Carta da Terra no Brasil

Carta da Terra no Brasil
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domingo, 31 de agosto de 2008

3o. Congresso Internacional Transdisciplinaridade, Complexidade e Ecoformação

O 3o. Congredo de Transdisciplinaridade começa terça-feira na Universidade Católica de Brasília.
A programção está super bacana com a presença de Edgar Morin, Francisco Gutierrrez e Cruz Prado, Leonardo Boff, Lais Mourão, Vera Catalão, Pedro Demo.

site do evento: http://www.catolicavirtual.br/citce/

A Profa. Lais Mourão e eu organizamos um e-book "A Arca de Morin" com textos dos alunos que passaram pela disciplina O Método da Complexidade" na Universidade de Brasília entre 2003 e 2008. Vamos entregar ao Edgar Morin como uma homenagem e agradecimento pelos conhecimentos que ele tão generosamente compartilha.

PROGRAMA DE ATIVIDADES DO CONGRESSO
02 de setembro
9:00hs
Auditório São Batista de La Salle Campus 01
Ato de Abertura e boas vindas.
Preside: Pe. José Romualdo Degásperi. Reitor da UCB.Coordena: Maria Cândida Moraes (Presidente do Congresso)Ministro da Educação (AC) e demais autoridades acadêmicas e institucionais.presentes.Catedrático Saturnino de La Torre/UB.

10hs - 10:30hs
Auditório São Batista de La SalleCampus 01
HOMENAGEM AO PIERRE WEIL
Coordenação:Prof. Dr. Ubiratan D´Ámbrósio Professor emérito da UNICAMP.Participação musical Valter Pini.
10:30hs - 11hs

Intervalo e café

11:00hs - 12:30hs
Auditório São Batista de La Salle
Palestra de Abertura:Complexidade globalizada e complexidade restringida.
Conferencista:Prof. Dr. Edgar Morin

12:30hs - 14:00hs

ALMOÇO

14:00hs - 15:00hs
Auditório São Batista de La Salle
Teleconferência:Mudança Global, ética planetária e a nova visão do mundo das ciências.
Conferencista:Prof. Dr. Ervin LaszloCoordena:Prof. Dr. Ubiratan D´Ámbrósio.
15:00hs - 15:30hs

Café

15:30hs - 17:00hs
Auditório São Batista de La Salle
Fórum:Ciência, consciência e transcendência.
Coordena:Elydio dos Santos Neto (UMESP).Participantes:Dr. Amâncio Friaça (USP); Dr. Jung Mo Sung (UMESP), Pe. Pedro Garcia (Madri)
15:30hs - 17:00hs
Auditorio K
Fórum:Sustentabilidade e mudança real: a necessidade de ampliação de consciência e de responsabilidade social.
Coordena:Sra. Simone Ramounoulou (WHH);Dra. Regina Fittipaldi/UNIPAZ;Dr. Mauricio Andrés Ribeiro (ANA);Dra. Maria Teresa Peres de Souza (CEF)

17:00hs - 18:00hs
Auditório São Batista de La Salle
Conferência:Transdisciplinaridade, educação e cidadania.
Conferencista:Prof. Dr. Ubiratan D´Ámbrósio (UNICAMP).

03 de setembro
8:30hs - 9:00hs
Auditório São Batista de La Salle
Cenário Transdisciplinar
Dra. Carmen Oliver (DOE-UB)Pedro García (OSCM)

9:00hs - 10:00hs
Auditório São Batista de La Salle
Reflexão dialógica sobre práticas psicossociais:Nova formação em pesquisa-ação transdisciplinar.
Conferencista:Dr. Pascal GalvaniUniversidade de QuebecCanadá.

10:00hs - 10:30hs

Café

10:30hs - 12hs
Auditório São Batista de La Salle
Fórum: Pesquisa Metodologia de pesquisa transdisciplinar.
Coordena:Dra. Albertina Mitjáns (UNB)Participantes:Dr. José Armando Valente (Livre-docente UNICAMP);Dr. Saturnino de La Torre (Catedrático - UB);Dr. Fernando Gonzalez Rey (UNICEUB).

12:00hs - 13:30hs

Almoço

13:30hs - 15:00hs
Auditório São Batista de La Salle
Fórum: Ecopedagogia e educação para a sustentabilidade.
Coordena: Dra. Rachel Trajber (MEC);Participam:Dra. Laís Mourão (UNB)Dr. Marcos Sorrentino (MMA)

13:30hs - 15:00hs

Fórum: RIES Rede Internacional de Ecologia dos Saberes.
Coordenam: Dr. Saturnino de La Torre (Catedrático-UB) e Maria Candida MoraesParticipantes:Dra. Nuria Rajadell (Vice-decana da Faculd Educação-UB);Dr. José Tejada (Cated.UAB) Dra. M. Luisa Sevilhano (Cated. UNED).Dra. Ecleide Furlanetto (UNICID)
15:00hs - 15:30hs

Café

15:30hs - 17:30hs
Mini-cursos e oficinas.
Veja relação de minicursos e oficinas abaixo.

17:30hs - 18:30hs.
Auditório São Batista de La Salle
Conferência:Ecopedagogia e bio-aprendizagem.
Conferencista:Dr. Francisco Gutiérrez Catedrático Universidade de la Salle Costa Rica.

04 de setembro
8:30hs - 9:00hs
Auditório São Batista de La Salle
Cenário transdisciplinar
Dra. Maria Antonia Pujol.(DOE-UB) e Montse Gonzalez (DOE-UB)

9:00hs - 10:00hs
Sala ou auditório a ser definido
Conferência:Entre uma educação corporal caótica e uma escolarização corporal ordenada.
Dr. Carlos CalvoUniversidade de la SerenaChile.

10:00hs - 10:30hs

Café

10:30hs - 12:00hs

Fórum:Transdisciplinaridade, sensibilidade e corporeidade.
Coordena:Dra. Ivani Fazenda (Livre-docente -PUCSP)Dra. Kátia Brandão (UFRN)Dr. Juan M. Batalloso Navas (IPF-ES).Dr. Carlos Emediato - Coord REDEPAZ.
10:30hs - 12:00hs

Fórum:Transdisciplinaridade e formação docente.
Coordena:Dra. Luiza Alonso (UCB)Participantes: Dr. José Tejada (Catedrático-UAB)Dra. Ecleide Furnaletto. (UNICID) Doutorando:Américo Somermann (CETRANS).

12:00hs - 13:30hs

Almoço

13:30hs - 15:00hs
Auditório São Batista de La Salle
Fórum:Avaliação cientifica e a urgência de novos enfoques.
Coordena:Catedrática; Flor Cabrera (MIDE-UB)Participantes:Dr. Pedro Demo (UNB) Catedrática Eleonora Badilha-Saxe (UCR)

15:00hs - 15:30hs

Café

15:30hs - 17:30hs

17:30hs - 18:30hs
Auditório São Batista de La Salle
Conferência plenária:Complexidade, redes sociais e sustentabilidade.
Conferencista:Dr. Raul Domingo Motta.

05 de setembro
8:30hs - 9:30hs
Auditório São Batista de La Salle
Conferência:A complexidade e o Vôo incerto da borboleta.
Dra. Maria Conceição de Almeida (GRECOM-UFRN)

9:30hs - 11:30hs
Auditório K
Fórum:Tecnologias digitais, complexidade e Transdisciplinaridade.
Coordena:Dra. Maria Luisa Sevillano (UNED)Participantes:Dra. Mônica Estrázula (UFRGS); Dra.Silvia Fichmann (USP); Dra. Lucila Pesce (PUC-SP)

9:30hs - 11:30hs
Auditório São João Batista de La Salle
Fórum:Paradigma educativo emergente e mediação pedagógica: Novas propostas de formação humana.
Coordena:Dr. Edson Kondo (UCB)Participantes:Dr. Francisco Gutiérrez UCR); Dr. Carlos Calvo (ULS-Chile); Dr. Oscar Azmitia (Reitor Un. de la Salle); Dr. Adriano Nogueira (IPF-Br) Prof. Dr. Leonardo Boff (UERJ).

11:30hs - 12:30hs
Auditório São João Batista de La Salle
Conferencia de Encerramento:Os desafios de uma consciência planetária na perspectiva de um futuro comum.
Conferencista:Prof. Dr. Leonardo Boff

12:30hs - 13:00hs
Auditório São João Batista de La Salle
Ato de encerramentoConclusões e encaminhamentos. Apresentação musical
Autoridades acadêmicas e institucionais.Preside:Reitor da UCB José Romualdo Degásperi.Coordena:Maria Cândida Moraes (Presidente do Congresso) Catedrático Saturnino de La Torre/UB.

OFICINAS E MINI-CURSOS A SEREM OFERECIDOS
OFICINAS

Saberes da tradição e narrativas complexas da saúde e da ecologia - Dra. Maria Conceição de Almeida (UFRN) e doutorando João Bosco Filho (UFRN);

Educação integral na perspectiva transdisciplinar - Dra. Vera Lucia Sousa e Silva (FURB);

Danças circulares sagradas - Sra. Renata C. Lima Ramos (TRIOM);

Mediação Pedagógica - novos processos de doutorado em educação - Dra. Cruz Prado, Catedrática da Universidade de Costa Rica;

O sentido das práticas interdisciplinares na formação do aluno em sala de aula - Dra. Ivani Fazenda, PUC-SP, coordenadora do GEPI;

Jogos cooperativos e Transdisciplinaridade - Doutorando Marcos T.P Almeida (UFC).
MINI-CURSOS

Complexidade, holística e educação - Dra. Izabel Cristina Petráglia (UNINOVE);

Como trabalhar o diálogo transdisciplinar em sala de aula - Dr. José Bonill (UAB);

Metodologia de projetos: uma visão transdisciplinar do processo de gestão educacional - Dr. Fernando Leme do Prado - (Presidente ANET);

Da grade curricular à teia transdisciplinar - Profs. Patrícia Limaverde Nascimento e Fátima Limaverde (Escola Vila-Fortaleza, CE).

Docência transdisciplinar - Dra. Rosamaria Arnt (CUSC) e Dra. Roberta Galasso (CUSC);

Critérios de Avaliação científicos: a necessidade de novos paradigmas - Dra. Flor Cabrera (Catedrática - UB);

Corporeidade e criatividade: Deixando pegadas na terra e desfrutando da plenitude do horizonte - Doutoranda Profa. Inma Benedico (UB);

Sandplay e transdisciplinaridade - Dra. Kátia Brandão e Ana Tânia Sampaio - (FACEX - UFRN);

Emoções, sentimentos, consciência e medo sob o olhar transdisciplinar - Dr. Duglas Werkekin Filho (USF);

Escuta musical: uma estratégia transdisciplinar para Sentipensar - Dra. Enny Parejo (FCC);

Água como matriz pedagógica: da bacia hidrográfica à bacia pedagógica - Dra. Vera Catalão e Dra. Josefina Reis (UNB);

Jogos em família. Um olhar intercultural e transdisciplinar - Catedrática Dra. Maria de Borja (DOE-UB).

As oficinas e mini-cursos serão oferecidos nos dias 02 e 03 de setembro, com duração prevista de 2 e 4 horas, respectivamente. As inscrições serão feitas junto à Secretaria do Congresso, no dia 02, no momento da entrega dos crachás e pastas.

Pistas práticas para cuidar da Terra (I)

Leonardo Boff
Teólogo

Dois princípios são fundamentais na superação da atual crise pela qual passa o planeta Terra: a sustentabilidade e o cuidado.
A sustentabilidade,assentada na razão analítica, tem a ver com tudo o que é necessário para garantir a vida e sua reprodução para as atuais e as futuras gerações.
O cuidado, fundado na razão sensível e cordial refere-se aos comportamentos e às relações para com as pessoas e para com a natureza, marcadas pelo respeito à alteridade, pela amorosidade, pela cooperação, pela responsabilidade e pela renúncia a toda espécie de agressividade.
Articulando estes dois princípios poderemos devolver equiíbrio e vitalidade à Terra.
Oferecemos algumas sugestões práticas no sentido de cada um fazer a sua revolução molecular (Guatarri): aquela que começa pela própria pessoa, base para a grande virada de todo o sistema. Eis algumas:
Alimente sempre a convicção e a esperança de que outra relação para com a Terra é possível, mais em harmonia com seus ciclos e respeitando os seus limites.
Acredite que a crise ecológica não precisa se transformar numa tragédia, mas numa oportunidade de mudança para um outro tipo de sociedade mais respeitadora e includente.
Dê centralidade ao coração, à sensibilidade, ao afeto, à compaixão e ao amor pois são estas dimensões que nos mobilizam para salvar a Mãe Terra e seus ecossistemas.
Reconheça que a Terra é viva mas finita, semelhante a uma nave espacial, com recursos escassos e limitados.
Resgate o princípio da re-ligação: todos os seres, especialmente, os vivos, são interdependentes, e por isso têm um destino comum. Devem conviver fraternalmente entre si.
Valorize a biodiversidade e cada ser vivo ou inerte, pois tem valor em si mesmo independentemente do uso humano.
Reconheça as virtualidades contidas no pequeno e no que vem de baixo, pois aí podem estar contidas soluções globais.
Quando não encontrar uma solução, confie na imaginação criativa, pois ela esconde em si respostas surpreendentes.
Tome a sério o fato de que para os problemas da Terra não há apenas uma solução, mas muitas que devem surgir do diálogo, das trocas e das complementariedades entre todos.
Exercite o pensamento lateral, quer dizer, coloque-se no lugar do outro e tente ver com os olhos dele. Assim verá dimensões diferentes e complementares da realidade.
Respeite as diferenças culturais (cultura camponesa, urbana, negra, indígena, masculina, feminina etc), pois todas elas mostram formas diversas de sermos humanos.
Supere o pensamento único do saber dominante e valorize os saberes cotidianos, do povo, dos indígenas e dos camponeses porque corroboram na busca de soluções globais.
Cobre que as práticas científicas sejam submetidas a critérios éticos a fim de que as conquistas beneficiam mais à vida e à humanidade que ao mercado e ao lucro.
Não deixe de valorizar a contribuição das mulheres porque são portadoras naturais da lógica do complexidade e são mais sensíveis a tudo o que tem a ver com a vida.
Faça um opção consciente por uma vida de simplicidade que se contrapõe ao consumismo. Pode-se viver melhor com menos, dando mais importância ao ser que ao ter e ao aparecer.
Cultive os valores intagíveis quer dizer, aqueles bens relacionados à espiritualidade, à gratuidade, à solidariedade, à cooperação e à beleza como os encontros pessoais, as trocas de experiências, o cultivo das artes especialmente da música.
Mais que parte do problema, considere-se parte de sua solução.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Resgate do Romantismo

Leonardo Boff
Teólogo

Observando os cenários sociais ao nível de mundo e de Brasil somos tomados de abatimento e de melancolia. É melancólico ver a falta de sentido humanitário dos países ricos face aos pobres na fracassada Rodada de Doha. Melancólica no Brasil é a decisão de juizes sem juízo que aprovaram candidaturas de políticos com ficha suja, com total desconsideração do povo permitindo assim que seja governado por pessoas sem credibilidade e ética. Colocam o código diante dos olhos para esconder a realidade, ocultando destarte o direito e o bem comum aos quais deveriam servir. Grande é o abatimento por causa da ameaça de fome de milhões de pessoas devido à desorganização introduzida pelo agronegócio mundial e à especulação dos mercados de commodities. Somos dia a dia alertados acerca do caos ecológico que se está instalando na Terra, que ameaça a biodiversidade, e, no limite, a própria espécie humana. E a voracidade produtivista continua desenfreada, desmatando, poluindo águas e envenando solos.

Ninguém sabe para onde estamos indo. O certo é que o prolongamento da viagem da nave espacial Terra, limitada em recursos e avariada em muitos pontos, pode provocar um desastre coletivo. Esta situação, como o mostraram bem Michael Löwy (franco-brasileiro) e Robert Sayre, leva àquilo que é o titulo do livro de ambos: “Revolta e Melancolia” (Vozes 1995). Leva à revolta contra o excesso de materialismo, de espírito utilitarista na relação para com a natureza, inflação do esprit de géométrie pascaliano, dominação burocrática e desencanto do mundo. Leva à melancolia face à anemia espiritual dominante na cultura, ausência da razão sensível e cordial que funda o respeito à alteridade, a ética do cuidado e a responsabilidade universal.

Houve no passado e continua no presente um movimento cultural que se opôs ao que se convencionou chamar de “espírito do capitalismo”, detalhadamente estudado pelos dois autores citados: o romantismo. Precisamos superar o sentido convencional de romantismo que o identifica com uma escola literária ou artística. Romantismo é algo mais complexo e profundo. Trata-se de uma cosmovisão, de uma forma de habitar o mundo, não apenas prosaicamente com artefatos, máquinas, ordenações sociais e jurídicas mas principalmente habitar poeticamente o mundo ao articular a máquina coma a poesia, o trabalho rotineiro com a criatividade, o interesse com a gratuidade, a objetividade nos conhecimentos com a subjetividade emocional, o pão penosamente ganho, com a beleza fascinante das relações calorosas. Isso deve ser resgatado.

A sociedade da tecno-ciência e do conhecimento nos enviou ao exílio, roubou-nos o sentimento de um lar e de uma pátria e principalmente nossa capacidade de nos comover, de chorar, de rir gostosamente e de nos apaixonar pela natureza e pela vida. Somos condenados a viver sob o “sol negro da melancolia”. Mas não apenas os românticos (em termos analíticos) são afetados por esta melancolia. Mas também os adeptos da cultura imperante. Um devastador vazio existencial marca milhares de pessoas que pelo consumo desenfreado ilusoriamente o procuram preencher.

Esta condição humana faz suscitar novamente a utopia. Esta nasce da convicção de que o mundo não está fatalmente condenado à melancolia. Há em nós e na sociedade virtualidades ainda não ensaidas que, postas em pratica, podem reencantar a vida. Eis uma utopia necessária, mensagem perene do romantismo. Bem termina Michael Löwy sua obra: “a utopia ou será romântica ou não será”.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Um Cardeal, amigo da inteligência

Leonardo Boff
Teólogo
No dia 18 de julho do corrente ano visitei em São Paulo meu antigo mestre, o Cardeal Paulo Evaristo Arns. Encontrei um sábio bíblico, carregado de dias mas cheio de vida e de lucidez intelectual. Sobre a mesa estavam vários livros abertos, seus amigos de predileção: os textos de São Jerônimo, de São João Crisóstomo, da Didaqué e outros. Por mais de duas horas entretivemo-nos sobre nossa vida e nossas andanças pelo mundo da teologia e da Igreja e tivemos saudades de nosso próprio passado. Foi meu mestre em teologia, introduzindo-me na leitura dos Padres da Igreja, nas línguas originais, aqueles pensadores dos primeiros séculos que inauguraram a grande aventura intelectual que foi o encontro da fé cristã com a inteligência filosófica dos gregos e com o sentido do direito dos romanos.
Três paixões marcam a vida do mais importante de nossos cardeais no século XX: a paixão incandecente por Deus, a paixão pelos pobres na perspectiva de sua libertação e a paixão pela inteligência. Para Dom Paulo, Deus não é um conceito teológico mas uma experiência de intimidde e de fascinação. Ele pode falar de direitos humanos, denunciar sua sistemática violação e de falta de justiça social. E o faz bem. Mas deixemo-lo falar de Deus para percebermos que suas palavras ganham doçura e profundidade, pois comprovam o que Pascal dizia:”é o coração que sente Deus, não a razão”.
Sua outra paixão são os pobres, na grande tradição de São Francisco, pois Dom Paulo é e continua frade fransciscano. Como jovem estudante de teologia, trabalhei com ele por dois anos, nas quintas-feiras e nos sábados à tarde e nos domingos no bairro Itamarati de Petrópolis e nos morros vizinhos onde moravam os pobres. Falava com eles com carinho. Fundou escolas e animava a cultura local. Quando cardeal-arcebispo de São Paulo chamou Paulo Freire para orientar pedagogicamente a pastoral das periferias. Mas sobretudo, defendeu aqueles que o regime militar julgava subversivos, não raro torturados e até assassinados. Arriscou a própria vida para defendê-los. O Papa Paulo VI, sabendo de seu compromisso pelos direitos humanos, o fez imediatamente Cardeal de São Paulo. A sociedade brasileira lhe deve uma contribuição inestimável com o livro Brasil nunca mais, relato das torturas a partir de fontes oficiais dos tribunais militares. Corroborou assim a desmantelar o regime e acelerar a volta à democracia.
Sua terceira paixão é pela inteligência. Formou-se na Sorbonne em Paris com uma tese que acaba de ser lançada em português numa belíssima edição pela Cousac-Naif: A técnica do livro em São Jerônimo. Ai associa o esprit de finesse francês com a acribia da pesquisa alemã. Escreveu mais de 50 livros, traduziu textos clássicos dos Padres da Igreja mas principalmente sempre defendeu a inteligência teológica. Acompanhou-me a Roma quando tive que me submeter às instâncias doutrinárias do Vaticano. Não apoiava apenas um ex-aluno, mas queria testemunhar o que dissera ao Cardeal encarregado de me inquirir, Joseph Ratzinger: “A teologia é um bem da Igreja local; quero, como pastor, testemunhar que esta teologia que agora está sob juízo, faz bem às nossas comunidades; se ela contiver erros, corrijamo-los para que continue a animar a fé dos fieis”. Foi considerado o Cardeal da libertação e sempre enfatizou a legitimidade e a necessidade deste tipo de teologia.
Ao embarcar no navio no dia 16 de julho de 1965 para me formar na Alemanha, me entregou na mão um bilhete que guardo até hoje:”Quero que saiba isso: queremos lhe dar o melhor porque o Brasil e a Igreja são realidades complexas e precisam do melhor. Enviado por Deus, estude e viva por Ele e para Ele”. É um conselho que continua a me alimentar e a me inspirar.

sábado, 9 de agosto de 2008

O Paraguai sob o signo da libertação

Estou enviando artigo sobre o novo presidente do Paraguai, Fernando Lugo, antigo amigo meu.Um abraçoLboff

Leonardo Boff
Teólogo

Não se pode falar do Paraguai sem antes, humildemente, pedir desculpas pelo etnocídio que as tropas da Tríplice Aliança (Brasil, Argentina, Uruguai) perpetraram durante os cinco anos de guerra. Ocorreu um brutal genocídio no qual mais de 90% dos homens adultos foram mortos ou passados a fio de espada, entre eles muitas crianças. É uma dívida ética que ainda devemos reparar. Mas agora importa olhar para frente.

Depois de 60 anos de domínio do Partido Colorado, finalmente, irrompeu uma figura de alta qualidade ética e política na pessoa de Fernando Lugo. Foi padre da Congregação do Verbo Divino e bispo de San Pedro, diocese com muitos pobres. Possui excelente currículo acadêmico, formado em ciências da religião e em sociologia com especialização em doutrina social da Igreja pela Universidade Gregoriana de Roma. Foi professor de teologia e membro do seleto grupo de assessores do Conselho Episcopal Latino-americano. O que marcou sua vida foram os cinco anos que trabalhou no Equador com comunidades indígenas sob a inspiração do bispo de Riobamba, Leônidas Proaño, famoso por sua postoral indigenista de cunho claramente libertador, pois se propunha gestar uma Igreja de rosto indígena em sua forma de rezar, de pensar e de viver a fé.

De regresso ao Paraguai e feito bispo, inseriu-se profundamente nos meios pobres e na cultura guarani (fala fluentemente guarani). Esta prática pastoral lhe fez entender o acerto das intuições e do método da Teologia da Libertação, que havia aprendido com o bispo Proaño: partir do universo dos pobres, dar-lhes vez e voz, fazer corpo com suas causas, participar de suas agruras e alegrias corroborando para que se tornem sujeitos de sua libertação, construtores de um outro tipo de sociedade e de outro modelo de Igreja,fundado em redes de comunidades de base. Inserido nos meios populares, sentiu na pele a urgência de mudanças políticas de seu pais.

Não havendo lideranças significativas que pudessem romper a “ditadura” do Partido Colorado e de combater a corrupção instalada em todas as instâncias do poder, entendeu que ele poderia prestar esse serviço a seu povo. “Liturgia” no sentido antigo da Igreja, mais que um conjunto de ritos e celebrações, era entendida como serviço ao povo no sentido do bem comum. Pois essa “liturgia” foi assumida pelo bispo Lugo.

Coordenou a formação da “Aliança Patriótica para a Mudança”, apoiada pelo Partido Liberal Radical Autêntico e por um leque de partidos menores que o levaram à presidência do país. Inicialmente o Vaticano se opôs à sua decisão, chegando até a suspende-lo “a divinis” (proibição de exercer o ministério). Mas uma vez eleito, triunfou a sensatez e acolheu seu pedido de voltar ao estado leigo.

É infeliz a expressão canônica “redução ao estado leigo”, pelo simples fato de que este estado é o de Jesus, como o diz a epístola aos Hebreus, pois notoriamente Jesus não é da tribo de Levi, dos sacerdotes, mas de Davi que é de leigos, reis e poetas. Portanto, foi promovido ao estado de leigo, ao de Jesus. Quer exercer o poder dando centralidade aos pobres e ao povo guarani.

Deixou claro que não quer fazer da política seu destino de vida mas apenas uma passagem de serviço.É um homem que sabe escutar e acolher o vem de baixo, fruto da experiência de muitas gerações. É uma honra para a Igreja e para a própria Teologia da Libertação oferecer um quadro desta densidade política e ética para servir a um povo que tanto sofreu historicamente e que merece um destino melhor, integrado nas novas democracias do Continente.

domingo, 3 de agosto de 2008

A impossível comensalidade depois de Doha

Leonardo Boff
Teólogo
O vergonhoso fracasso da Rodada de Doha se deve principalmente aos países ricos que quiseram garantir a parte leonina nos mercados dos pobres. Num quadro de fome já instalada, se desperdiçou a opotunidade de assegurar comida na mesa dos famintos. O sonho ancestral da comensalidade que nos faz humanos, quando todos poderiam sentar-se à mesa para comer e comungar, se torna ainda mais distante. Além da crise alimentar, nos assolam ainda a crise energética e a climática. Se não houverem políticas mundiais articuladas podemos enfrentar graves riscos às populações e ao equilíbrio do planeta. Dai A Carta da Terra propor uma aliança de cuidado universal entre todos os humanos e para com a Terra até como questão de sobrevivência coletiva.

Os problemas são todos interdependentes. Por isso não é possível uma solução isolada com meros recursos técnicos, políticos ou comerciais. Precisa-se de uma coalizão de mentes e coração novos, imbuídos de responsabilidade universal, com valores e princípios de ação, imprescindíveis para uma outra ordem mundial. Enumeremos alguns deles:

O primeiro de todos reside no cuidado pela herança que recebemos do imenso processo da evolução do universo.

O segundo está no respeito e na reverência face à toda alteridade, a cada ser da natureza e às diferentes culturas.

O terceiro encontra-se da cooperação permanente de todos com todos porque somos todos eco-interdependentes a ponto de termos um destino comum.

O quarto é a justiça societária que equaliza as diferenças, diminui as hierarquizações e impede que se transformem em desigualdades.

O quinto é a solidariedade e a compaixão ilimitada para com todos os seres que sofrem, a começar pela própria Terra que está crucificada e pelos mais vulneráveis e fracos.

O sexto reside na responsabilidade universal pelo futuro da vida, dos ecosistemas que garantem a sobrevivência humana, enfim, do próprio planeta Terra.

O sétimo é a justa medida em todas as iniciativas que concernem a todos já que viemos de uma experiência cultural marcada pelo excesso e pelas desigualdades.

Por fim é a auto-contenção de nossa voracidade de acumular e consumir para que todos possam ter o suficiente e o decente e sentir-se membros da única família humana.

Tudo isso só é possível se junto com a razão instrumental resgatarmos a razão sensível e cordial.

A economia não pode se independizar da sociedade pois a consequência será a destruição da idéia mesma de sociedade e de bem comum.

O ideal a ser buscado é uma economia do suficiente para toda a comunidade de vida.

A política não pode se restringir a ordenar os interesses nacionais mas se obriga a projetar uma governança global para atender equitativamente os interesses coletivos.

A espiritualidade precisa ser cósmica que nos permita “viver com reverência o mistério da existência, com gratidão pelo dom da vida e com humildade face ao lugar que o ser humano ocupa na natueza”(Carta da Terra, introdução). O desafio que se impõe parece ser este: passar de uma sociedade de produção industrial em guerra com a natureza para uma sociedade de promoção de toda a vida em sintonia com os ciclos da natureza e com sentido de equidade.

Estas são as pré-condições de ordem ética e de natureza prática que se destinam a criar as condições de uma comensalidade possível entre os humanos. Logicamente, se fazem necessárias as mediações técnicas, políticas e culturais para viabilizar este propósito. Mas elas dificilmente serão eficazes se não forem plasmadas à luz destes princípios-guias que significam valores e inspirações.