Carta da Terra no Brasil

Carta da Terra no Brasil
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terça-feira, 3 de junho de 2008

A Carta da Terra

PREÂMBULO
Estamos diante de um momento crítico na história da terra, numa época em que a humanidade deve escolher o seu futuro. à medida que o mundo torna-se cada vez mais interdependente e frágil, o futuro reserva, ao mesmo tempo, grande perigo e grande esperança. para seguir adiante, devemos reconhecer que, no meio de uma magnífica diversidade de culturas e formas de vida, somos uma família humana e uma comunidade terrestre com um destino comum. devemos nos juntar para gerar uma sociedade sustentável global fundada no respeito pela natureza, nos direitos humanos universais, na justiça econômica e numa cultura da paz. para chegar a este propósito, é imperativo que nós, os povos da terra, declaremos nossa responsabilidade uns para com os outros, com a grande comunidade de vida e com as futuras gerações.

TERRA, NOSSO LAR
A humanidade é parte de um vasto universo em evolução. A terra, nosso lar, é viva como uma comunidade de vida incomparável. As forças da natureza fazem da existência uma aventura exigente e incerta, mas a terra providenciou as condições essenciais para a evolução da vida. A capacidade de recuperação da comunidade de vida e o bem-estar da humanidade dependem da preservação de uma biosfera saudável com todos seus sistemas ecológicos, uma rica variedade de plantas e animais, solos férteis, águas puras e ar limpo. o meio ambiente global com seus recursos finitos é uma preocupação comum de todos os povos. A proteção da vitalidade, diversidade e beleza da terra é um dever sagrado.

A SITUAÇÃO GLOBAL
Os padrões dominantes de produção e consumo estão causando devastação ambiental, esgotamento dos recursos e uma massiva extinção de espécies. Comunidades estão sendo arruinadas. os benefícios do desenvolvimento não estão sendo divididos equitativamente e a diferença entre ricos e pobres está aumentando. A injustiça, a pobreza, a ignorância e os conflitos violentos têm aumentado e são causas de grande sofrimento. O crescimento sem precedentes da população humana tem sobrecarregado os sistemas ecológico e social. As bases da segurança global estão ameaçadas. essas tendências são perigosas, mas não inevitáveis.

DESAFIOS FUTUROS
A escolha é nossa: formar uma aliança global para cuidar da terra e uns dos outros ou arriscar a nossa destruição e a da diversidade da vida. são necessárias mudanças fundamentais em nossos valores, instituições e modos de vida. devemos entender que, quando as necessidades básicas forem supridas, o desenvolvimento humano será primariamente voltado a ser mais e não a ter mais. temos o conhecimento e a tecnologia necessários para abastecer a todos e reduzir nossos impactos no meio ambiente. o surgimento de uma sociedade civil global está criando novas oportunidades para construir um mundo democrático e humano. Nossos desafios ambientais, econômicos, políticos, sociais e espirituais estão interligados e juntos podemos forjar soluções inclusivas.

RESPONSABILIDADE UNIVERSAL
Para realizar estas aspirações, devemos decidir viver com um sentido de responsabilidade universal, identificando-nos com a comunidade terrestre como um todo, bem como com nossas comunidades locais. somos, ao mesmo tempo, cidadãos de nações diferentes e de um mundo no qual as dimensões local e global estão ligadas. Cada um compartilha responsabilidade pelo presente e pelo futuro bem-estar da família humana e de todo o mundo dos seres vivos. o espírito de solidariedade humana e de parentesco com toda a vida é fortalecido quando vivemos com reverência o mistério da existência, com gratidão pelo dom da vida e com humildade em relação ao lugar que o ser humano ocupa na natureza.
Necessitamos com urgência de uma visão compartilhada de valores básicos para proporcionar um fundamento ético à comunidade mundial emergente. portanto, juntos na esperança, afirmamos os seguintes princípios, interdependentes, visando a um modo de vida sustentável como padrão comum, através dos quais a conduta de todos os indivíduos, organizações, empresas, governos e instituições transnacionais será dirigida e avaliada.

PRINCÍPIOS
I. RESPEITAR E CUIDAR DA COMUNIDADE DE VIDA
1. Respeitar a Terra e a vida em toda sua diversidade.
Reconhecer que todos os seres são interdependentes e cada forma de vida tem valor, independentemente de sua utilidade para os seres humanos.
Afirmar a fé na dignidade inerente de todos os seres humanos e no potencial intelectual, artístico, ético e espiritual da humanidade.
2. Cuidar da comunidade da vida com compreensão, compaixão e amor.
Aceitar que, com o direito de possuir, administrar e usar os recursos naturais, vem o dever de prevenir os danos ao meio ambiente e de proteger os direitos das pessoas.
Assumir que, com o aumento da liberdade, dos conhecimentos e do poder, vem amaior responsabilidade de promover o bem comum.
3. Construir sociedades democráticas que sejam justas, participativas, sustentáveis epacíficas.
Assegurar que as comunidades em todos os níveis garantam os direitos humanos e as liberdades fundamentais e proporcionem a cada pessoa a oportunidade de realizar seu pleno potencial.
Promover a justiça econômica e social, propiciando a todos a obtenção de uma condição de vida significativa e segura, que seja ecologicamente responsável.
4. Assegurar a generosidade e a beleza da Terra para as atuais e às futuras gerações.
Reconhecer que a liberdade de ação de cada geração é condicionada pelas necessidades das gerações futuras.
Transmitir às futuras gerações valores, tradições e instituições que apóiem a prosperidade das comunidades humanas e ecológicas da terra a longo prazo.
II. INTEGRIDADE ECOLÓGICA
5. Proteger e restaurar a integridade dos sistemas ecológicos da Terra, com especialatenção à diversidade biológica e aos processos naturais que sustentam a vida.
Adotar, em todos os níveis, planos e regulamentações de desenvolvimento sustentável que façam com que a conservação e a reabilitação ambiental sejam parte integral de todas as iniciativas de desenvolvimento.
Estabelecer e proteger reservas naturais e da biosfera viáveis, incluindo terras selvagens e áreas marinhas, para proteger os sistemas de sustento à vida da terra, manter a biodiversidade e preservar nossa herança natural.
Promover a recuperação de espécies e ecossistemas ameaçados.
Controlar e erradicar organismos não-nativos ou modificados geneticamente quecausem dano às espécies nativas e ao meio ambiente e impedir a introdução dessesorganismos prejudiciais.
Administrar o uso de recursos renováveis como água, solo, produtos florestais e vida marinha de forma que não excedam às taxas de regeneração e que protejam a saúde dos ecossistemas.
Administrar a extração e o uso de recursos não-renováveis, como minerais e combustíveis fósseis de forma que minimizem o esgotamento e não causem dano ambiental grave.
6. Prevenir o dano ao ambiente como o melhor método de proteção ambiental e, quandoo conhecimento for limitado, assumir uma postura de precaução.
Agir para evitar a possibilidade de danos ambientais sérios ou irreversíveis, mesmo quando o conhecimento científico for incompleto ou não-conclusivo.
Impor o ônus da prova naqueles que afirmarem que a atividade proposta não causará dano significativo e fazer com que as partes interessadas sejam responsabilizadas pelo dano ambiental.
Assegurar que as tomadas de decisão considerem as conseqüências cumulativas, a longo prazo, indiretas, de longo alcance e globais das atividades humanas.
Impedir a poluição de qualquer parte do meio ambiente e não permitir o aumento de substâncias radioativas, tóxicas ou outras substâncias perigosas.
Evitar atividades militares que causem dano ao meio ambiente.
7. Adotar padrões de produção, consumo e reprodução que protejam as capacidades regenerativas da Terra, os direitos humanos e o bem-estar comunitário.
Reduzir, reutilizar e reciclar materiais usados nos sistemas de produção e consumo e garantir que os resíduos possam ser assimilados pelos sistemas ecológicos.
Atuar com moderação e eficiência no uso de energia e contar cada vez mais com fontes energéticas renováveis, como a energia solar e do vento.
Promover o desenvolvimento, a adoção e a transferência eqüitativa de tecnologiasambientais seguras.
Incluir totalmente os custos ambientais e sociais de bens e serviços no preço de venda e habilitar os consumidores a identificar produtos que satisfaçam às mais altas normas sociais e ambientais.
Garantir acesso universal à assistência de saúde que fomente a saúde reprodutiva e a reprodução responsável.
Adotar estilos de vida que acentuem a qualidade de vida e subsistência material num mundo finito.
8. Avançar o estudo da sustentabilidade ecológica e promover o intercâmbio aberto e aplicação ampla do conhecimento adquirido.
Apoiar a cooperação científica e técnica internacional relacionada à sustentabilidade, com especial atenção às necessidades das nações em desenvolvimento.
Reconhecer e preservar os conhecimentos tradicionais e a sabedoria espiritual em todas as culturas que contribuem para a proteção ambiental e o bem-estar humano.
Garantir que informações de vital importância para a saúde humana e para a proteção ambiental, incluindo informação genética, permaneçam disponíveis ao domínio público.
III. JUSTIÇA SOCIAL E ECONÔMICA
9. erradicar a pobreza como um imperativo ético, social e ambiental.
Garantir o direito à água potável, ao ar puro, à segurança alimentar, aos solos não contaminados, ao abrigo e saneamento seguro, alocando os recursos nacionais e internacionais demandados.
Prover cada ser humano de educação e recursos para assegurar uma condição de vida sustentável e proporcionar seguro social e segurança coletiva aos que não são capazes de se manter por conta própria.
Reconhecer os ignorados, proteger os vulneráveis, servir àqueles que sofrem e habilitá- los a desenvolverem suas capacidades e alcançarem suas aspirações.
10. Garantir que as atividades e instituições econômicas em todos os níveis promovam o desenvolvimento humano de forma eqüitativa e sustentável.
Promover a distribuição eqüitativa da riqueza dentro das e entre as nações.
Incrementar os recursos intelectuais, financeiros, técnicos e sociais das nações em desenvolvimento e liberá-las de dívidas internacionais onerosas.
Assegurar que todas as transações comerciais apóiem o uso de recursos sustentáveis, a proteção ambiental e normas trabalhistas progressistas.
Exigir que corporações multinacionais e organizações financeiras internacionaisatuem com transparência em benefício do bem comum e responsabilizá-las pelasconseqüências de suas atividades.
11. Afirmar a igualdade e a eqüidade dos sexos como pré-requisitos para o desenvolvimento sustentável e assegurar o acesso universal à educação, assistência de saúde e às oportunidades econômicas.
Assegurar os direitos humanos das mulheres e das meninas e acabar com toda violência contra elas.
Promover a participação ativa das mulheres em todos os aspectos da vida econômica, política, civil, social e cultural como parceiras plenas e paritárias, tomadoras de decisão, líderes e beneficiárias.
Fortalecer as famílias e garantir a segurança e o carinho de todos os membros dafamília.
12. Defender, sem discriminação, os direitos de todas as pessoas a um ambiente natural e social capaz de assegurar a dignidade humana, a saúde corporal e o bem-estar espiritual, com especial atenção aos direitos dos povos indígenas e minorias.
Eliminar a discriminação em todas as suas formas, como as baseadas em raça, cor, gênero, orientação sexual, religião, idioma e origem nacional, étnica ou social.
Afirmar o direito dos povos indígenas à sua espiritualidade, conhecimentos, terras e recursos, assim como às suas práticas relacionadas com condições de vida sustentáveis.
Honrar e apoiar os jovens das nossas comunidades, habilitando-os a cumprir seupapel essencial na criação de sociedades sustentáveis.
Proteger e restaurar lugares notáveis pelo significado cultural e espiritual.
IV. DEMOCRACIA, NÃO-VIOLÊNCIA E PAZ
13. Fortalecer as instituições democráticas em todos os níveis e prover transparênciae responsabilização no exercício do governo, participação inclusiva na tomada de decisões e acesso à justiça.
defender o direito de todas as pessoas receberem informação clara e oportuna sobre assuntos ambientais e todos os planos de desenvolvimento e atividades que possam afetá-las ou nos quais tenham interesse.
Apoiar sociedades civis locais, regionais e globais e promover a participação significativa de todos os indivíduos e organizações interessados na tomada de decisões.
Proteger os direitos à liberdade de opinião, de expressão, de reunião pacífica, de associação e de oposição.
Instituir o acesso efetivo e eficiente a procedimentos judiciais administrativos e independentes, incluindo retificação e compensação por danos ambientais e pela ameaça de tais danos.
Eliminar a corrupção em todas as instituições públicas e privadas.
Fortalecer as comunidades locais, habilitando-as a cuidar dos seus próprios ambientes, e atribuir responsabilidades ambientais aos níveis governamentais onde possam ser cumpridas mais efetivamente.
14. Integrar, na educação formal e na aprendizagem ao longo da vida, os conhecimentos, valores e habilidades necessárias para um modo de vida sustentável.
prover a todos, especialmente a crianças e jovens, oportunidades educativas que lhes permitam contribuir ativamente para o desenvolvimento sustentável.
promover a contribuição das Artes e humanidades, assim como das Ciências, na educação para sustentabilidade.
intensificar o papel dos meios de comunicação de massa no aumento da conscientização sobre os desafios ecológicos e sociais.
reconhecer a importância da educação moral e espiritual para uma condição de vida sustentável.
15. Tratar todos os seres vivos com respeito e consideração.
impedir crueldades aos animais mantidos em sociedades humanas e protegê-los de sofrimento.
proteger animais selvagens de métodos de caça, armadilhas e pesca que causem sofrimento extremo, prolongado ou evitável.
evitar ou eliminar ao máximo possível a captura ou destruição de espécies não visadas.
16. Promover uma cultura de tolerância, não-violência e paz.
estimular e apoiar o entendimento mútuo, a solidariedade e a cooperação entre todas as pessoas, dentro das e entre as nações.
implementar estratégias amplas para prevenir conflitos violentos e usar a colaboração na resolução de problemas para administrar e resolver conflitos ambientais e outras disputas.
desmilitarizar os sistemas de segurança nacional até o nível de uma postura defensiva não-provocativa e converter os recursos militares para propósitos pacíficos, incluindo restauração ecológica.
eliminar armas nucleares, biológicas e tóxicas e outras armas de destruição emmassa.
Assegurar que o uso do espaço orbital e cósmico ajude a proteção ambiental e a paz.
reconhecer que a paz é a plenitude criada por relações corretas consigo mesmo, com outras pessoas, outras culturas, outras vidas, com a terra e com a totalidade maior da qual somos parte.

Histórias que vêm do frio



I
Onde a terra começar
Vento Negro gente eu sou
Onde a terra terminar
Vento negro eu souA vida, o tempo/ A trilha, o sol
Um vento forte se erguerá
Arrastando o que houver no chãoVento negro, campo afora vai correr
Quem vai embora tem que saber
É viraçãoDos montes, vales que venci
Do coração da mata virgem
Meu canto, eu sei, há de se ouvir
Em todo o meu paísNão creio em paz sem divisão
De tanto amor que eu espalhei
Em cada céu em cada chão
Minha alma lá deixei.

(VENTO NEGRO, José Alberto Fogaça)

Contam que ela veio de longe, fugindo da guerra e da miséria no mundo, e da guerra que o mundo trava com seu povo desde a Antiguidade. Contam que veio às pressas, cheia de malas e caixas e pequenos esconderijos para esconder pequenos tesouros que, aprendera cedo, podem comprar uma vida. Contam que já vinha com dois filhos nos braços e um na barriga.

E assim ela chegou com marido e filhos no interior do Brasil, na região mais fria que, esperava, trouxesse o inverno que deixara para trás.

Não sei se é verdade, mas corre pela família que foi assim, no frio, vendo a lavoura que se deparou com um índio, pequeno, escuro, descalço, silencioso. Eles se olharam, desconfiados, a loura de frios olhos azuis que não falava outra língua senão o iídiche e o índio, bilíngüe, acostumado com outros vizinhos trazidos pela guerra, fugitivos de pogrom. Ele sabia entendê-la.

A compreendeu tão bem que, sabe-se como, a convenceu a acompanhá-lo. Uma noite saíram os dois, sem nada para carregar a não ser o filho na barriga e nunca olharam pra trás. Ela deixou casa, marido, filhos e uma história milenar para seguir o índio. O índio não tinha nada para deixar, mas inventou um nome para dar pros filhos que tiveram e construiu uma casa para ela. Estiveram juntos durante 60 anos, geraram sete filhos e iniciaram uma geração de mulheres fortes, passionais, exageradas e com uma capacidade de amar e de sofrer infinita.

Meus avós, Pedro e Hortência, sempre estiveram perto da família que inventaram para si, pois faziam questão que cada filho morasse na casa ao lado da sua e de sua casinha tinha um caminho de terra bem percorrido até a casa dos filhos. Não lembro de jamais tê-los visto senão de mãos dadas, sentadinhos na varanda ou cevando mate de manhã. Eu os conheci velhos, com mais de 70 anos e toda família dizia que eles jamais olharam para pessoa alguma, nascida deles ou não, do jeito que se olhavam.

Meu avô faleceu aos 79 anos, vítima de um câncer no estômago que ele guardou em segredo para não preocupar minha avó. No dia que ele faleceu, minha avó se deitou e jamais se levantou. Três anos depois, reuniu a família, se despediu e anunciou que iria morrer, que finalmente meu avô a avisara que já era tempo de ficarem juntos. Deitou e nunca acordou de seu sono povoado de sonhos de seu amor.

Não sei se a história é essa, se foi assim que aconteceu. Foi assim que me contaram. Em vez de contos de fadas fui criada, entre um beijo colorido e outro, ouvindo a história de minha avó, uma judia que teve a coragem de ir embora com um índio em 1918. Nunca se casaram, pois ela já era casada, registraram cada filho com datas de nascimentos fictícias e cada um com um sobrenome diferente - palavras que achavam bonitas. É assim que em minha família os irmãos têm cores diferentes, cada um sobrenome – Amado, Moraes, da Cruz - e as mulheres inventam sua idade com muita tranqüilidade pois nem desconfiam quando de fato nasceram.

Eu cresci numa casa de mulheres. Cercada pela minha avó, mãe e tias. No meio dessas mulheres eu nasci e me criei. Passei na mão de todas: uma me pariu, outra me criou e outra me mostrou os beijos coloridos. Por todas fui muito amada e amei minha mãe e minhas tias incondicionalmente, com todos seus defeitos, por todos seus defeitos, todas tão humanas, tão frágeis e tão fortes, tão contraditórias em suas histórias que acabaram, naturalmente, criando um espaço onde elas fazem sentido. Eu as compreendo. E tenho minha avó como guia.


II

Amanhã eu vou m'embora
pros rumo de Uruguaiana
vou levando na minha balsa
cedro, angico e canjerana.Quando chegar em São Borja,
dou um pulo a Santo Tomé
só pra ver as correntinas
e bailar um chamamé.Oba, viva veio a enchente
o Uruguai transbordou
vai dar serviço prá gente.Vou soltar minha balsa no rio,
vou rever maravilhas que ninguém descobriu.Se chegar ao Salto Grande
me despeço deste mundo, rezo a Deus e a São Miguel e
solto a balsa lá no fundo.Quem se escapa deste golpe,
chega salvo na Argentina.
Só duvido que se escape do olhar das correntinas.Oba, viva veio a enchente
o Uruguai transbordou
vai dar serviço prá gente.Vou soltar minha balsa no rio,
vou rever maravilhas que ninguém descobriu.
(BALSEIROS DO RIO URUGUAI, Barbosa Lessa)


Fui criada em várias cidades, meu pai nos levou por todo o Rio Grande, em suas andanças em busca de trabalho. Assim, morei em Cachoeira do Sul, Santo Ângelo, Ijuí, Novo Hamburgo, Dois Irmãos, Gravataí, Alvorada, São Leopoldo e Porto Alegre. Disso tudo lembro apenas que sempre moramos em casas grandes, que dormíamos todos juntos “acampados” no frio, a mesa era farta e tínhamos parentes sempre próximos para visitar. Meu pai era festeiro e nossos finais de semana ou passávamos em casa com visitas ou íamos visitar alguém. Minha mãe fazia um fiambrezito que abríamos assim que o carrinho ligava e mastigávamos contentes até a casa do parente, onde comíamos novamente, esfaimados da “viagem”.

Nossa casa era barulhenta, sempre repleta de amigos e parentes, com música alta e muitas danças. Cresci comendo churrasco com maionese todos os domingos, ouvindo e cantando Cenair Maicá, Mercedes Sosa, o payador Jaime Caetano Braum, Pedro Ortaça e Noel Guarani. Dançando o chamamé e o xote até de madrugada. Passávamos as férias à beira do Rio Jacuí, pescando ou íamos “pra fora”, para as fazendas dos meus tios-avôs lá no Alto Uruguai onde eu e meus irmãos passávamos o dia comendo torrão de açúcar escuro, e correndo atrás das galinhas (ou correndo das galinhas) e nos perdíamos nas plantações de milho e soja que nos rodeava. Hoje me dou conta que as plantações de soja e milho eram minha idéia de natureza. Nunca me ocorreu que essa não era a ordem natural das coisas e que um dia tivesse existido algo diferente do soja por lá. Também percebo que a natureza era o “fora”, o rural, o Rio Uruguai, as pescarias e nunca pensei que os pés de alface e tomates do quintal de meu pai tinham relação com sustentabilidade. Para mim eram apenas os tomates do meu pai.

A família do meu pai nos ignorou até meus 7,8 anos. Somente tomou conhecimento quando ficou evidente que meu pai não largaria minha mãe tão facilmente e que meus tios não dariam uma neta. Foi nesse período que viemos para Porto Alegre.

Era o inicio dos anos 80, um vislumbre de abertura política e embora nunca houvesse sequer desconfiado que houvera uma ditadura - só a descobri quando acabou, nos livros que li -, eu cantava com todo o meu coração “Horizontes”, uma música que representava para toda a gauchada politizada um novo tempo:
Há muito tempo que ando
Nas ruas de um porto não muito alegre
E que no entanto, me traz encantos
E um pôr-do-sol me traduz em versosDe seguir livre, muitos caminhos
Arando terras, provando vinhos
De ter idéias de liberdade
De ver amor em todas idadesNasci chorando, Moinhos de Vento
Subir no bonde, descer correndo
A boa funda de goiabeira
Jogar bolita, pular fogueiraSessenta e quatro, sessenta e seis
Sessenta e oito, um mau tempo talvez
Anos setenta, não deu pra ti
E nos oitenta eu não vou me perder por aí.

(HORIZONTES, Elaine Geissler)

Horizontes” representa um pouco a mitologia do gaúcho urbano, que vive na cidade com o coração no campo, com saudade eterna daquilo que não viveu. Enquanto isso, na minha vida, nunca havia dinheiro para nada e eu e meus irmãos nos mantivemos em escolas caras graças às minhas tias, que pagavam nossas despesas, nos enchiam de presentes e compravam nossos livros. Íamos e vínhamos com freqüência das casas dessas tias queridas em função da doença de minha mãe e eu passava longas temporadas na casa de praia, vendo as ondas baterem na praia, sem nunca me atrever a entrar nas águas geladas e escuras de algas da minha terra. E assim passaram-se os anos de minha infância.

III

Cevavam mate,sorriso franco, palheiro aceso
Viraram brasas, contavam casos, polindo esporas,
Geada fria, café bem quente, muito alvoroço,
Arreios firmes e nos pescoços lenços vermelhosJogo do osso, cana de espera e o pão de forno
O milho assado, a carne gorda, a cancha reta
Faziam planos e nem sabiam que eram felizes
Olhos abertos, o longe é perto, o que vale é o sonhoSopram ventos desgarrados, carregados de saudade
Viravam copos viravam mundos, mas o que foi nunca mais será.

(DESGARRADOS, Mário Barbará).

O bom de recontar história é que quem conta escolhe o recorte. Pularei alegremente a adolescência e a triste experiência do meu primeiro casamento.

Desses tempos, só guardo a lembrança do nascimento dos meus filhos e do amor incondicional que tenho por eles. Nicolas e Pedro são lindos, inteligentes, queridos mas poderiam tranqüilamente não ser que não faria diferença: eu os amo desde a concepção. Os guris são meus companheiros desde pequenos, acostumaram-se a se enrolar nas minhas pernas lendo e escrevendo como eu, inventando histórias, montando seus legos e travando batalhas épicas com seus bonequinhos.

Até hoje, quando penso no Nicolas me vem a imagem dele, com 2 ou 3 anos, vestido de Batman com suas botinhas de chuva do Cebolinha que ele não tirava nem para dormir. Para mim, este é o meu Nicolas, hoje com quase 17 anos, lindo e solitário lá no frio do sul.

Pedrinho também está congelado na imagem que faço dele, ignorando que esse rapagão que toma litros de leite e vive pro videogame, deitado no tapete da sala é a criança de longos cabelos dourados que vivia rindo e se metendo nas brincadeiras solitárias do irmão.

Tivemos que juntos inventar maneiras de manter o amor e sobreviver a um período em que nos vimos sozinhos, sem dinheiro, família longe e ausente. Dessa luta, trago comigo sempre a lembrança deles me esperando tarde da noite, para juntos contar o dia e dividir o sono. Os dias frios, de sol raro, todos entrouxados, rindo muito nas praças vazias. Por amor a eles quis um outro mundo possível e descobri minhas utopias e a coragem para lutar por elas.

IV

Nós vamos prosseguir, companheiro
Medo não há/ No rumo certo da estrada
Unidos vamos crescer e andar
Nós vamos repartir, companheiro
O campo e o mar
O pão da vida, meu braço, meu peito
Feito pra amarAmericana Pátria, morena
Quiero tener
Guitarra y canto libre
En tu amanecer
No pampa meu pala a voar
Esteira de vento e luar
Vento e luarNós vamos semear, companheiro
No coração
Manhãs e frutos e sonhos
Prum dia acabar com essa escuridão
Nós vamos preparar, companheiro
Sem ilusão
Um novo tempo, em que a paz e a fartura
Brotem das mãos.

(SEMEADURA, Vitor Ramil e José Fogaça).

Entrei com 21 anos na faculdade, já com 2 filhos e um casamento naufragando. Optei pelo curso de letras porque desde a quarta série tudo o que fazia era ler. Entre mudanças e períodos com parentes, minha única constância era a literatura, a quem sempre preferi a qualquer outra companhia. Minha história de leituras é bem heterogênea: lia desde os 9 anos as revistas de fofocas que minhas tias compravam e trocavam semanalmente. Na biblioteca da escola lia sistematicamente todos os livros que tinha por lá. Todos. Inclusive recebi uma homenagem por ser a única criança na quarta série que em um ano leu todas as histórias que tinha na biblioteca. Depois disso, se tornou um hábito ler tudo que havia na biblioteca escolar. Eu lia em ordem alfabética – sempre fui muito conservadora – toda a obra de um autor, depois – e só depois, mesmo morrendo de vontade de ler outra coisa, ignorando quão chato poderia ser o raio da historia – eu passava pra outro. Ajudou nesse processo eu trocar de escola quase que anualmente.

Na adolescência descobri a biblioteca municipal e ai me esbaldei nos best sellers e acho que esse tempo foi bem feliz. Não aprendi nada que fosse muito prático, mas entendi perfeitamente a historia do povo judeu, os impasses da II Guerra, as implicações da Guerra Fria, bem como me tornei perita em assuntos do coração. Assim, jurando que ler profissionalmente era o que me aguardava na faculdade de letras, entrei na UFRGS e tomei o maior susto da minha vida.

Lá descobri que era alienada, bitolada, provinciana e que minhas leituras não me adiantavam de nada: todos já tinham lido tanto ou mais que eu, devoravam os clássicos desde tenra idade, recitavam Pessoa, parafraseavam Goethe no original e para meu espanto total liam obras que nunca tinha ouvido falar. Todos eram socialistas, comunistas, anarquista, praticantes do amor livre, amavam Che Guevara e naturebas. Conseguiam ler 200 páginas por semana, beber rios de cerveja e falar de metafísicas e da revolução, tudo ao mesmo tempo.

Por pura necessidade, me tornei bolsista e comecei a entender o curso e meu novo mundo. Por pura necessidade também comecei a trabalhar nas escolas públicas de São Leopoldo. Para não perder o emprego e disfarçar minha ignorância das regras ortográficas, desenvolvi um método de ensino e aprendizagem baseado nas historias de leituras e na leitura de histórias. Ao narrar minhas experiências em sala de aula, descobri que era vanguarda. Por não poder dispensar minha bolsa no período de férias me envolvi em um projeto de extensão que me permitiria passar um mês em um assentamento. O que mais me atraiu no projeto foi a possibilidade de deixar meus filhos na casa de praia com os avós paternos e assim economizar um mês de despesas domésticas.

Sem pretensão alguma me fui ao campo. Em boa companhia revi o pampa da minha infância e foi ai que descobri que tudo aquilo que me era tão familiar era ambiente construído. Nada era natural. Fiquei lívida quando percebi que os vilões do agronegócios eram os tios que me levavam a passear de trator por quilômetros de soja, e que as famílias tradicionais tinham o nome da minha. Resolvi fazer a minha parte, para mudar os rumos da família: fui estudar Paulo Freire e montar bibliotecas itinerantes pros assentados do MST.

Ao trabalhar com os assentados, construindo junto uma pedagogia, contando histórias para crianças, seduzindo-as para o mundo das letras, observando meus colegas a mexer na terra, mostrando um novo modo de produção de alimentos e de lidar com as coisas do campo eu finalmente compreendi a que vim.

Vim pra aprender e às vezes ensinar, sou testemunha da diferença que o conhecimento pode trazer para a vida de uma pessoa, pois passei por esse processo. Carrego comigo a história desse grupo de onde saíram parceiros de trabalhos e de sonhos, amor e afetos. Passamos 5 anos construindo um sonho no dia-a-dia, nas escolas públicas, nos assentamentos, nas vilas. Em Porto Alegre viramos referência, nos reconhecemos como educadores populares,desenvolvemos uma ética, a do cuidado e procuramos sempre ter no outro um espelho do nosso trabalho. Foi uma época rica, de luta, de encontro, de militância, de sinetadas e acampamentos.

Eu acordava às 5 horas da manhã para ir para a aula e no ônibus, ouvindo Vitor Ramil no meu walkman, vendo o sol surgir no meio da névoa invernal, eu sentia a certeza de ser parte de algo que é maior que eu e que vai continuar depois que eu for embora.
V

Eu só peço a Deus
Que a dor não me seja indiferente
Que a morte não me encontre um dia
Solitário sem ter feito o q’eu queriaEu só peço a Deus
Que a dor não me seja indiferente
Que a morte não me encontre um dia
Solitário sem ter feito o que eu queriaEu só peço a Deus
Que a injustiça não me seja indiferente
Pois não posso dar a outra face
Se já fui machucada brutalmenteEu só peço a Deus
Que a guerra não me seja indiferente
É um monstro grande e pisa forte
Toda pobre inocência dessa genteEu só peço a Deus
Que a mentira não me seja indiferente
Se um só traidor tem mais poder que um povo
Que este povo não esqueça facilmenteEu só peço a Deus
Que o futuro não me seja indiferente
Sem ter que fugir desenganando
Pra viver uma cultura diferente

(EU SÓ PEÇO A DEUS, Leon Gieco versão Raul Elwanger)

Aconteceu o Fórum Social Mundial e minha vida mudou novamente. A militância me levou para a coordenação do evento e foi incrível ver aquela multidão reunida, todas as cores, todas formas, todos os povos circulando por Porto Alegre, minha cidade.

Achei que iria estourar de emoção quando vi na abertura, aquele povão - 100 mil pessoas - escutando Vitor Ramil cantando Semeadura, o mesmo Vitor que me acompanhava nas manhãs geladas no meu radinho de pilha, o Vitor que parece viveu e sentiu o mesmo que eu, que escreve suas músicas para mim, o Vítor que somente os gaúchos conhecem e valorizam.

Tudo que me aconteceu depois do FSM foi conseqüência dele. Criamos um evento paralelo ao FSM para as crianças, criamos o Fórum Mundial de Educação, conheci a Carta da Terra e passei a desenvolver minhas atividades tendo ela como referência ética. Meu grupo se fortaleceu, se expandiu e éramos muitos a trabalhar em espaços públicos e nas escolas. Meu trabalho tornou-se conhecido, fui viajar, passei temporadas na Europa e viajei pelo pais, fiz parte de vários projetos, vários grupos, muitas redes e em algum momento me perdi.

Perdi um encantamento que tornava tudo que eu vivia uma surpresa. De repente somente andar nas ruas de Porto Alegre já não me bastava, ansiava por outros caminhos. O frio não me parecia tão acolhedor e queria um lugar quente. Cansei dos constantes embates, por estar mais perto do poder percebi as vaidades e projetos pessoais que permeiam cada ato da gestão da coisa pública.

Não queria mais andar em grupo, quis caminhar sozinha, em outros ares. Me despedi de Porto Alegre.

VI

Chove na tarde fria de Porto Alegre
Trago sozinho o verde do chimarrão
Olho o cotidiano, sei que vou embora
Nunca mais, nunca maisChega em ondas a música da cidade
Também eu me transformo numa canção
Ares de milonga vão e me carregam
Por aí, por aíSobrevôo os telhados da Bela Vista
Na Chácara das Pedras vou me perder
Noites no Rio Branco, tardes no Bom Fim
Nunca mais, nunca maisO trânsito em transe intenso antecipa a noite
Riscando estrelas no bronze do temporalAres de milonga vão e me carregam
Por aí, por aíO tango dos guarda-chuvas na Praça XV
Confere elegância ao passo da multidão
Triste lambe-lambe, aquém e além do tempo
Nunca mais, nunca maisGuaíba deserto, barcos que não estão
Ares de milonga vão e me carregam
Por aí, por aíRuas molhadas, ruas da flor lilás
Ruas de um anarquista noturno
Ruas do Armando, ruas do Quintana
Nunca mais, nunca maisDo Alto da Bronze eu vou pra Cidade Baixa
Depois as estradas, praias e morros
Ares de milonga vão e me carregam
Por aí, por aíVaga visão viajo e antevejo a inveja
De quem descobrir a forma com que me fui
Ares de milonga sobre Porto Alegre
Nada mais, nada mais.

(RAMILONGA, Vitor Ramil).

Brasília. Vim para cá a convite do MMA para compor governo e fugir do frio. Fui para a Agenda 21. Nada mais ilusório. Vivendo e não aprendendo. Passei meses viajando, sem ter uma casa aqui, hóspede permanente. Conheci pessoas, estudei muito para acompanhar as discussões no governo, organizei eventos, escrevi textos, mas não surgiu o espaço para realizar o projeto que vim fazer. Meu desencanto aumentou. Após poucos meses percebi que o projeto de defendia lá no sul, agora que era governo se descaracterizou e virou outra coisa. Acompanhei a apropriação da coisa pública pela companheirada, que disputava cargos para toda a família, colocando nos ministérios a esposa, filhos, genros, amigos, instrumentalizando as ONGs e os movimentos sociais, silenciando o trabalho de base. Resolvi sair do governo, não queria fazer parte disso, e pensei em acompanhar as lutas das mulheres da floresta da Amazônia, mudar pro Acre, ficar mais longe ainda do frio.

VII

Quando você me acendeuFiquei toda arrepiadaVi claridade no breuMinha alma iluminadaSenti uma febre danadaPerdi minha hora marcadaAbri minha porta fechadaE o meu corpo tremeuEu estava apaixonada, meu DeusQuando você me entendeuEu não entendia nadaMinha vida renasceuE amei estar sendo amadaSenti uma febre danadaPerdi minha hora marcadaAbri minha porta fechadaE o amor se rendeuQuero ser sua namorada, meu DeusSeja lá quem te mandouMeu amor te recebeuE hoje o céu de sua estrelaMenino, sou euMenino, sou eu(ILUMINADA, Roberta Mendes e Jorge Portugal)

Iluminada descreve meu amor por Renan. Desde que nos conhecemos partilhamos a vida e os sonhos, casamos em 24 dias e após 3 meses, engravidamos. Tivemos Caetano e logo após Isadora. E nossa vida é boa, como jamais imaginei possível. Não tenho palavras que dêem conta de tudo que nosso amor representa e acho desnecessário tentar organizar tudo que sinto e vivemos juntos. Aprendi com ele que a sustentabilidade começa em casa, com as pessoas que amamos e que é nesse “local” que fazemos diferença. Estando com a casa “arrumada”, os amores expressos, os afetos em dia, encontramos em nós mesmos a força para contribuir para uma nova sociedade. Essa força foi o amor de Renan quem me deu.








VII


Vento
Quem vem das esquinas
E ruas vazias
De um céu interiorAlma
De flores quebradas
Cortinas rasgadas
Papéis sem valorVento
Que varre os segundos
Prum canto do mundo
Que fundo não temLeva
Um beijo perdido
Um verso bandido
Um sonho refémQue eu não possa ler, nem desejar
Que eu não possa imaginarOh, vento que vem
Pode passar
Inventa fora de mim
Outro lugarVento
Que dança nas praças
Que quebra as vidraças
Do interiorAlma
Que arrasta correntes
Que força os batentes
Que zomba da dorVento
Que joga na mala
Os móveis da sala
E a sala tambémLeva
Um beijo bandido
Um verso perdido
Um sonho refémQue eu não possa ler, nem desejar
Que eu não possa imaginarOh, vento que vem
Pode passar
Inventa fora de mim
Outro lugar
(INVENTO, Vitor Ramil)

Hoje Brasília é meu lar. Aqui tenho uma casa precisando de reformas, meus livros e cds. Minhas crianças passam o dia entrando e saindo de casa, molhando minha horta e jardim com a água velha da piscina de plástico, brincando na varanda. Estou muito apegada às minhas florzinhas e arvorezinhas. Como a fruta que meu filho me traz da mangueira do jardim.

Pretendo passar o ano lendo, em casa, ouvindo a gritaria das crianças. Continuo estudando porque cada dia mais me convenço do pouco que sei. Acho uma temeridade o atrevimento de anos atrás, quando imaginava que tinha algum saber para trocar. Vejo que sempre ganhei mais que dei para essas comunidades. E me sinto grata pelo caminho que percorri porque foi ele que me trouxe até aqui, no meu lugar.

Para ganhar a vida, faço o que gosto e acredito: trabalho com um grupo de estudantes e juntos construímos um projeto de extensão universitária que nos leva às escolas públicas do entorno do DF. Fazemos oficinas, ensinamos-e-aprendemos juntos a nos assumir educadores. É um trabalho bonito, de formiguinha, pois cada vez mais me convenço que é lá na ponta que fazemos a diferença.

Entendo a sustentabilidade como tendo várias dimensões e tento trazer essa diversidade para minha casa e minha prática. Às vezes sou feliz nas minhas tentativas, outras me sinto impotente com tudo que vejo. Mas imagino que Leonardo Boff tem razão e somos – nós humanos – um projeto infinito, sempre em abertura, procurando.