produzem desigualdades sociais e exclusões que corroem pela base a idéia mesma de democracia. Democracia que convive com miséria e exploração se transforma numa farsa e representa a negação da própria democracia. É notório que a democracia sempre parou na parta da fábrica. Lá dentro vigora, com elogiosas exceções, a ditadura dos donos e de seus administradores. Não obstante esta contradição, nunca cessa a vontade de fazer da “democracia, valor universal”, sonho imorredouro do notável teórico italiano, Norberto Bobbio, ou a “democracia sem fim” de Boaventura de Souza Santos, quiçá o melhor pensador político português, quer dizer, a democracia como projeto a ser realizado em todos os âmbitos da convivência humana e indefinidamente perfectível.

Em todas as partes, se procura romper o pensamento único e o modo único de produção capitalista, inventando formas participativas de produção e abrindo brechas novas pelas quais se possa concretizar o espírito democrático.

Recentemente, tive a oportunidade de assistir o exercício democrático de produção dentro de uma fábrica de cerâmica na cidade de Neuquén no sul da Argentina, na porta de entrada da Patagônia. Trata-se da Cerâmica Zanon, que pertencia a um grupo econômico multinacional, cujo dono principal era Luis Zanon, da empresa Ital Park, testa de ferro da privatização das Aerolineas Argentinas e um dos cem empresários mais ricos na Argentina. Este empresário, em 2001, estava prestes a decretar a falência da empresa. Chegou a demitir 380 operários e, ao mesmo tempo, tomava milionários empréstimos de vários organismos financeiros, para com a falência sair enriquecido. Tratava-se, portanto, de uma falência fraudulenta, como depois foi provado.

Os operários resistiram, começaram a se organizar e se articular com outras entidades sindicais, movimentos sociais, universidades, igrejas e diretamente mobilizando a sociedade civil local e até a nacional. Todos os intentos por parte da polícia de desaloja-los foram frustrados. Os operários assumiram a direção da fábrica de forma democrática, organizaram a complexa produção de cerâmica, de alta qualidade, com maquinaria moderna de origem italiana. Decretada a falência em 2005, trocaram o nome da fábrica. Agora se chama “Fasinpat”(fabrica sin patrones). Democraticamente ajustaram os departamentos, introduziram a rotatividade nas funções para todos poderem aprender mais, fizeram parcerias com a universidade local. Não só. A fábrica não se reduz a produzir produtos materiais mas também cultura, com biblioteca, visitação de escolas, shows multitudinários no grande pátio, colaboração com os indígenas mapuche que ofereceram sua rica simbologia assumida na produção. Lá trabalham 470 operários produzindo mensalmente 400 mil metros quadrados de vários tipos de cerâmica de comprovada qualidade.

Fazia gosto de ver o rosto dos operários desanuviados, libertos da servidão do trabalho alienado, contentes de estar levando avante a democracia real nas relações produtivas que se revertiam em relações humanizadoras entre eles. Sua postulação é que o Estado expropie a fábrica, sem pagar as dívidas por terem sido fraudulentas e entregue a gestão aos próprios operários a serviço da comunidade através de obras públicas como construção de casas populares, postos de saúde, colégios e outros fins sociais. Como se depreende, a democracia pode sempre crescer e mostrar seu caráter humanizador.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Carta para a Terra


Escola de Educação Infantil Arte de Crescer


São Paulo, 8 de setembro de 2008

Amiga Terra

Nós, as crianças, estamos tentando ajudar você.
Nós vamos ajudar você Terra a não ficar triste, nem doente com a poluição, guerra e destruição da natureza.
Nós, as crianças do 1º ano Girassol da Escola Arte de Crescer, fizemos um folder explicando para as pessoas, adultos e crianças, como não poluir a Terra e cuidar da mãe natureza.
Aqui na escola e na nossa casa nós reciclamos o lixo e separamos.
Na nossa sala nós reutilizamos o copo descartável 3 vezes, ou mais, antes de jogar fora. Isso chama reutilizar.
Cada criança tem o seu copo para beber água quantas vezes quiserem, ou seja, reutilizar o seu copo durante a aula para não jogar muitos copos no lixo.
Nós usamos 10 garrafas, uma para cada criança, para plantar flores e árvores.
Nós estamos reutilizando e reciclando tudo o que a gente pode para ajudar você Terra.
Temos o cuidado de não deixar a torneira aberta jogando água fora e desperdiçando enquanto lavamos a mão ou escovamos os dentes.
Nós vamos continuar ajudando você Terra para não ficar triste ou doente.
Isso também esta nos ajudando e ajudando todos os seres vivos a não morrer ou ficar doente.

Beijos.

1º ano Girassol

domingo, 14 de setembro de 2008

Sabedoria Mapuche

Leonardo Boff
Teólogo
Hoje enfrentam-se dois olhares contraditórios com referencia à Terra. Um, a vê como um grande objeto, destituído de espírito, à disposição do ser humano que pode dispôr de seus recursos como bem entender. Este olhar permitu o projeto técnico-científico de conquista e dominação da Terra, que está na base do atual aquecimento global. O outro, a considera como um super organismo vivo, a Gaia dos modernos ou a Pacha Mama dos povos originários andinos. Ela se auto-regula e articula todos os seus componentes de forma que se faz a permanente produtora e reprodutora de todo o tipo de vida.

Este segundo olhar, foi o dominante na história da humanidade e foi responsável pelo equilíbrio que se estabeleceu entre a satisfação das necessidades humanas e a manutenção do capital natural em sua integridade e vitalidade. Hoje cresce a consciência de que o primeiro olhar – da dominação e devastação – precisa ser limitado e superado, pois, do contrario, pode provocar imenso desastre no sistema da vida. A Terra seguramente continuará, mas talvez sem a nossa presença. Dai a urgência de revisitar os portadores do primeiro olhar – da Terra como Grande Mãe e Casa Comum- pois eles são portadores de uma sabedoria que nos falta e de formas de relação para com a natureza que nos poderá salvar. Então nos encontramos com os povos originários, os indígenas que, segundo dados da ONU, são mais de cem milhões no mundo inteiro, distribuídos em quase todos os paises, como no extremo Norte com os sami (esquimós) ou no extremo Sul, com os mapuche.

Em setembro do corrente ano pude me entreter longamente com os mapuche que vivem na Patagônia argentina e chilena. São muitos, somente no sul do Chile mais de quinhentos mil. Vivem nestas regiões andinas há cerca de 15 mil anos. Resistiram a todas as conquistas. Quase foram exterminados, no lado argentino, pelo feroz general Roca e, no lado chileno, são muito discriminados. Aos que hoje ocupam terras que eram suas, se aplicam as leis contra os terroristas da constituição de Pinochet.

Falando com seus lideres (lonko) e sábios (machis), logo salta à vista a extraordinária cosmologia que elaboraram. Tudo é pensado em quatro termos. Segundo C.G. Jung, o número quatro constitui um dos arquétipos centrais da totalidade. Sentem-se tão vinculados à Terra que se chamam “mapu-che”: seres (che) que são um com a Terra (mapu). Por isso se sentem água, pedra, flor, montanhas, insetos, sol, lua, todos irmanados entre si. Aprenderam a descodificar e comprender o idioma da Mãe Terra (Ñeku Mapu): o soprar do vento, o pio do pássaro, o farfalhar das folhas, o movimentos das águas e principalmente os estados do sol e da lua. Em tudo sabem tirar lições. Seu ideal maior é viver e alimentar profunda harmonia com todos os elementos, com as energias positivas e negativas e com o céu e com a terra. Sentem-se os cuidadores da natureza. A comunidade sobe ao morro mais alto. Toda a terra que avista até se encontrar com o céu, é-lhe designada para cuidar. Perturbam-se quando outros não mapuche penetram estas terras para introduzir cultivos, pois entendem que assim se torna mais difícil cumprir a sua missão de cuidar.

Desenvolveram sofisticados métodos de cura. Toda doença representa uma quebra do equilíbrio com as energias da Terra e do universo. A cura implica reconstituir este equilíbrio, de sorte que o enfermo se sinta novamente inserido no todo. Os mapuche são orgulhosos de seu conhecimento. Não aceitam que seja considerado folclore ou visão ancestral. Insistem em dizer que é um saber tão sério e importante como o nosso científico, apenas diferente. Na busca de regeneração da Terra eles podem nos inspirar

domingo, 7 de setembro de 2008

Pistas práticas para cuidar da Terra (II)

Estou enviando artigo para a proxima semana.
Um abraço
lboff

Leonardo Boff
Teólogo

No artigo anterior referimos pistas práticas que tinham a ver com a mudança da mente ou do olhar. Agora importa considerar as mudanças das práticas da vida cotidiana:
Procure em tudo o caminho do diálogo e da flexibilidade porque é ele que garante o ganha-ganha e é uma forma de diminuir os conflitos e até poder resolvê-los.
Valorize tudo o que vem da experiência, dando especial atenção aos que não são ouvidos pela sociedade.
Tenha sempre em mente que o ser humano é um ser contraditório, sapiente e ao mesmo tempo demente; por isso seja critico e simultaneamente compreensivo.
Tome a sério o fato de que as virtualidades cerebrais e espirituais do ser humano constituem um campo quase inexplorado. Por isso sempre esteja aberto à irrupção do improvável, do inconcebível e do surgimento de emergências.
Por mais problemas que surjam, a democracia sem fim é sempre a melhor forma de convivência e de superação de conflitos, democracia a ser vivida na família, a comunidade, nas relações sociais e na organização do estado.
Não queime lixo e outro rejeitos, pois eles fazem aumentar o aquecimento global. Eles podem ser reciclados.
Avise às pessoas adultas ou às autoridades quando souber de desmatamentos, incêncios florestais, comércio de bromélias, plantas exóticas e de animais silvestres.
Ajude a manter um belo visual de sua casa, da escola ou do local de trabalho, pois a beleza é parte da ecologia integral.
Anime a grupos para que no bairro se crie um veículo de comunicação, uma folha ou um pequeno jornal, para debater questões ambientais e sociais e acolher sugestões criativas.
Fale com frequência em casa, com os amigos, com os moradores de seu prédio e na rua sobre temas ambientais e de nossa responsabilidade pelo bem viver humano e terrestre.
Reduzir, reutilizar, reciclar, rearborizar, rejeitar (a propaganda espalhafatosa), respeitar e se responsabilizar. Estes 7 erres (r) nos ajudam a sermos responsáveis face à escassez de bens naturais e são formas de sequestar dióxido de carbono e outros gáses poluentes da atmosfera.
O Pe. Cícero Romão Batista, um dos ícones religiosos do povo do Nordeste do Brasil, elaborou, no início do século XX, dez preceitos de conteúdo ecológico:
“Não derrube o mato nem mesmo um só pé de pau.
-Não toque fogo no roçado nem na caatinga.
-Não cace mais e deixe os bichos viverem.
-Não crie o boi nem o bode soltos: faça cercados e deixe o pasto descansar para que possa se refazer.
-Não plante serra acima, nem faça roçado em ladeira muito em pé; deixe o mato protegendo a terra para que a água não a arraste e para que não se perca a sua riqueza.
-Faça uma cisterna no canto de sua casa para guardar a água da chuva.
-Represe os riachos de cem em cem metros ainda que seja com pedra solta.
-Plante cada dia pelo menos pé de árvore até que o sertão seja uma mata só.
-Aprenda a tirar proveito das plantas da caatinga.
Se o sertanejo obedecer a estes preceitos, a seca vai se acabando, o gado melhorando e o povo terá o que comer.
Mas, se não obedecer, dentro de pouco tempo, o sertão todo vai virar um deserto só”.
Estas práticas nos dão a esperança de que as atuais dores não são de morte mas de um novo nascimento. A vida triunfará.

domingo, 31 de agosto de 2008

3o. Congresso Internacional Transdisciplinaridade, Complexidade e Ecoformação

O 3o. Congredo de Transdisciplinaridade começa terça-feira na Universidade Católica de Brasília.
A programção está super bacana com a presença de Edgar Morin, Francisco Gutierrrez e Cruz Prado, Leonardo Boff, Lais Mourão, Vera Catalão, Pedro Demo.

site do evento: http://www.catolicavirtual.br/citce/

A Profa. Lais Mourão e eu organizamos um e-book "A Arca de Morin" com textos dos alunos que passaram pela disciplina O Método da Complexidade" na Universidade de Brasília entre 2003 e 2008. Vamos entregar ao Edgar Morin como uma homenagem e agradecimento pelos conhecimentos que ele tão generosamente compartilha.

PROGRAMA DE ATIVIDADES DO CONGRESSO
02 de setembro
9:00hs
Auditório São Batista de La Salle Campus 01
Ato de Abertura e boas vindas.
Preside: Pe. José Romualdo Degásperi. Reitor da UCB.Coordena: Maria Cândida Moraes (Presidente do Congresso)Ministro da Educação (AC) e demais autoridades acadêmicas e institucionais.presentes.Catedrático Saturnino de La Torre/UB.

10hs - 10:30hs
Auditório São Batista de La SalleCampus 01
HOMENAGEM AO PIERRE WEIL
Coordenação:Prof. Dr. Ubiratan D´Ámbrósio Professor emérito da UNICAMP.Participação musical Valter Pini.
10:30hs - 11hs

Intervalo e café

11:00hs - 12:30hs
Auditório São Batista de La Salle
Palestra de Abertura:Complexidade globalizada e complexidade restringida.
Conferencista:Prof. Dr. Edgar Morin

12:30hs - 14:00hs

ALMOÇO

14:00hs - 15:00hs
Auditório São Batista de La Salle
Teleconferência:Mudança Global, ética planetária e a nova visão do mundo das ciências.
Conferencista:Prof. Dr. Ervin LaszloCoordena:Prof. Dr. Ubiratan D´Ámbrósio.
15:00hs - 15:30hs

Café

15:30hs - 17:00hs
Auditório São Batista de La Salle
Fórum:Ciência, consciência e transcendência.
Coordena:Elydio dos Santos Neto (UMESP).Participantes:Dr. Amâncio Friaça (USP); Dr. Jung Mo Sung (UMESP), Pe. Pedro Garcia (Madri)
15:30hs - 17:00hs
Auditorio K
Fórum:Sustentabilidade e mudança real: a necessidade de ampliação de consciência e de responsabilidade social.
Coordena:Sra. Simone Ramounoulou (WHH);Dra. Regina Fittipaldi/UNIPAZ;Dr. Mauricio Andrés Ribeiro (ANA);Dra. Maria Teresa Peres de Souza (CEF)

17:00hs - 18:00hs
Auditório São Batista de La Salle
Conferência:Transdisciplinaridade, educação e cidadania.
Conferencista:Prof. Dr. Ubiratan D´Ámbrósio (UNICAMP).

03 de setembro
8:30hs - 9:00hs
Auditório São Batista de La Salle
Cenário Transdisciplinar
Dra. Carmen Oliver (DOE-UB)Pedro García (OSCM)

9:00hs - 10:00hs
Auditório São Batista de La Salle
Reflexão dialógica sobre práticas psicossociais:Nova formação em pesquisa-ação transdisciplinar.
Conferencista:Dr. Pascal GalvaniUniversidade de QuebecCanadá.

10:00hs - 10:30hs

Café

10:30hs - 12hs
Auditório São Batista de La Salle
Fórum: Pesquisa Metodologia de pesquisa transdisciplinar.
Coordena:Dra. Albertina Mitjáns (UNB)Participantes:Dr. José Armando Valente (Livre-docente UNICAMP);Dr. Saturnino de La Torre (Catedrático - UB);Dr. Fernando Gonzalez Rey (UNICEUB).

12:00hs - 13:30hs

Almoço

13:30hs - 15:00hs
Auditório São Batista de La Salle
Fórum: Ecopedagogia e educação para a sustentabilidade.
Coordena: Dra. Rachel Trajber (MEC);Participam:Dra. Laís Mourão (UNB)Dr. Marcos Sorrentino (MMA)

13:30hs - 15:00hs

Fórum: RIES Rede Internacional de Ecologia dos Saberes.
Coordenam: Dr. Saturnino de La Torre (Catedrático-UB) e Maria Candida MoraesParticipantes:Dra. Nuria Rajadell (Vice-decana da Faculd Educação-UB);Dr. José Tejada (Cated.UAB) Dra. M. Luisa Sevilhano (Cated. UNED).Dra. Ecleide Furlanetto (UNICID)
15:00hs - 15:30hs

Café

15:30hs - 17:30hs
Mini-cursos e oficinas.
Veja relação de minicursos e oficinas abaixo.

17:30hs - 18:30hs.
Auditório São Batista de La Salle
Conferência:Ecopedagogia e bio-aprendizagem.
Conferencista:Dr. Francisco Gutiérrez Catedrático Universidade de la Salle Costa Rica.

04 de setembro
8:30hs - 9:00hs
Auditório São Batista de La Salle
Cenário transdisciplinar
Dra. Maria Antonia Pujol.(DOE-UB) e Montse Gonzalez (DOE-UB)

9:00hs - 10:00hs
Sala ou auditório a ser definido
Conferência:Entre uma educação corporal caótica e uma escolarização corporal ordenada.
Dr. Carlos CalvoUniversidade de la SerenaChile.

10:00hs - 10:30hs

Café

10:30hs - 12:00hs

Fórum:Transdisciplinaridade, sensibilidade e corporeidade.
Coordena:Dra. Ivani Fazenda (Livre-docente -PUCSP)Dra. Kátia Brandão (UFRN)Dr. Juan M. Batalloso Navas (IPF-ES).Dr. Carlos Emediato - Coord REDEPAZ.
10:30hs - 12:00hs

Fórum:Transdisciplinaridade e formação docente.
Coordena:Dra. Luiza Alonso (UCB)Participantes: Dr. José Tejada (Catedrático-UAB)Dra. Ecleide Furnaletto. (UNICID) Doutorando:Américo Somermann (CETRANS).

12:00hs - 13:30hs

Almoço

13:30hs - 15:00hs
Auditório São Batista de La Salle
Fórum:Avaliação cientifica e a urgência de novos enfoques.
Coordena:Catedrática; Flor Cabrera (MIDE-UB)Participantes:Dr. Pedro Demo (UNB) Catedrática Eleonora Badilha-Saxe (UCR)

15:00hs - 15:30hs

Café

15:30hs - 17:30hs

17:30hs - 18:30hs
Auditório São Batista de La Salle
Conferência plenária:Complexidade, redes sociais e sustentabilidade.
Conferencista:Dr. Raul Domingo Motta.

05 de setembro
8:30hs - 9:30hs
Auditório São Batista de La Salle
Conferência:A complexidade e o Vôo incerto da borboleta.
Dra. Maria Conceição de Almeida (GRECOM-UFRN)

9:30hs - 11:30hs
Auditório K
Fórum:Tecnologias digitais, complexidade e Transdisciplinaridade.
Coordena:Dra. Maria Luisa Sevillano (UNED)Participantes:Dra. Mônica Estrázula (UFRGS); Dra.Silvia Fichmann (USP); Dra. Lucila Pesce (PUC-SP)

9:30hs - 11:30hs
Auditório São João Batista de La Salle
Fórum:Paradigma educativo emergente e mediação pedagógica: Novas propostas de formação humana.
Coordena:Dr. Edson Kondo (UCB)Participantes:Dr. Francisco Gutiérrez UCR); Dr. Carlos Calvo (ULS-Chile); Dr. Oscar Azmitia (Reitor Un. de la Salle); Dr. Adriano Nogueira (IPF-Br) Prof. Dr. Leonardo Boff (UERJ).

11:30hs - 12:30hs
Auditório São João Batista de La Salle
Conferencia de Encerramento:Os desafios de uma consciência planetária na perspectiva de um futuro comum.
Conferencista:Prof. Dr. Leonardo Boff

12:30hs - 13:00hs
Auditório São João Batista de La Salle
Ato de encerramentoConclusões e encaminhamentos. Apresentação musical
Autoridades acadêmicas e institucionais.Preside:Reitor da UCB José Romualdo Degásperi.Coordena:Maria Cândida Moraes (Presidente do Congresso) Catedrático Saturnino de La Torre/UB.

OFICINAS E MINI-CURSOS A SEREM OFERECIDOS
OFICINAS

Saberes da tradição e narrativas complexas da saúde e da ecologia - Dra. Maria Conceição de Almeida (UFRN) e doutorando João Bosco Filho (UFRN);

Educação integral na perspectiva transdisciplinar - Dra. Vera Lucia Sousa e Silva (FURB);

Danças circulares sagradas - Sra. Renata C. Lima Ramos (TRIOM);

Mediação Pedagógica - novos processos de doutorado em educação - Dra. Cruz Prado, Catedrática da Universidade de Costa Rica;

O sentido das práticas interdisciplinares na formação do aluno em sala de aula - Dra. Ivani Fazenda, PUC-SP, coordenadora do GEPI;

Jogos cooperativos e Transdisciplinaridade - Doutorando Marcos T.P Almeida (UFC).
MINI-CURSOS

Complexidade, holística e educação - Dra. Izabel Cristina Petráglia (UNINOVE);

Como trabalhar o diálogo transdisciplinar em sala de aula - Dr. José Bonill (UAB);

Metodologia de projetos: uma visão transdisciplinar do processo de gestão educacional - Dr. Fernando Leme do Prado - (Presidente ANET);

Da grade curricular à teia transdisciplinar - Profs. Patrícia Limaverde Nascimento e Fátima Limaverde (Escola Vila-Fortaleza, CE).

Docência transdisciplinar - Dra. Rosamaria Arnt (CUSC) e Dra. Roberta Galasso (CUSC);

Critérios de Avaliação científicos: a necessidade de novos paradigmas - Dra. Flor Cabrera (Catedrática - UB);

Corporeidade e criatividade: Deixando pegadas na terra e desfrutando da plenitude do horizonte - Doutoranda Profa. Inma Benedico (UB);

Sandplay e transdisciplinaridade - Dra. Kátia Brandão e Ana Tânia Sampaio - (FACEX - UFRN);

Emoções, sentimentos, consciência e medo sob o olhar transdisciplinar - Dr. Duglas Werkekin Filho (USF);

Escuta musical: uma estratégia transdisciplinar para Sentipensar - Dra. Enny Parejo (FCC);

Água como matriz pedagógica: da bacia hidrográfica à bacia pedagógica - Dra. Vera Catalão e Dra. Josefina Reis (UNB);

Jogos em família. Um olhar intercultural e transdisciplinar - Catedrática Dra. Maria de Borja (DOE-UB).

As oficinas e mini-cursos serão oferecidos nos dias 02 e 03 de setembro, com duração prevista de 2 e 4 horas, respectivamente. As inscrições serão feitas junto à Secretaria do Congresso, no dia 02, no momento da entrega dos crachás e pastas.

Pistas práticas para cuidar da Terra (I)

Leonardo Boff
Teólogo

Dois princípios são fundamentais na superação da atual crise pela qual passa o planeta Terra: a sustentabilidade e o cuidado.
A sustentabilidade,assentada na razão analítica, tem a ver com tudo o que é necessário para garantir a vida e sua reprodução para as atuais e as futuras gerações.
O cuidado, fundado na razão sensível e cordial refere-se aos comportamentos e às relações para com as pessoas e para com a natureza, marcadas pelo respeito à alteridade, pela amorosidade, pela cooperação, pela responsabilidade e pela renúncia a toda espécie de agressividade.
Articulando estes dois princípios poderemos devolver equiíbrio e vitalidade à Terra.
Oferecemos algumas sugestões práticas no sentido de cada um fazer a sua revolução molecular (Guatarri): aquela que começa pela própria pessoa, base para a grande virada de todo o sistema. Eis algumas:
Alimente sempre a convicção e a esperança de que outra relação para com a Terra é possível, mais em harmonia com seus ciclos e respeitando os seus limites.
Acredite que a crise ecológica não precisa se transformar numa tragédia, mas numa oportunidade de mudança para um outro tipo de sociedade mais respeitadora e includente.
Dê centralidade ao coração, à sensibilidade, ao afeto, à compaixão e ao amor pois são estas dimensões que nos mobilizam para salvar a Mãe Terra e seus ecossistemas.
Reconheça que a Terra é viva mas finita, semelhante a uma nave espacial, com recursos escassos e limitados.
Resgate o princípio da re-ligação: todos os seres, especialmente, os vivos, são interdependentes, e por isso têm um destino comum. Devem conviver fraternalmente entre si.
Valorize a biodiversidade e cada ser vivo ou inerte, pois tem valor em si mesmo independentemente do uso humano.
Reconheça as virtualidades contidas no pequeno e no que vem de baixo, pois aí podem estar contidas soluções globais.
Quando não encontrar uma solução, confie na imaginação criativa, pois ela esconde em si respostas surpreendentes.
Tome a sério o fato de que para os problemas da Terra não há apenas uma solução, mas muitas que devem surgir do diálogo, das trocas e das complementariedades entre todos.
Exercite o pensamento lateral, quer dizer, coloque-se no lugar do outro e tente ver com os olhos dele. Assim verá dimensões diferentes e complementares da realidade.
Respeite as diferenças culturais (cultura camponesa, urbana, negra, indígena, masculina, feminina etc), pois todas elas mostram formas diversas de sermos humanos.
Supere o pensamento único do saber dominante e valorize os saberes cotidianos, do povo, dos indígenas e dos camponeses porque corroboram na busca de soluções globais.
Cobre que as práticas científicas sejam submetidas a critérios éticos a fim de que as conquistas beneficiam mais à vida e à humanidade que ao mercado e ao lucro.
Não deixe de valorizar a contribuição das mulheres porque são portadoras naturais da lógica do complexidade e são mais sensíveis a tudo o que tem a ver com a vida.
Faça um opção consciente por uma vida de simplicidade que se contrapõe ao consumismo. Pode-se viver melhor com menos, dando mais importância ao ser que ao ter e ao aparecer.
Cultive os valores intagíveis quer dizer, aqueles bens relacionados à espiritualidade, à gratuidade, à solidariedade, à cooperação e à beleza como os encontros pessoais, as trocas de experiências, o cultivo das artes especialmente da música.
Mais que parte do problema, considere-se parte de sua solução.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Resgate do Romantismo

Leonardo Boff
Teólogo

Observando os cenários sociais ao nível de mundo e de Brasil somos tomados de abatimento e de melancolia. É melancólico ver a falta de sentido humanitário dos países ricos face aos pobres na fracassada Rodada de Doha. Melancólica no Brasil é a decisão de juizes sem juízo que aprovaram candidaturas de políticos com ficha suja, com total desconsideração do povo permitindo assim que seja governado por pessoas sem credibilidade e ética. Colocam o código diante dos olhos para esconder a realidade, ocultando destarte o direito e o bem comum aos quais deveriam servir. Grande é o abatimento por causa da ameaça de fome de milhões de pessoas devido à desorganização introduzida pelo agronegócio mundial e à especulação dos mercados de commodities. Somos dia a dia alertados acerca do caos ecológico que se está instalando na Terra, que ameaça a biodiversidade, e, no limite, a própria espécie humana. E a voracidade produtivista continua desenfreada, desmatando, poluindo águas e envenando solos.

Ninguém sabe para onde estamos indo. O certo é que o prolongamento da viagem da nave espacial Terra, limitada em recursos e avariada em muitos pontos, pode provocar um desastre coletivo. Esta situação, como o mostraram bem Michael Löwy (franco-brasileiro) e Robert Sayre, leva àquilo que é o titulo do livro de ambos: “Revolta e Melancolia” (Vozes 1995). Leva à revolta contra o excesso de materialismo, de espírito utilitarista na relação para com a natureza, inflação do esprit de géométrie pascaliano, dominação burocrática e desencanto do mundo. Leva à melancolia face à anemia espiritual dominante na cultura, ausência da razão sensível e cordial que funda o respeito à alteridade, a ética do cuidado e a responsabilidade universal.

Houve no passado e continua no presente um movimento cultural que se opôs ao que se convencionou chamar de “espírito do capitalismo”, detalhadamente estudado pelos dois autores citados: o romantismo. Precisamos superar o sentido convencional de romantismo que o identifica com uma escola literária ou artística. Romantismo é algo mais complexo e profundo. Trata-se de uma cosmovisão, de uma forma de habitar o mundo, não apenas prosaicamente com artefatos, máquinas, ordenações sociais e jurídicas mas principalmente habitar poeticamente o mundo ao articular a máquina coma a poesia, o trabalho rotineiro com a criatividade, o interesse com a gratuidade, a objetividade nos conhecimentos com a subjetividade emocional, o pão penosamente ganho, com a beleza fascinante das relações calorosas. Isso deve ser resgatado.

A sociedade da tecno-ciência e do conhecimento nos enviou ao exílio, roubou-nos o sentimento de um lar e de uma pátria e principalmente nossa capacidade de nos comover, de chorar, de rir gostosamente e de nos apaixonar pela natureza e pela vida. Somos condenados a viver sob o “sol negro da melancolia”. Mas não apenas os românticos (em termos analíticos) são afetados por esta melancolia. Mas também os adeptos da cultura imperante. Um devastador vazio existencial marca milhares de pessoas que pelo consumo desenfreado ilusoriamente o procuram preencher.

Esta condição humana faz suscitar novamente a utopia. Esta nasce da convicção de que o mundo não está fatalmente condenado à melancolia. Há em nós e na sociedade virtualidades ainda não ensaidas que, postas em pratica, podem reencantar a vida. Eis uma utopia necessária, mensagem perene do romantismo. Bem termina Michael Löwy sua obra: “a utopia ou será romântica ou não será”.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Um Cardeal, amigo da inteligência

Leonardo Boff
Teólogo
No dia 18 de julho do corrente ano visitei em São Paulo meu antigo mestre, o Cardeal Paulo Evaristo Arns. Encontrei um sábio bíblico, carregado de dias mas cheio de vida e de lucidez intelectual. Sobre a mesa estavam vários livros abertos, seus amigos de predileção: os textos de São Jerônimo, de São João Crisóstomo, da Didaqué e outros. Por mais de duas horas entretivemo-nos sobre nossa vida e nossas andanças pelo mundo da teologia e da Igreja e tivemos saudades de nosso próprio passado. Foi meu mestre em teologia, introduzindo-me na leitura dos Padres da Igreja, nas línguas originais, aqueles pensadores dos primeiros séculos que inauguraram a grande aventura intelectual que foi o encontro da fé cristã com a inteligência filosófica dos gregos e com o sentido do direito dos romanos.
Três paixões marcam a vida do mais importante de nossos cardeais no século XX: a paixão incandecente por Deus, a paixão pelos pobres na perspectiva de sua libertação e a paixão pela inteligência. Para Dom Paulo, Deus não é um conceito teológico mas uma experiência de intimidde e de fascinação. Ele pode falar de direitos humanos, denunciar sua sistemática violação e de falta de justiça social. E o faz bem. Mas deixemo-lo falar de Deus para percebermos que suas palavras ganham doçura e profundidade, pois comprovam o que Pascal dizia:”é o coração que sente Deus, não a razão”.
Sua outra paixão são os pobres, na grande tradição de São Francisco, pois Dom Paulo é e continua frade fransciscano. Como jovem estudante de teologia, trabalhei com ele por dois anos, nas quintas-feiras e nos sábados à tarde e nos domingos no bairro Itamarati de Petrópolis e nos morros vizinhos onde moravam os pobres. Falava com eles com carinho. Fundou escolas e animava a cultura local. Quando cardeal-arcebispo de São Paulo chamou Paulo Freire para orientar pedagogicamente a pastoral das periferias. Mas sobretudo, defendeu aqueles que o regime militar julgava subversivos, não raro torturados e até assassinados. Arriscou a própria vida para defendê-los. O Papa Paulo VI, sabendo de seu compromisso pelos direitos humanos, o fez imediatamente Cardeal de São Paulo. A sociedade brasileira lhe deve uma contribuição inestimável com o livro Brasil nunca mais, relato das torturas a partir de fontes oficiais dos tribunais militares. Corroborou assim a desmantelar o regime e acelerar a volta à democracia.
Sua terceira paixão é pela inteligência. Formou-se na Sorbonne em Paris com uma tese que acaba de ser lançada em português numa belíssima edição pela Cousac-Naif: A técnica do livro em São Jerônimo. Ai associa o esprit de finesse francês com a acribia da pesquisa alemã. Escreveu mais de 50 livros, traduziu textos clássicos dos Padres da Igreja mas principalmente sempre defendeu a inteligência teológica. Acompanhou-me a Roma quando tive que me submeter às instâncias doutrinárias do Vaticano. Não apoiava apenas um ex-aluno, mas queria testemunhar o que dissera ao Cardeal encarregado de me inquirir, Joseph Ratzinger: “A teologia é um bem da Igreja local; quero, como pastor, testemunhar que esta teologia que agora está sob juízo, faz bem às nossas comunidades; se ela contiver erros, corrijamo-los para que continue a animar a fé dos fieis”. Foi considerado o Cardeal da libertação e sempre enfatizou a legitimidade e a necessidade deste tipo de teologia.
Ao embarcar no navio no dia 16 de julho de 1965 para me formar na Alemanha, me entregou na mão um bilhete que guardo até hoje:”Quero que saiba isso: queremos lhe dar o melhor porque o Brasil e a Igreja são realidades complexas e precisam do melhor. Enviado por Deus, estude e viva por Ele e para Ele”. É um conselho que continua a me alimentar e a me inspirar.

sábado, 9 de agosto de 2008

O Paraguai sob o signo da libertação

Estou enviando artigo sobre o novo presidente do Paraguai, Fernando Lugo, antigo amigo meu.Um abraçoLboff

Leonardo Boff
Teólogo

Não se pode falar do Paraguai sem antes, humildemente, pedir desculpas pelo etnocídio que as tropas da Tríplice Aliança (Brasil, Argentina, Uruguai) perpetraram durante os cinco anos de guerra. Ocorreu um brutal genocídio no qual mais de 90% dos homens adultos foram mortos ou passados a fio de espada, entre eles muitas crianças. É uma dívida ética que ainda devemos reparar. Mas agora importa olhar para frente.

Depois de 60 anos de domínio do Partido Colorado, finalmente, irrompeu uma figura de alta qualidade ética e política na pessoa de Fernando Lugo. Foi padre da Congregação do Verbo Divino e bispo de San Pedro, diocese com muitos pobres. Possui excelente currículo acadêmico, formado em ciências da religião e em sociologia com especialização em doutrina social da Igreja pela Universidade Gregoriana de Roma. Foi professor de teologia e membro do seleto grupo de assessores do Conselho Episcopal Latino-americano. O que marcou sua vida foram os cinco anos que trabalhou no Equador com comunidades indígenas sob a inspiração do bispo de Riobamba, Leônidas Proaño, famoso por sua postoral indigenista de cunho claramente libertador, pois se propunha gestar uma Igreja de rosto indígena em sua forma de rezar, de pensar e de viver a fé.

De regresso ao Paraguai e feito bispo, inseriu-se profundamente nos meios pobres e na cultura guarani (fala fluentemente guarani). Esta prática pastoral lhe fez entender o acerto das intuições e do método da Teologia da Libertação, que havia aprendido com o bispo Proaño: partir do universo dos pobres, dar-lhes vez e voz, fazer corpo com suas causas, participar de suas agruras e alegrias corroborando para que se tornem sujeitos de sua libertação, construtores de um outro tipo de sociedade e de outro modelo de Igreja,fundado em redes de comunidades de base. Inserido nos meios populares, sentiu na pele a urgência de mudanças políticas de seu pais.

Não havendo lideranças significativas que pudessem romper a “ditadura” do Partido Colorado e de combater a corrupção instalada em todas as instâncias do poder, entendeu que ele poderia prestar esse serviço a seu povo. “Liturgia” no sentido antigo da Igreja, mais que um conjunto de ritos e celebrações, era entendida como serviço ao povo no sentido do bem comum. Pois essa “liturgia” foi assumida pelo bispo Lugo.

Coordenou a formação da “Aliança Patriótica para a Mudança”, apoiada pelo Partido Liberal Radical Autêntico e por um leque de partidos menores que o levaram à presidência do país. Inicialmente o Vaticano se opôs à sua decisão, chegando até a suspende-lo “a divinis” (proibição de exercer o ministério). Mas uma vez eleito, triunfou a sensatez e acolheu seu pedido de voltar ao estado leigo.

É infeliz a expressão canônica “redução ao estado leigo”, pelo simples fato de que este estado é o de Jesus, como o diz a epístola aos Hebreus, pois notoriamente Jesus não é da tribo de Levi, dos sacerdotes, mas de Davi que é de leigos, reis e poetas. Portanto, foi promovido ao estado de leigo, ao de Jesus. Quer exercer o poder dando centralidade aos pobres e ao povo guarani.

Deixou claro que não quer fazer da política seu destino de vida mas apenas uma passagem de serviço.É um homem que sabe escutar e acolher o vem de baixo, fruto da experiência de muitas gerações. É uma honra para a Igreja e para a própria Teologia da Libertação oferecer um quadro desta densidade política e ética para servir a um povo que tanto sofreu historicamente e que merece um destino melhor, integrado nas novas democracias do Continente.

domingo, 3 de agosto de 2008

A impossível comensalidade depois de Doha

Leonardo Boff
Teólogo
O vergonhoso fracasso da Rodada de Doha se deve principalmente aos países ricos que quiseram garantir a parte leonina nos mercados dos pobres. Num quadro de fome já instalada, se desperdiçou a opotunidade de assegurar comida na mesa dos famintos. O sonho ancestral da comensalidade que nos faz humanos, quando todos poderiam sentar-se à mesa para comer e comungar, se torna ainda mais distante. Além da crise alimentar, nos assolam ainda a crise energética e a climática. Se não houverem políticas mundiais articuladas podemos enfrentar graves riscos às populações e ao equilíbrio do planeta. Dai A Carta da Terra propor uma aliança de cuidado universal entre todos os humanos e para com a Terra até como questão de sobrevivência coletiva.

Os problemas são todos interdependentes. Por isso não é possível uma solução isolada com meros recursos técnicos, políticos ou comerciais. Precisa-se de uma coalizão de mentes e coração novos, imbuídos de responsabilidade universal, com valores e princípios de ação, imprescindíveis para uma outra ordem mundial. Enumeremos alguns deles:

O primeiro de todos reside no cuidado pela herança que recebemos do imenso processo da evolução do universo.

O segundo está no respeito e na reverência face à toda alteridade, a cada ser da natureza e às diferentes culturas.

O terceiro encontra-se da cooperação permanente de todos com todos porque somos todos eco-interdependentes a ponto de termos um destino comum.

O quarto é a justiça societária que equaliza as diferenças, diminui as hierarquizações e impede que se transformem em desigualdades.

O quinto é a solidariedade e a compaixão ilimitada para com todos os seres que sofrem, a começar pela própria Terra que está crucificada e pelos mais vulneráveis e fracos.

O sexto reside na responsabilidade universal pelo futuro da vida, dos ecosistemas que garantem a sobrevivência humana, enfim, do próprio planeta Terra.

O sétimo é a justa medida em todas as iniciativas que concernem a todos já que viemos de uma experiência cultural marcada pelo excesso e pelas desigualdades.

Por fim é a auto-contenção de nossa voracidade de acumular e consumir para que todos possam ter o suficiente e o decente e sentir-se membros da única família humana.

Tudo isso só é possível se junto com a razão instrumental resgatarmos a razão sensível e cordial.

A economia não pode se independizar da sociedade pois a consequência será a destruição da idéia mesma de sociedade e de bem comum.

O ideal a ser buscado é uma economia do suficiente para toda a comunidade de vida.

A política não pode se restringir a ordenar os interesses nacionais mas se obriga a projetar uma governança global para atender equitativamente os interesses coletivos.

A espiritualidade precisa ser cósmica que nos permita “viver com reverência o mistério da existência, com gratidão pelo dom da vida e com humildade face ao lugar que o ser humano ocupa na natueza”(Carta da Terra, introdução). O desafio que se impõe parece ser este: passar de uma sociedade de produção industrial em guerra com a natureza para uma sociedade de promoção de toda a vida em sintonia com os ciclos da natureza e com sentido de equidade.

Estas são as pré-condições de ordem ética e de natureza prática que se destinam a criar as condições de uma comensalidade possível entre os humanos. Logicamente, se fazem necessárias as mediações técnicas, políticas e culturais para viabilizar este propósito. Mas elas dificilmente serão eficazes se não forem plasmadas à luz destes princípios-guias que significam valores e inspirações.