Carta da Terra no Brasil

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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

É urgente rever os fundamentos

Estou enviando antecipadamente o artigo para a semana depois do carnaval.
Um abraço
Lboff

Leonardo Boff
Teólogo
                                               É urgente rever os fundamentos

 A conjugação das várias crises, algumas conjunturais e outras sistêmicas, obriga a todos a trabalhar em duas frentes: uma intrasistêmica buscando soluções imediatas dos problemas para salvar vidas, garantir o trabalho e a produção e evitar o colapso. Outra transsistêmica, fazendo uma crítica rigorosa aos fundamentos teóricos que nos levaram ao atual caos  e trabalhar sobre outros fundamentos que propiciem uma alternativa que permita, num outro nivel, a continuidade do projeto planetário humano.
 
Cada época histórica precisa de um mito que congregue  pessoas, galvanize forças e confira novo rumo à história. O mito fundador da modernidade reside na razão, desde os gregos, o eixo estruturador da sociedade. Ela cria a ciência, transforma-a em técnica de intervenção na natureza e se propõe dominar todas as suas forças. Para isso, segundo Francis Bacon, o fundador de método científico, deve-se torturar a natureza até que entregue todos os seus segredos. Essa razão crê num progresso ilimitado e cria uma  sociedade que se quer autônoma, de ordem e progresso. A razão suscitava a pretensão de tudo prever, tudo gerir, tudo controlar, tudo organizar e tudo criar. Ela ocupou todos os espaços. Enviou ao limbo outras formas de conhecimento.
 
Eis que, depois de mais de trezentos anos de exaltação da razão, assistimos a loucura da razão. Pois só uma razão enlouquecida organiza a sociedade na qual 20% da população mundial detém 80% de toda riqueza da Terra; as três pessoas mais ricas do mundo possuem ativos superiores à toda riqueza de 48 paises mais pobres onde vivem 600 milhões de pessoas; 257 indivíduos sozinhos acumulam mais riqueza do que 2,8 bilhões de pessoas, o equivalente  a 45% da humanidade; no Brasil 5 mil famílias detém 46% da riqueza nacional. A insanidade da razão produtivista e consumista gerou o aquecimento global que trará desiquilíbrios já visíveis e a dizimação de milhares de espécies, inclusive a humana.
 
A ditadura da razão criou a sociedade da mercadoria com sua cultura típica, um certo modo de viver, de produzir, de consumir, de fazer ciência, de educar, de ensinar e de moldar as subjetividades coletivas. Estas devem se afinar à sua dinâmica e valores, procurando sempre maximalizar os ganhos, mediante a mercantilização de tudo. Ora, essa cultura, dita moderna, capitalista, burguesa, ocidental e hoje globalizada entrou em crise. Ela se expressa nas várias crises atuais que são todas expressão de uma única crise, a dos fundamentos. Não se trata de abdicar da razão, mas de combater sua arrogância (hybris) e de criticar seu estreitamento na capacidade de comprender. O que a razão mais precisa neste momento é de ser urgentemente completada pela razão sensível (M.Maffesoli), pela inteligência emocional (D.Goleman), pela razão cordial (A. Cortina), pela educação dos sentidos (J.F.Duarte Jr), pela ciência com consciência (E. Morin), pela inteligência espiritual (D. Zohar), pelo concern (R.Winnicott) e pelo cuidado como eu mesmo venho propondo há tempos.
 
É o sentir profundo (pathos) que nos faz escutar o grito da Terra e o clamor canino de milhões de famélicos. Não é a razão fria mas a razão sensível que move as pessoas para tira-las da cruz e faze-las viver. Por isso, é urgente submeter à crítica o modelo de ciência dominante, impugnar radicalmente as aplicações que se fazem dela mais em função do lucro do que da vida,  desmascarar o modelo de desenvolvimento atual que é insustentável por ser altamente depredador e injusto.
 
A sensibilidade, a cordialidade, o cuidado levados a todo os níveis, para com a natureza, nas relações sociais e na vida cotidiana, podem fundar, junto com a razão, uma utopia que podemos tocar com as mãos porque imediatamente praticável. Estes são os fundamentos do nascente paradigma civilizatório que nos dá vida e  esperança.


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terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Filosofia e crise


Leonardo Boff
Teólogo
                                        A filosofia pode nos ajudar

 Paul Krugman, premio Nobel de economia de 2008 e um dos mais argutos críticos do curso da economia mundial, escreveu recentemente num editorial do New York Times que os próximos três a quatro meses serão, possivelmente, os mais importantes de toda a história dos EUA. Eu acrescentaria, talvez os mais importantes para  futuro de toda humanidade. Trata-se de definir o curso das coisas. De repente, a humanidade se vê diante da pergunta que ecoou fortemente no Fórum Social Mundial em Belém: "como construir uma sociedade na qual todos possamos viver juntos, a natureza incluída, nesse pequeno e já velho planeta"?
 
A questão é grave demais para ser entregue apenas aos economistas. O que afeta a todos, todos têm direito de se manifestar e ajudar a decidir.
 
Cresce a convicção nos meios pensantes que o paradigma da modernidade ocidental hoje globalizado entrou em crise pelo seu próprio esgotamento e por efeito de implosão. É semelhante a uma árvore que chegou ao seu clímax e então tomba, fatalmente, por haver esgotado sua energia vital. Assim, digamos-lhe o nome, o capitalismo alcançou o seu fim num duplo sentido: fim como realização de suas virtualidades e fim como termo final e morte.
 
Logicamente, se acompanharmos as discussões internas dos grupos organizados pela ONU com nomes notáveis como Stiglizt, prémio Nobel de economia e outros, para pensar alternativas à crise, damo-nos conta da perplexidade geral. A tendência é reanimar um moribundo com o neo-keynesiasmo, forma suave do neoliberalismo com a presença mais orgânica do Estado na economia. Outros tentam pela via do ecosocialismo muito presente no FSM de Belém. É uma opção promissora. Mas não fez ainda, a meu ver, a virada completa que implica uma nova concepção da Terra como Gaia e a superação do antropocentrismo conferindo cidadania também à natureza. Querem, com razão, um desenvolvimento ecologicamente respeitoso da natureza, mas ainda no quadro do desenvolvimento. Ora, conhecemos a lógica voraz do desenvolvimento. Melhor, precisamos antes de uma retirada sustentável do que de um desenvolvimento sustentável. Seria o começo da realização do ecosocialismo.
 
Quer dizer: com os recursos técnicos, financeiros e com a infra-estrutura material já criada pela globalização, teríamos condições de socializar um modo de vida sustentável  para todos. A Terra, colocada sob o descanso sabático, poderia se autoregenerar e  sustentar a todos. Viveríamos mais com menos. Mas como somos culturalmente bárbaros e eticamente sem piedade, não tomamos esta decisão politica. Preferimos tolerar que milhões morram do que mudarmos de rumo. E assim gaiamente continuamos a consumir, sem consciência de que logo aí na na frente um abismo nos espera.
 
Podemos e merecemos um destino melhor. E este não é apenas possível, mas necessário. E é aqui que os filósofos podem nos ajudar. Há dezenas de anos, muitos deles vêm afirmando que a excessiva utilização da razão em função do lucro e da mercantilização de tudo, à custa da pilhagem da Terra, nos levou à crise atual. Para resgatar a sanidade da razão precisamos enriquece-la com a razão sensível, estética e cordial na qual se funda a ética e uma visão solidária da vida. Ela é a mais adequada à nova fase do encontro das culturas e da unificação da história humana. Ou então prosseguiremos por um caminho trágico e sem retorno.




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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Apartar ou Optar - Cristovam Buarque

Artigo publicado no jornal O Globo no dia 31 de janeiro de 2009

Apartar ou Optar
Cristovam Buarque(*)

É constrangedor acompanhar a troca de acusações entre dois ministros.
Reinhold Stephanes, da Agricultura, defendendo o aumento da produção
agrícola, e Carlos Minc, ministro do Meio Ambiente, a preservação das
florestas. Os dois têm razão, o governo é que não tem. Cada um defende
os objetivos de sua respectiva pasta, porque o governo não definiu uma
linha de ação à qual os ministros fiquem submetidos. É preocupante ver o
governo determinar que uma ministra aparte os que estão brigando, no
lugar de fazer uma opção sobre quem tem razão. Como se o problema
estivesse no desentendimento pessoal e não no choque conceitual. O
problema não é apartar duas visões diferentes, mas formular uma visão e
optar por ela.


O que está em jogo não é fazer que os dois ministros se calem, mas
determinar a escolha, entre concepções diferentes, para definir uma
linha que oriente o desenvolvimento que o País precisa seguir. O que
deve estar em debate não são as posições dos dois ministros, mas a
posição do governo e do País para seu futuro: manter o velho padrão de
desenvolvimento a qualquer custo, ou escolher um modelo com base na
conservação de nosso patrimônio natural e na justiça social.


Aparentemente esta escolha não vai acontecer, porque o atual governo é
de "apartar", não de "optar". O estilo do presidente Lula é de apartar
as diferenças que existem nos diversos grupos sociais e políticos
nacionais, procurando e conseguindo aglutinar pela omissão da escolha.
No mesmo momento do embate entre Agricultura e Meio Ambiente, temos a
disputa entre o ministro do
Desenvolvimento Social, Patrus Ananias, e o

ministro Mangabeira Unger, encarregado de formular idéia! s para o
futuro do Brasil, entre manutenção da assistência ou saídas e struturais
para a pobreza. Na ótica da assistência, a Bolsa Família é um
instrumento generoso e correto para reduzir a fome e a miséria; na ótica
do futuro, é necessário um instrumento estrutural ¿ a educação ¿ que
permita reduzir a pobreza. A próxima contenda a ser apartada pelo
presidente será entre o Ministro Lupi, do Trabalho, que corretamente
defende que o dinheiro público seja usado para conservar emprego e os
empresários que consideram um direito receber dinheiro público, sem
compromisso público.


O que caracteriza o Presidente Lula é sua capacidade de "apartar" as
diferentes opiniões, juntando-as em um silêncio reverencial por parte
dos intelectuais, na submissão dos sindicatos e dos empresários; no
acomodamento dos estudantes e da juventude; na formação de pacotes
partidários tão amplos que ele fica sem oposição, porque mesmo quando
esta vence, ele vence também. No lugar de serem as forças da "opção",
Lula e o PT são as forças da aglutinaçã! o ao "apartar" cada grupo e
uni-los por meio da interminável conciliação.


Por um lado, isto traz tranquilidade social ao País. Basta comparar

nossa situação com os vizinhos, onde os presidentes "optaram" e
dividiram as sociedades de seus países. Mas, esta aglutinação leva a um
acomodamento que, por sua vez, leva ao adiamento do enfrentamento de
nossos problemas. Em nome de ficar no poder e ganhar novas eleições, o
governo posterga as "opções" que o País precisa para construir o futuro.
Em nome de manter-se no cargo, os ministros calam, como se não houvesse
um problema a ser enfrentado. Em nome de não romper alianças, o
presidente tolera as discordâncias públicas entre seus ministros.


A militância do PT tinha orgulho do lema "optei", mas ao chegar ao poder
escolheu o "apartei", que caracteriza o governo Lula. Não sabemos o
preço que o Brasil pagará por adiar por mais tempo a opção que deverá
fazer, nem quanto va! i custar nosso vício histórico de sempre apartar,
acomodar, para não optar.


Fomos o último país a abolir a escravidão, seremos o último a fazer as
opções necessárias para a construção de um desenvolvimento sustentável e
justo. Certamente, será depois dos EUA que já começaram a fazer opções
com o governo Obama. No Brasil, o presidente Lula tem todas as condições
de ser um presidente da opção, ao mesmo tempo que tem a competência da
aglutinação.

(*) Cristovam Buarque é professor da UnB e senador pelo PDT-DF 





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O buraco perfeito


Leonardo Boff
Teólogo
                                           O buraco perfeito

Ignace Ramonet, diretor do Lê Monde Diplomatique e um dos agudos analistas da situação mundial, chamou a atual crise econômico-financeira de "a crise perfeita". Putin, em Davos, a chamou de "a tempestade pefeita'. Eu, de minha parte, a chamaria de "o buraco perfeito". O grupo que compõe a Iniciativa Carta da Terra (M. Gorbachev, S. Rockfeller, M.Strong e eu mesmo, entre outros) há anos advertia: "não podemos continuar pelo caminho já andado, por mais plano que se apresente, pois lá na frente ele encontra um buraco abissal". Como um ritornello o repetia também o Fórum Social Mundial, desde a sua primeira edição em Porto Alegre em 2001. Pois chegou o momento em que o buraco apareceu. Lá para dentro caíram grandes bancos, tradicionais fábricas, imensas corporações transnacionais e US$50 trilhões de fortunas pessoais se uniram ao pó do fundo do buraco. Stephen Roach, do banco Morgan Stanley, também afetado, confessou: "Errou Wall Street. Erraram os reguladores. Erraram as Agências de Avaliação de risco. Erramos todos nós". Mas não teve a humildade de reconhecer:" Acertou o Fórum Social Mundial. Acertaram os ambientalistas. Acertaram grandes nomes do pensamento ecológico como J. Lovelock, E. Wilson e E. Morin".

 Em outras palavras, os que se imaginavam senhores do mundo a ponto de alguns deles decretarem o fim da história, que sustentavam a impossibilidade de qualquer alternativa e que em seus concílios ecumênicos-econômicos promulgaram dogmas da perfeita autoregulação dos mercados e da única via, aquela do capitalismo globalizado, agora perderam todo o seu latim. Andam confusos e perplexos como um bêbado em beco escuro. O Fórum Social Mundial, sem orgulho, mas sinceramente pode dizer: "nosso diagnóstico estava correto. Não temos a alternativa ainda mas uma certeza se impõe: este tipo de mundo não tem mais condiçãoes de continuar e de projetar um futuro de inclusão e de esperança para a humanidade e para toda a comunidade de vida". Se prosseguir, ele pode pôr fim a vida humana e ferir gravemente a Pacha Mama, a Mãe Terra.

 Seus ideólogos talvez não creiam mais em dogmas e se contentem ainda com o catecismo neoliberal. Mas procuram um bode expiatório. Dizem: "Não é o capitalismo em si que está em crise. É o capitalismo de viés norteamericano que gasta um dinheiro que não tem em coisas que o povo não precisa". Um de seus sacerdotes, Ken Rosen, da Universidade de Berkeley, pelo menos, reconheceu:"O modelo dos Estados Unidos está errado. Se o mundo todo utilizasse o mesmo modelo, nós não existiríamos mais".

 Há aqui palmar engano. A razão da crise não está apenas no capitalismo norte-americano como se outro capitalismo fosse o correto e humano. A razão está na lógica mesma do capitalismo. Já foi reconhecido por políticos como J. Chirac e por uma gama consideravel de cientistas que se os paises opulentos, situados no Norte, quisessem generalizar seu bem estar para toda a humanidade, precisaríamos pelo menos de três Terras iguais a atual. O capitalismo em sua natureza é voraz, acumulador, depredador da natureza, criador de desigualdades e sem sentido de solidariedade para com as gerações atuais e muito menos para com as futuras. Não se tira a ferocidade do lobo fazendo-lhe alguns afagos ou limando-lhes os dentes. Ele é feroz por natureza. Assim o capitalismo, pouco importa o lugar de sua realização, se nos EUA, na Europa, no Japão ou mesmo no Brasil, coisifica todas as coisas, a Terra, a natureza, os seres vivos e também os humanos. Tudo está no mercado e de tudo se pode fazer negócio. Esse modo de habitar o mundo regido apenas pela razão utilitarista e egocêntrica cavou o buraco perfeito. E nele caiu.

 A questão não é econômica. É moral e espiritual. Só sairemos a partir de uma outra relação para com a natureza, sentindo-nos parte dela e vivendo a inteligência do coração que nos faz amar e respeitar a vida e a cada ser. Caso contrário continuaremos no buraco a que o capitalismo nos jogou.




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