Carta da Terra no Brasil

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sábado, 27 de novembro de 2010

DAS MARGENS SE VÊEM MELHOR AS ESTRUTURAS DE PODER - CARTOGRAFIA DA REDE BRASILEIRA DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL


Valéria Viana Labrea
http://www.scribd.com/doc/44033758/VI-Forum-de-Educacao-Ambiental-Textos-e-artigos

Neste estudo propomos descrever e analisar o discurso produzido pela Rede Brasileira de Educação Ambiental – REBEA e buscamos subsídios para compreender quem são os enredados e sua noção de rede social. Adotamos como dispositivo teórico e analítico a orientar a reflexão a escola francesa de Análise do Discurso (AD) articulado à produção de diferentes autores, dispersos em várias disciplinas, focando a Educação Ambiental e as Ciências Sociais. Compreendemos que essa abordagem considera a heterogeneidade que constitui as identidades e territórios de nossa época e realiza um diálogo entre os saberes. Por isso, não é nossa proposta fazer uma “análise do discurso” stricto sensu, mas – a partir das noções que a AD disponibiliza – elaborar redes de formulações que sejam representativas do período estudado (julho de 2003 a julho de 2008), isto é, composta por recortes discursivo contendo dizeres e sentidos que emergem periodicamente nas trocas entre os enredados e relacioná-los às noções oriundas de diferentes disciplinas, organizando uma cartografia. Destaco e caracterizo as posições-sujeito que entendo como representativa da REBEA: a posição-sujeito dominante e a posição- sujeito dissidente que evidencia uma filiação de sentidos específica. Considero que também compõem a REBEA enredados silenciosos ou silenciados que constituem a maioria dos membros. Em comum, as três posições-sujeito relacionam-se com o silêncio, de diferentes formas. Este estudo, assim, propõe uma tentativa de compreensão que contemple várias dimensões do real, associando as dimensões culturais, simbólicas, imaginárias, políticas ao ambiental, que é estruturante.
Palavras-chave: Análise do Discurso, cartografia subjetiva, silêncio.

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A REBEA PELA REBEA

De fato, a paciência da utopia é infinita.
Boaventura de Sousa Santos. 

Neste estudo parto de um contexto mundial de globalização neoliberal entendida como
" Um novo regime de acumulação do capital que visa, por um lado, a dessocializar o capital, libertando-o dos vínculos sociais e políticos que no passado garantiram alguma distribuição social e, por outro submeter a sociedade no seu todo à lei do valor, no pressuposto de que toda atividade social se organiza melhor quando se organiza sob a forma de mercado (SANTOS, 2005a:13)" .

A conseqüência da globalização neoliberal é a “distribuição extremamente desigual dos custos e das oportunidades no interior do sistema mundial” (idem) acarretando desigualdades sociais entre países ricos e países pobres – a dicotomia Norte/Sul – e entre ricos e pobres no interior do mesmo país (idem). Todo processo traz consigo o seu revés, e a globalização está a ser confrontada por iniciativas absolutamente heterogêneas entre si que têm em comum o desejo de criar alternativas contra-hegemônicas. Essas iniciativas indicam processos de globalização plurais constituídas por um “conjunto de iniciativas, movimentos e organizações que, através de vínculos, redes e alianças locais/globais, lutam contra a globalização neoliberal, mobilizados pela aspiração de um mundo melhor, mais justo e pacífico que julgam possível e que sentem ter direito” (ibidem).

Nesse contexto, entendo as redes educação ambiental como iniciativas emergentes, que utilizam os recursos da tecnologia apropriando- se dos espaços de fluxos (CASTELLS, 1999a:440) e do território-rede (HAESBAERT:2004 apud PILLAR:2006) para subverter sua lógica original, vinculada a processos hegemônicos. Assim, nas brechas, nos interstícios, produz-se contra-hegemonia.

Toda ação está sujeita à ecologia dos atos (MORIN, 2002) e pode desencadear processos paradoxais e conflituosos. Ao me propor estudar a REBEA, não tenho como objetivo fazer uma denúncia ou arbitrar o certo e o errado em ser rede, mas tentar compreender a rede dentro da sua complexidade e contradições. A principal motivação deste estudo se deve à crença – construída a partir da leitura de Boaventura de Sousa Santos – de que existem dois tipos de conhecimento: o conhecimento regulação e o conhecimento emancipação e que se eles revelam a existência de uma tensão epistemológica neste início de novo milênio, essa tensão é também político-ideológica, pois reflete a disputa que hoje existe entre uma matriz econômica-cultural hegemônica e as tentativas dispersas no tempo e no espaço em produzir conhecimentos “emergentes”, que são trazidos a partir da experiência vivida pelos grupos que são historicamente excluídos dos processos decisórios. 

A este grupo une-se parte dos intelectuais e classe média politizada e a partir desta mistura criam-se experiências interessantes de produção de conhecimento emancipação. As redes sociais solidárias – em suas diferentes e infinitas possibilidades de realização – são uma dessas experiências contra-hegemônicas e revelam um cenário onde mais facilmente se mostram “as potencialidades e os limites da reinvenção da emancipação social” (SANTOS, 2005a:14). O conhecimento emancipação em uma versão mal sucedida reproduz o colonialismo, entendido como a “incapacidade de reconhecer o outro como igual” (SANTOS, 2007:53), mas quando plenamente realizado leva à autonomia solidária.

As redes de EA, particularmente a REBEA, transitam no entremeio entre as possibilidades do conhecimento emancipação – entre o colonialismo e a autonomia – buscando uma mudança de ordem epistemológica, condizente com o campo ambiental. Essa mudança implica uma ecologia dos saberes (SANTOS, 2007) que resulta no entendimento que sua base epistemológica é formada a partir do encontro entre teorias de vários campos sociais, práticas variadas, a apropriação dos espaços de fluxo e do território-rede, valores e uma ética do cuidado e da responsabilidade. Nesses termos, ela é absolutamente complexa e visa reinventar as possibilidades emancipatórias para chegar a uma utopia crítica, como propõe Boaventura de Sousa Santos. Minha proposta foi descrever uma parte do trajeto da REBEA, o período entre junho de 2003 a junho de 2008.

A história da REBEA está imbricada na história do movimento ambiental e da formação dos educadores ambientais que se constituíram a partir da militância e da organização de um campo ambiental (CARVALHO, 2001). A discussão sobre processos identitários da REBEA passa pela tensão entre o individual e o coletivo e a inserção de educadores ambientais oriundos de diferentes territórios – entendidos como diferentes posições-sujeito - em uma mesma comunidade virtual e suas conseqüências prática e epistemológica.

A rede é um espaço heterogêneo e essas alteridades se manifestam o tempo todo nas comunicações entre os enredados ou nas suas diferentes práticas e rituais. O consenso é imaginário, o discurso social não é homogêneo, dando lugar a diferentes movimentos de discurso que se encontram na incompreensão. É necessário, para o funcionamento da rede, focar e ampliar aquilo que é comum ao grupo, e construir um efeito de homogeneidade que é principalmente para o outro, o que está fora da rede, mas que, por algum motivo, com ela se relaciona. Nessa troca constante entre os enredados e com o outro é que se forja a identidade coletiva.

Propositadamente, me abstenho de problematizar a missão, os objetivos, o acordo de convivência, o Tratado, os textos fundadores, embora muito pudesse ser dito sobre os documentos que todo educador ambiental, quando se insere na rede, tem que assumir como referência.

Este ritual de entrada é um fato discursivo, cria uma ilusão de que estas referências são compartilhadas e torna possível a REBEA assumir uma identidade coletiva, idealizada. O ritual encobre o fato de que nem mesmo todos os membros da Facilitação Nacional conhecem a origem desses documentos, seu contexto histórico de escrita e adoção. A REBEA não organizou um modo de compartilhar esta memória discursiva. Assim, adotam-se os documentos, mas não se renovam as expectativas que cercaram sua formulação, e sua adoção se torna um gesto vazio de sentido. Estes documentos são falados, mas não vividos ou problematizados no dia-a-dia da rede.

Estes documentos de modo geral traduzem um alinhamento ao sistema hegemônico, comprometendo-se a apoiar uma política de Estado e criando ou naturalizando instâncias verticais e hierarquizadas que negam o desejo de emancipação. A espontaneidade, o voluntariado, a fluidez, o desejo - que são marcas das redes solidárias - encontram resistência, pois não são todos que podem assumir funções na rede, estas são restritas a membros “autorizados”. Um estudo sobre os documentos da REBEA, suas origens e significados poderia esclarecer este e outros aspectos não abordados neste trabalho.

Gestada nos primeiros fóruns de educação ambiental, no início da década de 90, a REBEA foi formada principalmente por professores universitários e ONGs ambientais reunidas pela militância nos fóruns paulistas de EA. A origem universitária da REBEA é simultânea ao aparecimento e difusão da comunicação global mediada por computadores, que ocorreu em larga escala entre pós-graduandos e corpo docente de universidades no início dos anos 90 e o acesso à rede mundial de computadores possibilitou, em grande medida, a organização de uma rede de educadores ambientais brasileiros.

Inicialmente a REBEA se propôs a ser uma rede de articulação nacional de educadores ambientais, mas foi sendo aos poucos substituídas pelas redes locais. Em 2000, na Reunião Culturas de Redes e EA, surgiu a proposta de que ela fosse também uma rede de redes de educação ambiental, assumindo a função de tecer uma malha nacional que conectasse as redes estaduais e locais (AMARAL, 2007). A REBEA adotou como carta de princípios o “Tratado de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis e Responsabilidade Global” e como padrão organizacional uma estrutura horizontal em rede, formato que apresenta possibilidades inovadoras no campo relacional, político e operacional e tem surgido como uma alternativa da sociedade organizada para enfrentar situações complexas, onde ações isoladas não apresentam resultados (REBEA, 2004b:4). A estrutura de gestão da REBEA compreende quatro categorias de participação: secretaria executiva, redes-elos, facilitadores e membros. A diferença entre essas categorias são níveis de responsabilidades diferentes na manutenção e administração da rede.

A REBEA, em 1999, contava com cerca de 50 integrantes espalhados pelo Brasil. Atualmente (2008) a Rede Brasileira conta cerca de 500 membros e é composta por 44 redes-elos, com diferente organização territorial, origem, sistema de gestão e adesão. Nem todas as 44 redes listadas como elos são funcionais: algumas não estão ativas e outras têm poucas conexões e existem somente no nome. As redes-elos muitas vezes desconhecem a estrutura e hierarquia da REBEA, mantendo com a mesma uma interlocução de baixa intensidade. Um número expressivo de redes foi criado a partir dos eventos e encontros de forma espontânea; outras foram criadas a partir de projetos e editais e ainda há aquelas que foram articuladas por órgãos públicos e ONGs, como estratégia para o fomento da educação ambiental (AMARAL, 2004b:134). Muitas redes não têm representação na lista restrita e os motivos apontados foram vários: as redes-elos estão em diferentes estágios de organização e não indicaram um nome, as redes desconhecem essa instância deliberativa e a estrutura da REBEA ou as redes não foram convidadas a indicar representação.

Os membros são as pessoas ou instituições que atuam na área de Educação Ambiental ou se interessam pelo tema e/ou pela experiência de trabalhar em rede. Para ser um membro da REBEA é necessário preencher o cadastro disponível no site (REBEA, 2004a). A lista de discussão da REBEA tem cerca de 500 inscritos e é acessível aos educadores ambientais a partir de uma inscrição e a adesão à Carta de Princípios e ao Acordo de Convivência.

A REBEA no período de pesquisa – julho de 2003 a julho de 2008 - contava com uma secretaria executiva eleita nos Fóruns de EA com mandatos de 2 anos que podem ser renovados. A secretaria tem função organizar e manter viva a rede. Para tal tarefa são designados facilitadores nacionais que auxiliam no processo de vincular a REBEA às demais redes de EA temáticas existentes nas regiões (SANCHEZ, 2008:70).

A secretaria executiva, no período estudado, esteve em um primeiro momento (1999-2004), sob a responsabilidade de Vivianne Amaral da Bioconexão e, desde 2004, assumiu Patrícia Mousinho da Ecomarapendi. A gestão da Vivianne Amaral foi caracterizada pelo esforço em organizar a estrutura da REBEA e politizar os debates e grande parte da memória da REBEA e seus documentos foram organizados em sua gestão. Seu foco era na comunicação e visibilidade da REBEA, na disseminação da cultura de redes e foi na sua gestão que a REBEA se consolidou como rede de redes de EA, a partir de encontros e oficinas presenciais. A partir de 2004, a secretaria executiva segundo Sanchez “foca seus esforços na consolidação das redes nacionais, em especial o apoio a projetos governamentais, com destaque aos Coletivos Jovens Educadores” (2008: 64).

A lista da Facilitação Nacional (FN) – composta pelas entidades gestoras,secretaria executiva, redes-elos e facilitadores - foi criada durante o projeto Tecendo Cidadania com o objetivo de fazer uma gestão compartilhada da REBEA. Era para se constituir no espaço da comunidade de facilitadores de redes de EA que compõem a Rede Brasileira de EA. Nessa dinâmica, os facilitadores, pessoas e instituições atuariam difundindo a cultura de redes, apoiando a criação de novos nós.

Periodicamente discute-se nas listas aberta e da FN a relevância da existência de uma lista restrita, havendo posições favoráveis e contrárias à manutenção da lista fechada. Um dos argumentos favoráveis à manutenção da lista de facilitação diz respeito sobre a questão da governança e o desafio que representa a busca por horizontalidade quando se lida com uma rede com tantos membros. Acrescenta-se o fato de que na lista aberta existem diferentes níveis de envolvimento e responsabilidade e as discussões levam um tempo enorme e os consensos são demorados, contrariando a premissa do território-rede (CASTELLS, 1999a:440) e do tempo intemporal (PILLAR: 2006): fluidez e simultaneidade.

Mas essa compreensão da necessidade da FN não é compartilhada por todos os facilitadores e pela grande maioria dos membros que se manifestam e costumam questionar sobre a validade da proposta de gestão que, na prática, repete modelos hierarquizados e verticalizados. Alguns entendem não ser democrático e participativo haver em uma rede espaço onde nem todos os membros têm acesso e permanecem distantes do foco deliberativo. Alguns facilitadores temem que a FN se torne um “gueto de informações privilegiadas” onde poucos prevaleçam sobre a maioria que é informada sobre as deliberações.

Em seu artigo onde analisa a questão da governança nas redes sociais, Guarnieri (2004) argumenta que acreditar que apenas os valores e as premissas do trabalho horizontal, democrático e participativo darão conta da efetividade da ação em rede, independentemente da forma de gestão adotada é uma postura ingênua e pode contribuir para a descaracterização do trabalho em rede.
"A vontade, a identidade e os objetivos comuns reúnem, aparentemente, os “iguais” - mas, muitas vezes, com o desenvolvimento e o crescimento das redes, questões que antes não faziam parte deste mundo aparentemente tão “igualitário” começam a aparecer. As diversidades culturais, as diferentes maneiras de pensar, de atuar política e socialmente, colocando em conflito hábitos e culturas que vão do clientelismo, do assistencialismo e do centralismo à participação horizontal, podem transformar as redes em atores ineficientes, “pesados” e de poucos. E aí, todos muito ávidos por resultados, passam a agir ou até a transformar redes em associações e organizações piramidais. “Fica mais fácil e ágil”, afinal o exercício da democracia é lento, complicado e exige compromisso e responsabilidade de todos. Exige respeito à diferença. Exige alimentação constante do processo, para que ele não se transforme em sua antítese." (GUARNIERI, 2004).

NO MEIO DO CAMINHO HAVIA UMA REDE

A REBEA posiciona-se em seu espaço de formulação (EF) e assume um discurso onde explicita seu entendimento da noção de rede e gestão. Os documentos produzidos explicitam opções teórico-metodológicas e tornam- se referências que são reproduzidas por seus membros e por outras redes de EA. Localizo este EF principalmente nos textos que estão disponíveis em seu sítio eletrônico www.rebea.org.br.

Uma análise textual prévia remete a um campo multidisciplinar onde sua concepção de rede e educação ambiental é apresentada. Salientamos que essas referências foram construídas em um processo ao longo dos anos da rede. Infelizmente a história dessa construção está dispersa em vários textos e, principalmente, na memória dos que participaram deste processo. Como alguns documentos têm diferentes autores e foram elaborados em gestões e tempos alternados, verifica-se uma certa heterogeneidade entre os textos, nem todos sinalizam a mesma compreensão e entendimentos, mas no geral, não apontam posições-sujeitos excludentes. Isso se explica em parte porque a REBEA possui um núcleo de gestão estável e uma tendência a concentração das decisões e direções de sentido em um grupo restrito.

O campo semântico do espaço de formulação (EF) da REBEA é caracterizado textualmente por um intenso trabalho de reformulações parafrásicas, onde o mesmo é repetido de formas diferentes e passa a constituir a memória do dizer, organizando um imaginário de rede fundado na idéia-força de sustentabilidade, colaboração, diversidade, auto-organização, multi-relações, auto-gestão, gestão compartilhada, autonomia, horizontalidade, multi-liderança, articulação, malha. Este conceito indica inicialmente uma opção por uma forma organizacional que se constrói politicamente para resistir e ser uma opção contra-hegemônica - as redes sociais solidárias - cuja característica é a dissolução de poder a partir de processos de auto-gestão e multi-lideranças, num processo de horizontalidade. A posição-sujeito dominante – que associamos ao EF - representa o discurso que determina os sentidos que circulam no espaço de formulação e que se mantém na “direção” dos sentidos da rede. Esta posição-sujeito se identifica com o “núcleo de poder” da Facilitação Nacional e com seus aliados na lista de discussão aberta. Embora numericamente inferior, é estável e determina as ações políticas da rede e sua identidade coletiva.

EF - A REBEA é formada pelas multi-relações entre instituições e pessoas de diversos setores: organizações sociais, universidade, governo, empresas, entre outros. A malha das relações constitui um ambiente multi-setorial de comunicação, com objetivos compartilhados para a construção da sustentabilidade local e global, e o aprimoramento da educação ambiental. (...) Constituindo-se como uma rede de redes, a REBEA desenvolveu-se no ciberespaço, podendo ser considerada uma rede virtual e tem na participação em sua lista aberta, que congrega todos os membros cadastrados, o espaço maior de participação. (...) Vale salientar que as dinâmicas internas da REBEA estão focadas nas pessoas e não nas instituições, as quais são reconhecidas como estratégicas no processo de sustentação, mas não tem peso ou espaço maior que as pessoas nas deliberações e rotinas da rede. Essa característica faz com que participar e operar na Rede, atendendo aos processos de horizontalização e aos movimentos da auto-organização seja uma experiência de aprendizagem permanente de novo fazer político, tendo como habilidades a serem aprendidas e desenvolvidas: a colaboração, o compartilhamento, o respeito à diversidade, a autonomia, a insubordinação (AMARAL & OLIVATO, 2004:2-3, grifos meus).

O sentido de rede expresso em EF é uma concepção à priori de redes – solidária -, idealizada, “baseada apenas na sua forma aparente” (SANCHEZ, 2008:100) e desconsidera a “lógica de produção de dinâmicas de relacionamento, afastamentos e aproximações, tensões e contradições entre os nós” (idem) característica da rede real. A REBEA, para além da idealização, mostra que existe uma distância entre o dizer e o fazer e torna evidente que a rede solidária só realiza-se discursivamente, porque na prática os enredados – (no I Encontro com o OG em 2005, com a participação de 43 pessoas e 23 redes-elos) - mapearam uma rede caracterizada pela falta de iniciativa individual e coletiva; ausência do exercício de autonomia; responsabilidade de alguns elos das redes; fragilidade nas estruturas físicas, no planejamento estratégico das redes, nos planos objetivos para recursos financeiros; fragilidade na integração entre as redes; não reconhecimento do saber acumulado dos educadores ambientais integrados às redes; necessidade de profissionalização; dificuldades de disseminação das informações; dificuldade de integração de setores; dificuldade na articulação entre as CIEAs e redes; centralidade e fragilidade na capilarização das redes (cf. REBEA, 2008:22).

Em 2008, em nova edição deste encontro – (que contou com 67 participantes, de 30 redes locais e diversos membros do OG) –, o “diagnóstico” atualizado da REBEA é o seguinte: falta apropriação da cultura de redes; falta horizontalidade; falta de informação para atuação em redes e engajamento de elos; ausência de perspectiva de rede; ausência de cultura de rede; falta de participação com comprometimento com a gestão das redes; falta de cultura de redes; falta de unidade na formação política (redes, EA, juventude); falta de reconhecimento das redes por outras instituições e organizações (público e privado); falta articulação entre os vários programas/projetos; falta compromisso articulado das Universidades com a EA ou ambientalização institucional; falta conhecimento das ações; falta entendimento sobre o que é a educomunicação socioambiental; dificuldade de comunicação – poder – descentralização; falta de articulação das redes (REBEA, 2008:72).

O discurso pedagógico da REBEA: a repetição do mesmo

Orlandi (1996:15-23) caracteriza o discurso pedagógico como um discurso autoritário. Por discurso autoritário, entende-se aquele em que não há interlocutores, mas um agente exclusivo (ORLANDI, 1996:15). Ou seja, não é um lugar onde existe diálogo, no sentido de um sujeito que fala e outro que ouve e esta situação poder ser revertida: aquele que falou, agora ouve e assim por diante. Não é possível a troca, pois os papéis sociais estão cristalizados. É importante destacar que a análise sugere que o discurso da REBEA em seu espaço de formulação caracteriza-se como um discurso pedagógico – porque reproduz um certo saber institucionalizado sobre o funcionamento da rede – e autoritário – na medida em que este discurso é referendado como matriz de sentido e não esteja disponível para a problematização, pois já está posto.

Esta matriz de sentidos estabilizados vai sendo incorporada e repetida de várias formas diferentes inclusive ao referir outras redes, inscrevendo-se na configuração típica dos discursos pedagógicos que é a circularidade: discursos que se auto-alimentam, repetindo o mesmo sem deixar espaço para a reflexão (ORLANDI,1996: 15). Vejamos como isso ocorre na REBEA, a partir de uma rede de formulação:

É esse movimento de repetir o mesmo, modificando-o ligeiramente, que permite organizar-se as redes de formulações parafrásicas que regulam a retomada e a circulação do discurso constituindo a memória discursiva. A constituição da memória pode ser produzida a partir de 3 formas de repetição do saber discursivo: 1) a repetição empírica, 2) a repetição formal e 3) a repetição histórica. Na primeira há mero exercício mnemônico. Na segunda, já temos uma elaboração, mas que não produz transferência de sentidos. É na terceira forma de repetição, a histórica, que o homem integra o discurso outro em seu discurso. E o faz fazer sentido (ORLANDI, 1996).

EF1- A Rede Brasileira de Educação Ambiental é hoje uma rede de redes de educadores. (AMARAL, 2004:1).
EF2- A Rede Brasileira de Educação Ambiental é hoje uma rede de redes de educadores. Faz a articulação nacional das redes estaduais e locais. (...) (SANCHEZ, 2008: 120).
EF3 - Assim, juntas, as redes de EA nacionais, tecem a rede das redes que articulam e fortalecem a atuação de educadores e educadoras ambientais (GUERRA 2004 apud GUERRA et alii, 2007).

Entendemos a repetição de esquemas argumentativos característica do trabalho parafrásico da REBEA entre a repetição empírica e a formal, pois em muitos textos há o simples decalque: “recorta-se” o conceito e o “cola” em outro texto sem nenhum tipo de posicionamento. Propomos aqui a idéia de texto como uma heterogeneidade provisoriamente estruturada, como preconiza a AD (cf. INDURKY,1999). Ou seja, consideramos que o sujeito na posição-autor organizou recortes dispersos em diferentes textos e produziu um efeito-texto. Esse é o sentido de autoria em AD e é nesse sentido que utilizamos o termo “original”, porque entendemos que esse efeito-texto é por sua vez retomado e atualizado em outros efeitos-texto e aí inicia um trabalho de produção de memória discursiva. Assim, o enunciado EF é uma matriz de sentido, a elaboração “original” e é principalmente a partir dessa formulação que se organiza o trabalho de repetição empírica e formal. Neste sentido, EF01 a atualiza. No recorte discursivo EF02 apaga-se inclusive a referência a autoria, evidenciando o trabalho da memória discursiva.

Courtine vai dizer que quando um enunciado retoma um saber, repetindo-o e reformulando-o, atualiza um acontecimento, pois uma formulação origem é re-atualizada e é esse movimento que constitui a memória inscrita na história (COURTINE, 1981 apud INDURSKY, 1997:43-4). Em EF03, o imaginário da REBEA sobre a concepção de rede e seu funcionamento é repetido e assumido como matriz de sentido, mostrando como funciona na prática a constituição da memória discursiva. A repetição histórica não está presente no discurso parafrásico da REBEA porque esta pressupõe um trabalho de interpretação e de tomada de posição, a partir da re-contextualização do conceito a partir de novas condições de produção que relacione história e política.

A elisão do político: o avesso da rede

Este fechamento dos sentidos adia a possibilidade de experiência, pois aparentemente estes sentidos são apenas “transportados” de um texto a outro, criando um efeito de estereotipia, enquanto do ponto de vista discursivo estes sentidos estão sendo (re)construídos o tempo todo, neste caso, em uma mesma direção. Orlandi ressalta que este movimento de fechamento dos sentidos não se faz aleatória nem “impensadamente”. É uma construção deliberada que, na nossa leitura, elide o político e submete o sentido ao controle de grupos ao impedir que um espaço de argumentação se instale. A elisão do político permite que o espaço de formulação produza no fio do mesmo discurso outro campo semântico onde convivem formulações que evidenciam outro sentido de rede – redes neoliberais - onde “o poder é concentrado em algumas conexões, tendo uma arquitetura vertical, piramidal” (MAKIUCHI, 2005) e é formado pelos itens lexicais gerência, lista restrita, lista aberta, lista fechada, instância gestora, secretaria executiva, coordenadores. Há um trabalho discursivo intenso visando re-significar ou significar também este sentido de rede, incorporando a dimensão de diferentes categorias e responsabilidades, concentrando o poder em grupos específicos:

EF - Sua gerência é realizada on-line, também por lista de discussão administrada e moderada pela secretaria executiva, restrita aos membros da Facilitação Nacional, sua instância gestora. (OLIVATO & AMARAL, 2004:2). 
EF - Considerando-se a abrangência nacional da rede e a composição da facilitação nacional, a gestão é compartilhada por meio de uma lista de discussão fechada da qual participam os coordenadores de cada rede que constitui a REBEA, pessoas facilitadoras e instituições que estão envolvidas diretamente na administração e sustentação da rede. A lista foi criada em junho de 2003 e é um espaço de deliberação, discussão, diálogo de questões relativas à gestão da Rede, sendo moderada e administrada pela secretaria executiva (OLIVATO & AMARAL, 2004:3).

P1 – REDES SOLIDÁRIAS
A REBEA se propõe a conectar redes de EA em âmbito nacional. 
A REBEA é uma rede de redes de EA. A REBEA é virtual.
A REBEA é caracterizada pela horizontalidade. 
A REBEA é caracterizada pela multi- referencialidade. 
A REBEA é caracterizada pela autonomia. 
A REBEA é caracterizada pela co- gestão. 
A REBEA é caracterizada pela participação. 
A REBEA é caracterizada pela organização e auto-organização. 
A REBEA é caracterizada pela colaboração. 
A REBEA é caracterizada pelo compartilhamento. 
A REBEA é caracterizada pelo respeito à diversidade. 
A REBEA é caracterizada pela insubordinação.

P2 – REDES NEOLIBERAIS
A REBEA é caracterizada por uma estrutura de gestão que compreende quatro categorias de participação. 
A REBEA é caracterizada por uma estrutura de gestão que compreende entidades gestoras, elos, facilitadores e membros.
A REBEA é caracterizada por uma gerência realizada on-line. 
A REBEA é caracterizada por duas listas de discussão: uma aberta aos membros e facilitadores e outra fechada, restrita aos facilitadores.
A REBEA é caracterizada por uma por lista de discussão administrada e moderada pela secretaria executiva, restrita aos membros da Facilitação Nacional.

Essa contradição se explicita se marcarmos as características da REBEA, a partir do espaço de formulação, em texto parafrásico (P1+P2) que reúne as informações sobre a concepção de rede:
Estes textos parafrásicos tornam claro que embora o discurso daREBEA seja afinado com a concepção de redes sociais solidárias, contra- hegemônicas, o discurso assume igualmente um processo de gestão característico das redes neoliberais onde as informações são dispersas em diferentes conexões, porém controladas e concentradas em grupos restritos e isso só é possível, repetimos, pela elisão do político.

É importante destacar que quando nos referimos à elisão do político referimos ao fato de que estes dois enunciados remetem a diferentes formações discursivas e co-existem sem problematização porque essa ausência de problematização é um efeito discursivo produzido pela ausência de reflexão política em torno dos sentidos que a REBEA produz e seus enredados reproduzem. O espaço de argumentação política na rede é negado. A não-politização da rede ocorre não por uma ausência de consciência política. Ao contrário essa consciência “transborda” e é pelo conhecimento dos efeitos que a inserção do político produz que ele é negado, este é um movimento deliberado para concentrar a direção dos sentidos – e portanto da rede – em determinados grupos que se perpetuam no poder. Ressaltamos aqui o fato de que não localizamos o poder na Secretaria Executiva, embora ela também seja um lugar de determinação de direção de sentidos. Mas a pesquisa sugere que o poder se concentre na Facilitação Nacional, porque ela é a origem da posição- sujeito dominante. Idealmente, o poder muda constantemente e não se concentra em um só lugar ou em determinado grupo. Quando isso não acontece, a rede simplesmente reproduz a estrutura piramidal com base estendida ao concentrar informações e tomadas de decisões no espaço restrito.

No discurso da REBEA o locutor aparentemente não toma posição por um dos enunciadores, orientando o discurso nessa direção, ao contrário, identifica-se e responsabiliza-se simultaneamente por E1 e E2 porque “o locutor trabalha discursivamente a textualização, produzindo um efeito de homogeneidade, naturalizando um dizer que não é absolutamente natural” (LABREA, 2000:16). A AD trabalha a polifonia nos termos de um enunciado dividido. Courtine (1982:254-62 apud INDURSKY, 1997:39) mostra que existe um “espaço de parafrasagem discursiva, no qual é possível que tanto valores semelhantes quanto valores antagônicos sejam associados ao mesmo enunciado discursivo”. O enunciado discursivo evidencia a contradição que é constitutiva e condição do dizer. P1 e P2 apontam sentidos antagônicos, característicos de FD inscritas em diferentes ideologias, cada uma responsabilizando-se por um dizer e uma direção de sentido – redes solidárias e redes neoliberais.

Nessa perspectiva, entendemos que não posicionar-se é uma estratégia discursiva para manter o controle dos sentidos. Todo sujeito é ideológico, todo sujeito tem, portanto, uma posição (e não outra). A enunciação se dá em um contexto de disputa pelos sentidos (e direção da rede) e é por isso que a EF naturaliza sentidos ideologicamente antagônicos. O espaço de formulação da REBEA organiza essas diferentes vozes para conduzi-las na direção que pretende e esta direção é onde os seus interesses e os interesses de seus aliados são preservados. Assim, o discurso da REBEA no EF não é um mero instrumento de informação ou de saber institucional e sim um importante construtor de memória que colabora na produção de uma determinada forma de pensar, perceber, sentir e agir no mundo.

A REBEA optou por “comunidades diferenciadas”, apagando e silenciando sobre as implicações político-ideológicas de tal opção, e a Facilitação Nacional é encarregada das demandas operacionais da rede, embora reconheça que este processo gera verticalização e exclusão nos processos decisórios. Há duas redes paralelas compondo a REBEA: a Facilitação Nacional e a lista aberta. A lista aberta compõe uma rede, em um sentido antropológico, rede de convivência ou de informação, onde sujeitos que buscam estreitar laços identitários se reúnem para troca de informação e debates. Este é caráter da lista aberta: uma lista de informação onde educadores ambientais de todo o país se encontram e onde ocorrem esporadicamente discussões onde são veiculados diferentes pontos de vista sobre algum tema ambiental. Um aspecto importante é que as discussões da lista aberta não afetam a lista restrita e não provocam mudanças na estrutura de gestão e nos processos decisórios. As duas redes que compõem a REBEA raramente dialogam, pois os membros da Facilitação Nacional não transitam na lista aberta e, mesmo quando estão inscritos, raramente se colocam discursivamente.

A questão que a REBEA, em sua posição-sujeito dominante, não responde é: como vivenciar experiências de autonomia, co- responsabilidade e produção coletiva se é vedada a todos os membros o acesso à instância deliberativa? Como criar vários focos de iniciativas e multilideranças se a rede acontece somente para a Facilitação Nacional e a lista aberta é mera lista de informação ou convivência? Como avançar e superar essa dicotomia entre lista aberta e lista fechada?

Até aqui, pode-se inferir uma noção de rede que engloba e naturaliza aspectos conflitantes que se originam em formações discursivas que se opõem e se excluem mutuamente. Voltemos à paráfrase (P1) que congrega os qualificadores da rede dispersos nos diferentes recortes discursivos:

P1 - A REBEA é uma rede de redes de EA, virtual, que se propõe a conectar redes de EA em âmbito nacional caracterizada pela horizontalidade, multi- referencialidade, autonomia, co-gestão, participação, organização e auto- organização, colaboração, compartilhamento, respeito à diversidade, insubordinação.

Este enunciado foi construído a partir das formulações que compreendem que as redes solidárias são uma resposta à globalização hegemônica e à sociedade em rede neoliberal. É possível localizar histórica e ideologicamente a rede a qual se refere P1: rede enquanto organizações descentralizadas que propõem alternância no poder e rompem com as relações piramidais tradicionais, características da sociedade de consumo. Estas redes têm comprometimento com segmentos sociais marginalizados, alternativos, que são ambiental, social, cultural e economicamente excluídos. Elas relacionam-se principalmente com os movimentos sociais que se organizam em torno de paradigmas emergentes caracterizados pela complexidade e o diálogo de saberes e entre diferentes segmentos que prezam suas identidades e singularidade e, portanto, precisam de um novo espaço de poder. Essa rede social nega o desejo de regulação - característica das redes neoliberais - que se traduz em regulamentos, burocracias, estratificação. Discursivamente a REBEA caracteriza a rede como uma estrutura onde circulam informações. Assim, seus “facilitadores” devem ser lideranças e ter como característica “estimular e manter a conectividade dos participantes e estimular uma cultura de compartilhamento de conhecimento, experiências, informação e ideais” (idem). Para tentar mapear confluências e alteridades entre este perfil desejado e o real da rede, traço o perfil dos facilitadores.

Esquematicamente, os dados apontam um perfil do enredado que participa da Facilitação Nacional:

Perfil da Facilitação Nacional 2003-2008
Entre os 118 facilitadores inscritos, 62 não participam da gestão.
Entre os 56 facilitadores ativos, 36 enredados enviam ou respondem entre 1 a 5 mensagens eletrônicas anualmente; 8 enredados enviam entre 6 e 10 e-mails anuais; 4 enredados enviam entre 11 a 15 e-mails anuais; 2 enredados enviam entre 16 e 20 e-mails anuais; os 6 restantes enviam mais que 20 e-mails anuais.
Entre os 56 facilitadores ativos, 13 enredados enviam ou respondem a mais de 10 e-mails anuais, destes 10 se mantém estáveis entre 2003-2008.
Os 56 facilitadores da REBEA em geral não se manifestam na lista aberta, exceção feita aos 5 facilitadores que mediam a lista aberta.

Ao longo de 2003-2008 o grupo se mantém homogêneo, havendo poucas mudanças de facilitadores não significativas, pois os novos enredados, em geral, limitam-se a uma participação mínima (um e-mail anual ou somente leitura), mantendo-se mais ou menos estável o grupo que iniciou seu trabalho em 2003 e que, em grande parte, se organizou a partir da Reunião da REBEA “Cultura de Redes” em 2000 no Rio de Janeiro.

A lista de gestão não sofre alterações significativas, não acompanha o crescimento do número de membros e muitos dos facilitadores sequer são membros ativos de redes locais ou estão inscritos na lista aberta da REBEA. A troca fica restrita aos facilitadores entre si.

A facilitação nacional acompanha a tendência verificada na lista aberta que é o silêncio e a não-participação.

O sentido de facilitador na Facilitação Nacional: diferença entre o dizer e o fazer

No discurso presente no espaço de formulação da REBEA, os facilitadores idealizados são caracterizados como
Pessoas e instituições que atuam na difusão da cultura de rede, apóiam e participam das atividades das redes. São re-editores que atualizam, no sentido de tornar presente, local, informações e iniciativas, adequando-as a realidade presencial. (REBEA:2003).

Já o perfil dos facilitadores da REBEA, descrito acima, afasta- se do ideal de uma rede contra-hegemônica e isso talvez possa ser compreendido se retornarmos ao modo como se deu a organização deste grupo: indicação das redes-elos ou enredados que originaram a REBEA. Os facilitadores que representam redes-elos são atuantes nas suas redes de origem, mas não na REBEA, e isto é um problema no sentido de que se eles são Facilitadores da REBEA, deviam atuar também na REBEA, na lista aberta, facilitando. Outra questão que surge em relação aos facilitadores diz respeito ao seu tempo de rede. Alguns estão na origem da rede e, mesmo não atuando, permanecem, sugerindo que a Facilitação Nacional é um lugar de prestígio e por isso seus membros se tornem reticentes à renovação e alternância de poder.

Alguns membros da Facilitação Nacional se posicionam e atualizam uma questão que regularmente retorna:

EI – O problema com a lista da facilitação da REBEA é que ela não é circunstancial. E acaba abrigando gente que esteve presente no dia-a-dia da REBEA, que foi atuante, mas que agora não é mais. E aí, fazer o quê? Limar estas pessoas? Não é assim tão simples...
EI - Além da questão da Facilitação “em si”, ainda temos que repensar esta lista: temos pessoas aqui efetivamente “facilitadoras” de redes, da REBEA, mas temos também, e não sei em que momento isto aconteceu, até estagiários de ONG... em algum momento temos que voltar a discutir isto... o que é mesmo ser facilitador da REBEA? O que é mesmo estar aqui neste espaço?

A lista de Facilitação Nacional acaba por não praticar a alternância no poder e na gestão, apenas agrega novos atores. O sentido de facilitador da REBEA torna possível e naturaliza na posição de facilitador, enredados que não facilitam, não compartilham informações na lista aberta epermite a manutenção de estruturas de poder centralizadoras em uma rede solidária. Este movimento é possível porque a noção de rede da REBEA é idealizada e despolitizada e não representa o real de uma rede social solidária. Ela se mantém artificialmente, através do discurso naturalizado – memória discursiva - e encobre relações e organização hierarquizadas e centralizadas, em função do poder não ser distribuído entre os enredados, mas se manter estabilizado porque se concentra em um grupo pequeno, cujos membros são estáveis, pelo menos ao longo do tempo analisado (junho/2003-junho/2008).

Estas relações são constituídas discursivamente. Para Foucault (1969:74), o discurso, é um espaço em que saber e poder se articulam, pois quem fala, fala de um lugar, a partir de um direito reconhecido institucionalmente. Este discurso, que passa por verdadeiro, que veicula saber – o saber institucional – é gerador de poder. A produção deste discurso gerador de poder é controlada, selecionada, organizada e redistribuída por certos procedimentos que têm por função eliminar toda e qualquer ameaça à permanência deste poder. Nessa reflexão, é possível pensarmos como se dá este jogo de poder. O enredado é assujeitado, e ele próprio – a partir do seu silêncio e da sua opção pela não-participação - legitima o controle dos sentidos que o espaço de formulação exerce.

Da REBEA para o Estado, o Estado na REBEA

Uma nova variável, explicitada em vários recortes discursivos ao longo do período estudado: a origem dos membros da Facilitação Nacional da REBEA e as alianças que promovem determinam também os sentidos que a rede assume. A REBEA é composta por sujeitos oriundos de diferentes lugares sociais. Os dados da pesquisa sugerem que, entre estes lugares, o mais problematizado é a vinculação de alguns enredados com o Estado. Ajuda entender esta diversidade se acompanharmos a história dos enredados. A origem da REBEA se dá no contexto universitário e da militância ambiental na década de 90. Sanchez (2008) observa que
Os indivíduos que hoje se encontram no governo federal ocupando cargos de liderança têm suas trajetórias no campo da EA atravessada pela criação da REBEA. Todos participaram da criação da REBEA e estiveram presentes e atuantes na rede em seu início, principalmente, afastando-se ao irem para o MMA e MEC (p.136).

A origem classe média universitária da REBEA é explicitada nos recortes discursivos abaixo e ela determina muitas opções políticas da rede, pois os indivíduos que hoje ocupam cargos governamentais são oriundos do movimento ambiental e da academia e na rede atuam muitas vezes como mediadores entre governo e sociedade.

EI - A REBEA é formada por educadores oriundos da classe média - a rede é virtual, as pessoas precisam de um PC para se conectar. A rede é composta por professores de escolas e universidade, alunos de pós-graduação, ONGs ambientais e funcionários públicos. Essa formação talvez determine o tipo de relação que a REBEA mantém com o Estado.
EF - Visto o percentual de participantes da REBEA no período 2002-2004, verifica-se que a afirmação de que a REBEA abarca o universo dos atores sociais – educadores ambientais é falsa. 67% dos integrantes da REBEA no período 2002-2004 é de pós- graduados, o que evidencia a REBEA como espaço elitizado, assim como a fala da REBEA é a fala de atores sociais definidos (REBEA, 2008:87, grifo meu).

Marques (2000) ao discutir a relação entre o público e o privado nas redes sociais cria o termo “permeabilidade” para descrever a relação de proximidade entre membros do Estado e dos diferentes segmentos que compõem a rede. Em seu estudo afirma que são as relações pessoais e a estruturação de vínculos entre indivíduos, grupos e entidades que traçam os limites e as interpenetrações entre o público e o privado. Embora em outro contexto e dadas as devidas proporções, pode-se entender que a relação entre o Estado e a REBEA seja “permeável” e que a relação interpessoal entre os membros de um e outro determinem também a qualidade da interlocução. Isso limita, evidentemente, a atuação política da rede.

Sanchez explica que o movimento ambiental até o final da década de 80 tinha uma função mais política, era um espaço de militância e que a partir da década de 90 o ambientalismo profissionalizou-se e no séc. XXI, o movimento ambientalista encontra sua pauta e a sua agenda de ações e reivindicações alinhados com uma perspectiva política que chega ao poder. Portanto, compreende-se a migração de antigos integrantes destes movimentos sociais fundantes, inclusive da REBEA, para as estruturas de governo. O itinerário de vida, de trajetória, se confundem com o próprio projeto de institucionalização da EA brasileira (p.143).

A incorporação de membros dos movimentos sociais em seus quadros pelo Estado, vinculam os movimentos sociais ao Estado, ao mesmo tempo em que “os esvaziam pela migração das lideranças para o setor governamental, tornando-os subordinados e sem autonomia” (idem).
Essa relação onde as fronteiras entre o Estado e a sociedade são tênues e muitas vezes se perpassam, torna a REBEA uma rede híbrida e esta característica, retomando a teoria dos movimentos sociais, a distancia dos mesmos porque ao acolher sujeitos oriundos da sociedade, do Estado e do mercado cria vínculos que, se produzem ações de cunho emancipatório, também produzem regulação e hegemonia. Santos (2001) ao discorrer sobre o encontro entre sociedade civil e Estado aponta a existência de relações onde “já não sabemos onde está o Estado e onde está a sociedade. Porque neste caso existe o que chamamos de híbrido. É uma forma de dominação híbrida, na qual está o Estado e também a sociedade.” Na minha leitura, considero que a relação da REBEA/Estado caracteriza uma rede híbrida que sofre influências e influencia em certa medida o Estado. Mas o Estado não se transforma em um híbrido nessa relação porque o poder de interferência da REBEA no Estado não é significativo.

Novos Movimentos Sociais e o Estado: um exercício de tradução

A REBEA se constrói a partir da articulação de diferentes segmentos sociais (movimento social, sociedade civil, Estado e mercado), e a partir da posição-sujeito dominante mantém uma relação próxima do Estado. Esta caracterização a afasta do movimento social e a aproxima do hibridismo. Sanchez tem outra leitura e compreende que a articulação REBEA/Estado é característica dos novos movimentos sociais (NMS). Segundo ele:
Há uma nova postura do movimento social parceiro do Estado. Estaríamos observando uma nova configuração política? A indagação faz sentido se observarmos que governo e REBEA formam um único tecido, na perspectiva dos novos movimentos sociais. (...) Podemos indagar então: a rede da rede seria um novo modus operandi político que teria no cenário, no espaço discursivo da EA, encontrado solo fértil para se manifestar? (SANCHEZ, 2008:148)

Ele parte do pressuposto “de que o pensamento político hegemônico (de esquerda, do governo Lula) estaria alinhado e seria coerente com o que preconiza a EA crítica” (SANCHEZ, 2008: 147) e que “a tendência do Estado contemporâneo é assumir o papel de mediador, onde ele divide com a sociedade o poder de legitimar ações sociais” (idem: p.137) e nessa configuração a REBEA seria precursora de uma nova relação Estado/ sociedade. Essa interpretação pode ser problematizada, pois parte de três princípios não se sustentam se submetidos a uma análise:
1.a REBEA está inserida no paradigma dos novos movimentos sociais (NMS);
2.a REBEA – e todos seus educadores ambientais vinculados - assume a EA crítica como matriz/referência epistemológica e
3.o Governo Lula concretiza um pensamento político de esquerda.

No caso brasileiro, é necessário um trabalho de tradução, nos termos de Santos (2007), porque a simples transposição das características do NMS não dá conta da complexidade dos movimentos sociais contemporâneos do Brasil. Entendemos que a organização da REBEA em uma rede aponte uma característica comum com os NMS, mas é necessário destacar que a análise demonstra que este espaço é um híbrido, tensionado entre duas concepções distintas de gestão, justamente porque hesita em abrir mão do poder e de hierarquias, para isso elidindo o político que é tão caro ao NMS. Nesse sentido, a posição-sujeito dominante da REBEA distingue- se inclusive da comunidade ambiental brasileira, pois essa trabalha e adensa a discussão política, vinculando justiça ambiental à democracia e demonstra que a identidade coletiva da REBEA se distingue da identidade constituinte de cada membro. Retomando o que já foi dito anteriormente, na REBEA, a exemplo do que ocorre no movimento ambiental brasileiro, o político abunda e é uma estratégia política sua elisão na rede. Cria- se uma situação paradoxal: os educadores ambientais ganham poder político para enfrentamentos na sociedade ao se organizar em rede, mas não tem poder político dentro da rede porque o poder se concentra em determinados grupos e este não flui.

O estudo da história dos movimentos sociais no Brasil sugere que a REBEA não se insere no paradigma dos novos movimentos sociais, embora tenha alguns pontos convergentes com os mesmos. Os NMS são criados em contexto europeu, propondo um novo modelo teórico baseado na cultura (GOHN, 1997:121) com a política tendo centralidade na análise e sendo totalmente redefinida, constituindo uma dimensão da vida social, abarcando todas as práticas sociais (idem: p. 123) e ele está vinculado à classe média européia e “suas manifestações coletivas contemporâneas que geraram demarcação de suas diferenças em relação ao passado” (op. cit: p. 129). Gohn entende que o nosso contexto diferencia-se do europeu e propõe uma teoria sobre os movimentos latino-americanos que considere as particularidades históricas, econômicas, político-sociais da sociedade. Essa contextualização cria categorias analíticas mais plausíveis do que a mera transposição.

Uma questão importante é distinguir o contexto europeu do brasileiro no caso do movimento ambiental. Na Europa, a luta ambiental se insere no paradigma dos NMS e é incorporada às necessidades culturais da classe média européia. No caso brasileiro, a dimensão ambiental também é incorporada aos dilemas da classe média, mas não se limita a ela. Lá a abordagem é predominantemente naturalista, focada em campanhas de preservação e aqui embora também exista um segmento mais preservacionista, o foco é integrar aspectos ambientais aos econômicos, sociais e culturais (cf. LAYARGUES, 2006a). 

No Brasil, a insustentabilidade ambiental é mais uma dimensão das desigualdades sociais, e os grupos socialmente excluídos são os mais atingidos pela devastação ambiental. Não por acaso Boff (2004) vincula o grito da Terra ao grito dos pobres, entendendo-o como duas dimensões de uma mesma problemática. Embora sejam os intelectuais, como é o caso da REBEA, os responsáveis por também fazer chegar as demandas ambientais às esferas de governo e à mídia, a questão ambiental faz parte da agenda dos movimentos populares que lutam por terra, casa, comida, equipamentos coletivos básicos.
Ou seja, necessidades sociais materiais básicas elementares à sobrevivência, direitos sociais básicos elementares. Não há nada de modernidade nessas lutas. Elas são seculares dos excluídos (GOHN, 1997:228).

Sobre a hipótese de Sanchez de que Estado e sociedade formam um único tecido social é importante entender e distinguir o Estado enquanto uma estrutura das ações que ele promove. Tamaio (2008) caracteriza os sujeitos que compõem a DEA/MMA como gestores/educadores e em seu estudo privilegia a “relação e materialização da subjetividade trazida das aspirações dos movimentos ambientalistas para a esfera do Estado” (p.18). Os gestores/educadores procuram estabelecer um programa de políticas públicas comprometidas com a transformação emancipatória, com características contra-hegemônicas (idem, p.160). Pode-se entender que o DEA/MMA – na gestão do período estudado - esteve comprometido com processos emancipatórios. Mas não se pode inferir que essa é a perspectiva de Estado, nem mesmo a de governo. “A política de meio ambiente está muito a reboque da visão predominante do governo, que adotou políticas referenciadas pelo pensamento hegemônico neoliberal” (TAMAIO, 2008: 161).

Assim, se reconhece dois fatos:
1.a política de governo é afinada com o pensamento hegemônico neoliberal e nesse sentido perpetua uma política de Estado neoliberal, e
2.existem segmentos que estão no governo que tentam, através de políticas públicas, produzir ações contra-hegemônicas e organizam um espaço onde a sociedade tem uma escuta.

Essa “parceria”, no entanto, não modifica a estrutura do Estado, transformando-o por sua vez em um híbrido. Além disso, o fato do Estado responder a uma demanda social não faz dele um “parceiro”. Responder politicamente à sociedade é a função do Estado. O sentido de “parceiro” Estado/sociedade em Santos (2006a) é na direção de co-gestão e partilhamento de poder e essa experiência não se concretiza em nenhum governo no Brasil seja no nível local ou nacional. O Estado no Brasil adota o sistema capitalista neoliberal e procura, através do atual governo, compor o grupo hegemônico de poder (político e econômico) mundial, estabelecendo uma política de alianças.

A capacidade de auto-reflexão característica da modernidade (GIDDENS, 1991; SANTOS, 2005) é necessária, pois os gestores/ educadores precisam se perceber protagonistas de processos emancipatórios que estão sendo realizados dentro de um marco regulatório que é o Estado, estando suas ações sujeita à ecologia dos atos (MORIN, 2002) cujos resultados são por vezes contraditórios e vão em direção oposta ao objetivo original.

Santos argumenta que a sociedade civil pode manter diferentes relações com o Estado, dependendo da qualidade e intensidade na execução de políticas públicas:o terceiro setor como instrumento do Estado; o terceiro setor enquanto amplificador de programas estatais; o terceiro setor enquanto parceiro nas estruturas de poder e coordenação (SANTOS, 2006a:362-3, grifo meu). O discurso produzido em posição- sujeito dissidente entende que a relação REBEA/Estado situa-se na primeira categoria: a rede como instrumento do Estado, estando a rede “subordinada e sem autonomia, tornando-se uma agência de projetos governamentais(SANCHEZ, 2008:147) e sendo utilizada “como instrumentos de implementação de políticas públicas” (REBEA, 2008:82) mas que não encontra espaço para pensar junto com o OG a construção dessas políticas. Esta compreensão está expressa em várias mensagens que circulam na lista aberta:

A não-problematização sobre a participação e influência do Estado na rede e a conseqüente naturalização dessas presenças, tornando indistintos atores que têm funções sociais diferentes e, muitas vezes, contrárias ao interesse dos movimentos sociais indica que a rede encontra-se na categoria que Santos (2001) denomina hiper-incluídos com seus direitos, informação, deslocação e mobilidade assegurados. Os hiper-incluídos atuam junto ao Estado, são colados a ele, reproduzindo seus valores e sofrendo suas determinações e sendo muitas vezes incorporados aos seus quadros. Essa compreensão está presente no discurso que representa a posição-sujeito dissidente em diferentes matizes:
EI - A situação de alinhamento com a DEA/ MMA causou profunda erosão na autonomia e identidade da Rede. A falta de clareza política dos que não souberam separar o papel do Estado do papel da Sociedade civil, a instrumentação persistente de todos os processo como tática da DEA, e a conivência por amizade ou interesse pessoais com o que estava acontecendo criaram uma tal situação (...) que os GTs criados, com alguma exceção, não conseguiram cumprir minimamente suas tarefas, o que mostra como a insistência em preservar estruturas e espaços de poder apenas mantém o impasse.
EI – Na administração Lula a REBEA sofreu um processo de instrumentalização pela DEA e atualmente não parece ter vitalidade para influir (na formulação e implementação de políticas públicas).
EI - Existe um “silêncio” em torno da relação entre REBEA e OG, talvez pela relação de dependência de recursos. Por essa mesma razão a REBEA não ocupa uma posição crítica e de criação de demandas que lhe caberia.
EI – As pessoas que hoje estão à frente da EA nestes órgãos felizmente são educadores. Entendo que esta relação é construída principalmente com base no respeito mútuo e na crença de que é preciso haver espaços de participação para que se faça uma EA verdadeira.
EI - A REBEA com certeza fortalece a voz dos Educadores e das Educadoras ambientais brasileiras, pois seguidas vezes percebe-se um certo desagrado ou desconforto quando não são consultados em algumas decisões que foram tomadas e anunciadas pelo OG, e articulam-se para tomarem providências, cobram estas atitudes e são “ouvidos”.
EF - Não consigo ver a REBEA separada entre sociedade civil e governo... Deu a sensação de que o Órgão Gestor não faz parte da REBEA, quando na realidade, muitos foram os fundadores dela na Eco92.


Para Sanchez (op.cit) os enunciados discursivos acima estão associados ao grupo que formava a antiga secretaria executiva, caracterizado por uma “postura mais crítica e antagônica” (p.146). Sanchez percebe que na Facilitação Nacional existem dois grupos que se distinguem justamente na compreensão sobre a relação Estado/REBEA. Nesta pesquisa não priorizamos a descrição de grupos, mas de posições-sujeito e entendemos que uma mesma posição-sujeito pode ser ocupada indiferentemente por sujeitos que estão distribuídos entre grupos distintos, a partir de alianças e entendimentos específicos ou temporários. De forma geral, vinculamos todos os membros atuantes da FN à posição-sujeito dominante, no que diz respeito à noção de rede. Reconhecemos que em relação ao Estado co-existam diferentes posições-sujeito na FN.

Segundo Sanchez, a secretaria executiva atual (2004/08) é afinada com o DEA/MMA e desenvolveu uma relação descrita como “positiva, salutar, amigável, de parceria e continuísta” (op.cit.:p.145). Esta visão relacionamos à posição-sujeito dominante que vê a participação de gestores do Estado na rede como algo intrinsecamente positivo e sem contradições.

Nessa posição a relação entre a REBEA e Estado é descrita como uma “parceria” onde as ações conjuntas são quase uma continuidade entre governo e sociedade civil. Os projetos são gestados e criados de forma coletiva a partir de diretrizes selecionadas pelo governo (SANCHEZ, 2008:139). Destacamos que a parceria é entendida não como co-gestão e compartilhamento de poder e que as diretrizes são determinadas pelo governo e não conjuntamente. Nos termos de Santos essa relação funciona com a rede ampliando os programas estatais (SANTOS, 2006a).



COMO SE FOSSE A CONCLUSÃO

Retomando os argumentos que surgiram na análise, destacamos: a REBEA é uma rede híbrida porque transita no espaço público e no estatal igualmente e não diferencia deliberadamente funções sociais de atores distintos. O hibridismo diz respeito a “rede de redes” ter em sua composição, além de redes, outras instituições (sistema S, Estado, etc.) e educadores ambientais desvinculados de redes locais. A rede é híbrida também porque sobrepõem uma rede ideal (P1) a uma rede de fato (P2) e produz um novo deslocamento. O hibridismo não descreve uma rede inteiramente nova, mas reconhece uma nova dinâmica que reconfigura o sentido e as práticas dessa rede social. Existe uma subversão do sentido de rede social e uma apropriação dos fluxos de informação que passam a ser regulados por um núcleo decisório que impede uma possível e necessária transformação nas relações e na distribuição de poder.

A posição-sujeito dominante da REBEA construiu uma noção de rede que está no entremeio, entre duas redes de formulação distintas (P1 e P2), nem neoliberal nem solidária, transita entre a regulação e a emancipação, sem optar por nenhuma, é uma rede social híbrida onde ainda estão em disputa as suas características, prevalecendo discursivamente uma visão idealizada do potencial da rede. No entremeio significa que a posição- sujeito dominante construiu um sentido particular de rede social, a partir do trabalho com a memória. Essa visão híbrida de rede atenta para as identidades e territórios históricos e enraizados que a rede acolhe e para as relações fluidas da rede, inscritas numa materialidade discursiva virtual que se organiza a partir da elisão do político e de alianças que visam deliberadamente concentrar o poder em um grupo restrito. A rede social híbrida possui características que apontam que existe uma resistência do sujeito a mudanças estruturais e à circulação ou diluição do poder. Ela demonstra de modo inequívoco que há uma enorme dificuldade no descolamento dos enredados das estruturas de poder. A REBEA, nessa concepção, está no limite, desejando a emancipação e (re) produzindo regulação.

Essa dubiedade a torna uma rede social híbrida: uma rede que transita entre a rede ideal – solidária - e a rede vivida – neoliberal -, que acolhe igualmente princípios da regulação e da emancipação, que prega a horizontalidade, mas vive a verticalidade, que não diferencia sujeitos sociais a partir da elisão do político e da naturalização da diferença tornada igual.

Santos vincula o hibridismo à falta de elucidação das relações de poder “que presidem à produção tanto de homogeneização (ou paráfrases) quanto de diferenciação (ou polissemia)”. Sem tal elucidação não se diferenciam vinculações e hierarquias entre eles (SANTOS,2005b:46). 

No caso da REBEA, quem “obriga o poder a tomar forma”, retomando Melucci (2001), é a posição-sujeito dissidente, ao denunciar as arbitrariedades e contradições que constituem a rede.

Outra dimensão do hibridismo (cf. SANTOS, 2007) diz respeito à rede estar colada ao Estado, reproduzindo seus valores e abrindo mão do seu papel de controle social. Nesse sentido a REBEA é um recorte da sociedade onde está o movimento social, mas está igualmente o Estado e o mercado, todos tensionando para que seus interesses prevaleçam. As formas híbridas assim o são porque muitas vezes identificam-se com elementos de desigualdade e exclusão e demonstram as dificuldades em produzir contra-hegemonia a partir da ressignificação de instrumentos hegemônicos.

A formação híbrida da REBEA favorece a aproximação entre o Estado e segmentos que historicamente têm dificuldade em acessá-lo. É o caso, por exemplo, das ONGs e outras instituições do terceiro setor e do movimento social que compõem a REBEA. Este segmento está comprometido em “combater o isolamento do individuo face ao Estado e à organização capitalista de produção e sociedade” (SANTOS, 2006a: 350). Para isso a “idéia de autonomia associativa é matricial neste movimento” (idem). Ou seja, aproximar-se do Estado é absolutamente necessário para se criar uma interlocução qualificada, mas colar-se a ele, reproduzindo apenas a visão hegemônica que ele determina é absolutamente nocivo às iniciativas contra-hegemônicas.

Nesse sentido, Santos argumenta que o terceiro setor e os movimentos sociais são hoje um sinal de que o princípio da comunidade, entendido como um pilar de regulação social, disputa a hegemonia representada pelo Estado e pelo mercado, mas existe também a possibilidade desses grupos tornarem poderosos e privilegiados “capazes de distorcer a vontade geral em favor dos seus interesses particulares” (SANTOS, 2006a:352). Para evitar que os interesses particulares se sobreponham ele sugere que os grupos sejam pequenos, em grande número, que se evite a desigualdade de poder entre seus membros (idem) e que estejam ancoradas em locais concretos e em lutas locais concretas para criarem, em si mesmos, as condições de sua sustentabilidade (SANTOS, 2005b:74).

Pensando a REBEA enquanto uma “rede de redes”, desvinculada do local e não possuindo uma agenda ou pauta política elaborada no coletivo pode-se inferir que para ela torna-se mais difícil e problemático situar- se ao lado de práticas contra-hegemônicas porque o seu formato não favorece a redistribuição de poder e governança compartilhada. Santos (2005b:72) argumenta que a resistência mais eficaz contra a globalização neoliberal consiste justamente em promover o local e a comunidade – em pequena escala, diversificada e auto-sustentáveis, ligadas às formas exteriores, mas não dependentes delas. Ou seja, uma das respostas possíveis à globalização neoliberal são as redes sociais locais. Ele propõe a “localização” - entendida como o “conjunto de iniciativas que visam criar ou manter espaços de sociabilidade de pequena escala, comunitários, assentes em relação face-a-face, orientadas para a auto-sustentabilidade e regida por lógicas cooperativas e participativas” (idem:p.72), como um paradigma coerente para a promoção das sociabilidades locais – organizadas em redes, em abertura e comunicação com outras redes – associada à resistências globais ou translocais.

No campo das práticas sociais e culturais a transformação contra- hegemônica consiste na
Construção do multiculturalismo emancipatório, ou seja, na construção democrática das regras de reconhecimento recíproco, entre identidades e entre culturas distintas. Este reconhecimento pode resultar em múltiplas formas de partilha – tais como, identidades duais, identidades híbridas, interidentidade e transidentidade – mas todas elas devem orientar-se pela seguinte pauta transidentitária e transcultural: temos o direito de ser iguais quando a diferença nos inferioriza e a ser diferentes quando a igualdade nos descaracteriza (SANTOS, 2005b:75, 2006a:313, grifo meu).

A rede de redes não pode ser confundida com o movimento social por seu hibridismo em relação ao Estado e ao mercado, mas pode ser entendida como um movimento institucional; parece estar na transição da emancipação para a regulação - a interceptação da emancipação pela regulação. Pode ser entendida também como uma comunidade fictícia que visa proteger um núcleo identitário mínimo estabelecido em bases não dialógicas (MAKIUCHI, 2005:70) e que se mantém artificialmente no silenciamento da alteridade e da disparidade dos interesses que nela se confrontam.

A rede assim organizada adia a possibilidade da experiência, desperdiçando-a, pois concentra os esforços para manter artificialmente sua estabilidade, submetendo o sentido ao controle a partir da posição- sujeito dominante, negando o espaço de argumentação. Esta tentativa de controle dos sentidos defino como a elisão do político, negando-o pelo conhecimento dos efeitos e transformações que sua inserção produz. Isto é possível a partir de uma política do silêncio.
Estudos sobre as redes de EA indicam que muitos dos pressupostos e princípios na prática não se realizam e são questionáveis e sujeito à problematização por isso essa forma de organização pode ser vista como uma utopia (LIMA, 2006:11). Essa utopia, entendida como um desejo de vir-a-ser, dissimula, na prática, as mesmas relações que questiona e critica no modelo hegemônico ao qual se opõe, onde os sujeitos estão dentro da rede de uma maneira subordinada e se permitem serem colonizados.

É importante também desmistificar a beleza do modelo, para minimizar as surpresas e frustrações que a realidade da prática da articulação em rede possa revelar, pois as pessoas continuam influenciadas pelas velhas estruturas hierárquicas de organização do poder e certamente as tentarão reproduzir, mesmo em uma rede (LIMA, 2006:18).

A dimensão utópica da REBEA urge ser retomada – não apenas como um desejo de vir-a-ser, mas como a realidade do já-estar-sendo - porque esta é a condição para articular as utopias individuais que surgem como contraponto à insatisfação com o modelo social, econômico e político vigente na contemporaneidade, representado pelo capitalismo, pela sociedade individualizada e pela política voltada aos interesses privados (MAKIUCHI, 2005:131).

Entendo que o pessoal é político, é o poder realizando-se nas relações cotidianas. Negar a dimensão política é tirar da rede sua potência, sua capacidade de complementaridade a partir da alteridade. Reforçar o ideal de uma identidade homogênea impede o inicio da reconstrução necessária de processos plurais para o desenvolvimento das capacidades necessárias ao enfrentamento dos determinismos econômicos e sócio- culturais que caracterizam o capitalismo. “A negação da diversidade é inerente ao colonialismo” (SANTOS, 2005:26). Viver em rede é paradoxal, assim como é paradoxal a sociedade contemporânea. Assim os “sintomas” descritos nesse trabalho são conhecidos na medida em que constituem as contradições da nossa sociedade e somos nós quem a reproduzimos em nossas rotinas e hábitos, mesmo quando estamos buscando novas referências.

Santos (2007:55) diz que é cada vez mais necessária uma utopia crítica, que reinvente as possibilidades emancipatórias e avance entre o silêncio e a diferença. Superar o contato colonizador, reaprender a dizer, fazer o silêncio falar para produzir autonomia e não a reprodução do silenciamento, só é possível por meio da democratização de todos os espaços, ao “substituir relações de poder por relações de autoridade compartilhada” e da “relação entre o respeito da igualdade e o principio do reconhecimento da diferença” (p.62). O lado político dessa utopia é a incompletude de propostas políticas e a necessidade de uni-las sem uma teoria geral, a partir do procedimento de uma tradução para criar inteligibilidade a partir da argumentação (op.cit, p.99-100). Nesse espírito, não há fórmulas ou regras que determinem o correto da rede social, mas historicidade. Um já-vivido e um por-viver que trazem a memória de um percurso já percorrido e alimentam uma visão de futuro. A utopia crítica realiza-se nas contradições ou não será realizada. A utopia é uma busca cotidiana, que se constrói e reconstrói diariamente e tornam sempre atual Eduardo Galeano, com quem finalizo esta reflexão:
A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.

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