Carta da Terra no Brasil

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quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Carta da Terra para as Crianças-GIRASSOL


Queridas e lindas crianças GIRASSOL,

Hoje estou muito feliz ao sentir o carinho com que vocês, crianças-flores, cuidam de mim. Já pensaram como seria bacana se todas as pessoas agissem como vocês... Muito obrigada.
De tão emocionada, fiz até cair CHUVA no Cerrado e acabei cum uma seca de 6 meses!!
De tão alegre, os indios da Amazônia dançaram comigo, na beira do iguapé!
Para o dia de vocês ficar mais colorido, notaram como as cores das árvores estão mudando...Reparem nas árvores floridas que embelezam as suas ruas...
Tudo isso porque vocês, crianças-flores lembraram de mim, a TERRA!!


Vocês já pararam para pensar que os seres humanos, as plantas e os outros animalzinhos são SERES VIVOS. Como VIVOS todos vocês fazem parte do grande ciclo de vida que garante que eu, a Terra, continue VIVA também... Assim, estamos todos ligados, olha que bonito!

Olhem só, vamos combinar o seguinte: cada um de vocês fará UMA boa ação por dia. Só uma.

Se cada um de vocês fizer uma boa ação por dia já basta, pois vocês todos juntos são MUITOS a cuidar de mim.


Em troca, eu também vou cuidar de vocês e garantir que todos os seres humanos morem em mim. Eu vou continuar sendo a sua casa.

Vocês vão aprender e se divertir muito transformando a TERRA em um lugar melhor.

Meu amor e minha esperança mora em seus corações.

Muitos beijos da TERRA.

domingo, 21 de setembro de 2008

Democracia na Fábrica, Leonardo Boff

Leonardo Boff
Teólogo

A democracia entrou na fábrica Indubitavelmente a democracia é o melhor modelo de organização poliitica que a humanidade já excogitou. No entanto, lá onde se introduziu no contexto de relações capitalistas de produção, vive em permanente crise. Por sua própria lógica interna, tais relações produzem desigualdades sociais e exclusões que corroem pela base a idéia mesma de democracia. Democracia que convive com miséria e exploração se transforma numa farsa e representa a negação da própria democracia. É notório que a democracia sempre parou na parta da fábrica. Lá dentro vigora, com elogiosas exceções, a ditadura dos donos e de seus administradores. Não obstante esta contradição, nunca cessa a vontade de fazer da “democracia, valor universal”, sonho imorredouro do notável teórico italiano, Norberto Bobbio, ou a “democracia sem fim” de Boaventura de Souza Santos, quiçá o melhor pensador político português, quer dizer, a democracia como projeto a ser realizado em todos os âmbitos da convivência humana e indefinidamente perfectível.

Em todas as partes, se procura romper o pensamento único e o modo único de produção capitalista, inventando formas participativas de produção e abrindo brechas novas pelas quais se possa concretizar o espírito democrático.

Recentemente, tive a oportunidade de assistir o exercício democrático de produção dentro de uma fábrica de cerâmica na cidade de Neuquén no sul da Argentina, na porta de entrada da Patagônia. Trata-se da Cerâmica Zanon, que pertencia a um grupo econômico multinacional, cujo dono principal era Luis Zanon, da empresa Ital Park, testa de ferro da privatização das Aerolineas Argentinas e um dos cem empresários mais ricos na Argentina. Este empresário, em 2001, estava prestes a decretar a falência da empresa. Chegou a demitir 380 operários e, ao mesmo tempo, tomava milionários empréstimos de vários organismos financeiros, para com a falência sair enriquecido. Tratava-se, portanto, de uma falência fraudulenta, como depois foi provado.

Os operários resistiram, começaram a se organizar e se articular com outras entidades sindicais, movimentos sociais, universidades, igrejas e diretamente mobilizando a sociedade civil local e até a nacional. Todos os intentos por parte da polícia de desaloja-los foram frustrados. Os operários assumiram a direção da fábrica de forma democrática, organizaram a complexa produção de cerâmica, de alta qualidade, com maquinaria moderna de origem italiana. Decretada a falência em 2005, trocaram o nome da fábrica. Agora se chama “Fasinpat”(fabrica sin patrones). Democraticamente ajustaram os departamentos, introduziram a rotatividade nas funções para todos poderem aprender mais, fizeram parcerias com a universidade local. Não só. A fábrica não se reduz a produzir produtos materiais mas também cultura, com biblioteca, visitação de escolas, shows multitudinários no grande pátio, colaboração com os indígenas mapuche que ofereceram sua rica simbologia assumida na produção. Lá trabalham 470 operários produzindo mensalmente 400 mil metros quadrados de vários tipos de cerâmica de comprovada qualidade.

Fazia gosto de ver o rosto dos operários desanuviados, libertos da servidão do trabalho alienado, contentes de estar levando avante a democracia real nas relações produtivas que se revertiam em relações humanizadoras entre eles. Sua postulação é que o Estado expropie a fábrica, sem pagar as dívidas por terem sido fraudulentas e entregue a gestão aos próprios operários a serviço da comunidade através de obras públicas como construção de casas populares, postos de saúde, colégios e outros fins sociais. Como se depreende, a democracia pode sempre crescer e mostrar seu caráter humanizador.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Carta para a Terra


Escola de Educação Infantil Arte de Crescer


São Paulo, 8 de setembro de 2008

Amiga Terra

Nós, as crianças, estamos tentando ajudar você.
Nós vamos ajudar você Terra a não ficar triste, nem doente com a poluição, guerra e destruição da natureza.
Nós, as crianças do 1º ano Girassol da Escola Arte de Crescer, fizemos um folder explicando para as pessoas, adultos e crianças, como não poluir a Terra e cuidar da mãe natureza.
Aqui na escola e na nossa casa nós reciclamos o lixo e separamos.
Na nossa sala nós reutilizamos o copo descartável 3 vezes, ou mais, antes de jogar fora. Isso chama reutilizar.
Cada criança tem o seu copo para beber água quantas vezes quiserem, ou seja, reutilizar o seu copo durante a aula para não jogar muitos copos no lixo.
Nós usamos 10 garrafas, uma para cada criança, para plantar flores e árvores.
Nós estamos reutilizando e reciclando tudo o que a gente pode para ajudar você Terra.
Temos o cuidado de não deixar a torneira aberta jogando água fora e desperdiçando enquanto lavamos a mão ou escovamos os dentes.
Nós vamos continuar ajudando você Terra para não ficar triste ou doente.
Isso também esta nos ajudando e ajudando todos os seres vivos a não morrer ou ficar doente.

Beijos.

1º ano Girassol

domingo, 14 de setembro de 2008

Sabedoria Mapuche

Leonardo Boff
Teólogo
Hoje enfrentam-se dois olhares contraditórios com referencia à Terra. Um, a vê como um grande objeto, destituído de espírito, à disposição do ser humano que pode dispôr de seus recursos como bem entender. Este olhar permitu o projeto técnico-científico de conquista e dominação da Terra, que está na base do atual aquecimento global. O outro, a considera como um super organismo vivo, a Gaia dos modernos ou a Pacha Mama dos povos originários andinos. Ela se auto-regula e articula todos os seus componentes de forma que se faz a permanente produtora e reprodutora de todo o tipo de vida.

Este segundo olhar, foi o dominante na história da humanidade e foi responsável pelo equilíbrio que se estabeleceu entre a satisfação das necessidades humanas e a manutenção do capital natural em sua integridade e vitalidade. Hoje cresce a consciência de que o primeiro olhar – da dominação e devastação – precisa ser limitado e superado, pois, do contrario, pode provocar imenso desastre no sistema da vida. A Terra seguramente continuará, mas talvez sem a nossa presença. Dai a urgência de revisitar os portadores do primeiro olhar – da Terra como Grande Mãe e Casa Comum- pois eles são portadores de uma sabedoria que nos falta e de formas de relação para com a natureza que nos poderá salvar. Então nos encontramos com os povos originários, os indígenas que, segundo dados da ONU, são mais de cem milhões no mundo inteiro, distribuídos em quase todos os paises, como no extremo Norte com os sami (esquimós) ou no extremo Sul, com os mapuche.

Em setembro do corrente ano pude me entreter longamente com os mapuche que vivem na Patagônia argentina e chilena. São muitos, somente no sul do Chile mais de quinhentos mil. Vivem nestas regiões andinas há cerca de 15 mil anos. Resistiram a todas as conquistas. Quase foram exterminados, no lado argentino, pelo feroz general Roca e, no lado chileno, são muito discriminados. Aos que hoje ocupam terras que eram suas, se aplicam as leis contra os terroristas da constituição de Pinochet.

Falando com seus lideres (lonko) e sábios (machis), logo salta à vista a extraordinária cosmologia que elaboraram. Tudo é pensado em quatro termos. Segundo C.G. Jung, o número quatro constitui um dos arquétipos centrais da totalidade. Sentem-se tão vinculados à Terra que se chamam “mapu-che”: seres (che) que são um com a Terra (mapu). Por isso se sentem água, pedra, flor, montanhas, insetos, sol, lua, todos irmanados entre si. Aprenderam a descodificar e comprender o idioma da Mãe Terra (Ñeku Mapu): o soprar do vento, o pio do pássaro, o farfalhar das folhas, o movimentos das águas e principalmente os estados do sol e da lua. Em tudo sabem tirar lições. Seu ideal maior é viver e alimentar profunda harmonia com todos os elementos, com as energias positivas e negativas e com o céu e com a terra. Sentem-se os cuidadores da natureza. A comunidade sobe ao morro mais alto. Toda a terra que avista até se encontrar com o céu, é-lhe designada para cuidar. Perturbam-se quando outros não mapuche penetram estas terras para introduzir cultivos, pois entendem que assim se torna mais difícil cumprir a sua missão de cuidar.

Desenvolveram sofisticados métodos de cura. Toda doença representa uma quebra do equilíbrio com as energias da Terra e do universo. A cura implica reconstituir este equilíbrio, de sorte que o enfermo se sinta novamente inserido no todo. Os mapuche são orgulhosos de seu conhecimento. Não aceitam que seja considerado folclore ou visão ancestral. Insistem em dizer que é um saber tão sério e importante como o nosso científico, apenas diferente. Na busca de regeneração da Terra eles podem nos inspirar

domingo, 7 de setembro de 2008

Pistas práticas para cuidar da Terra (II)

Estou enviando artigo para a proxima semana.
Um abraço
lboff

Leonardo Boff
Teólogo

No artigo anterior referimos pistas práticas que tinham a ver com a mudança da mente ou do olhar. Agora importa considerar as mudanças das práticas da vida cotidiana:
Procure em tudo o caminho do diálogo e da flexibilidade porque é ele que garante o ganha-ganha e é uma forma de diminuir os conflitos e até poder resolvê-los.
Valorize tudo o que vem da experiência, dando especial atenção aos que não são ouvidos pela sociedade.
Tenha sempre em mente que o ser humano é um ser contraditório, sapiente e ao mesmo tempo demente; por isso seja critico e simultaneamente compreensivo.
Tome a sério o fato de que as virtualidades cerebrais e espirituais do ser humano constituem um campo quase inexplorado. Por isso sempre esteja aberto à irrupção do improvável, do inconcebível e do surgimento de emergências.
Por mais problemas que surjam, a democracia sem fim é sempre a melhor forma de convivência e de superação de conflitos, democracia a ser vivida na família, a comunidade, nas relações sociais e na organização do estado.
Não queime lixo e outro rejeitos, pois eles fazem aumentar o aquecimento global. Eles podem ser reciclados.
Avise às pessoas adultas ou às autoridades quando souber de desmatamentos, incêncios florestais, comércio de bromélias, plantas exóticas e de animais silvestres.
Ajude a manter um belo visual de sua casa, da escola ou do local de trabalho, pois a beleza é parte da ecologia integral.
Anime a grupos para que no bairro se crie um veículo de comunicação, uma folha ou um pequeno jornal, para debater questões ambientais e sociais e acolher sugestões criativas.
Fale com frequência em casa, com os amigos, com os moradores de seu prédio e na rua sobre temas ambientais e de nossa responsabilidade pelo bem viver humano e terrestre.
Reduzir, reutilizar, reciclar, rearborizar, rejeitar (a propaganda espalhafatosa), respeitar e se responsabilizar. Estes 7 erres (r) nos ajudam a sermos responsáveis face à escassez de bens naturais e são formas de sequestar dióxido de carbono e outros gáses poluentes da atmosfera.
O Pe. Cícero Romão Batista, um dos ícones religiosos do povo do Nordeste do Brasil, elaborou, no início do século XX, dez preceitos de conteúdo ecológico:
“Não derrube o mato nem mesmo um só pé de pau.
-Não toque fogo no roçado nem na caatinga.
-Não cace mais e deixe os bichos viverem.
-Não crie o boi nem o bode soltos: faça cercados e deixe o pasto descansar para que possa se refazer.
-Não plante serra acima, nem faça roçado em ladeira muito em pé; deixe o mato protegendo a terra para que a água não a arraste e para que não se perca a sua riqueza.
-Faça uma cisterna no canto de sua casa para guardar a água da chuva.
-Represe os riachos de cem em cem metros ainda que seja com pedra solta.
-Plante cada dia pelo menos pé de árvore até que o sertão seja uma mata só.
-Aprenda a tirar proveito das plantas da caatinga.
Se o sertanejo obedecer a estes preceitos, a seca vai se acabando, o gado melhorando e o povo terá o que comer.
Mas, se não obedecer, dentro de pouco tempo, o sertão todo vai virar um deserto só”.
Estas práticas nos dão a esperança de que as atuais dores não são de morte mas de um novo nascimento. A vida triunfará.