Carta da Terra no Brasil

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sábado, 26 de março de 2011

Interpretação feminista do relato da criação


V
Leonardo Boff
Filósofo/Teólogo
                                           

As teólogas feministas nos despertaram para traços anti-feministas no atual relato da criação de Eva (Gn 1,18-25) e da queda original (Gn 3,1-19), o que veio reforçar na cultura o preconceito  contra as mulheres. Consoante este relato, a mulher é formada da costela de Adão que, ao vê-la, exclama: "eis os ossos de meus ossos, a carne de minha carne; charmar-se-á varoa (hebraico:ishá) porque foi tirada do varão (ish); por isso o varão deixará pai e mãe para se unir a sua varoa: e os dois serão uma só carne"(2,23-25).

O sentido originário visava mostrar a unidade homem/mulher. Mas a anterioridade de Adão e a formação a partir de sua costela foi, porém, interpretada como superioridade masculina. O relato da queda soa também antifeminista:"Viu, pois, a mulher que o fruto daquela árvore era bom para comer..tomou do  fruto e o comeu; deu-o também a seu marido e comeu; imediatamente se lhes abriram os olhos e se deram conta de que estavam nus"(Gn 3,6-7).

Interpreta-se a mulher como sexo fraco, pois foi ela que caiu na tentação e, a partir daí,  seduziu o homem. Eis a razão de seu submetimento histórico, agora ideologicamente justificado: "estarás sob o poder de teu marido e ele te dominará"(Gn 3,16).
Há  uma leitura mais radical, apresentada por duas teólogas feministas, entre outras: Riane Eisler (Sacred Pleasure, Sex Myth and  the Politics of the Body,1995) e Françoise Gange (Les  dieux menteurs 1997) que aquí resumo. Estas autoras partem do dado histórico de que houve uma era matriarcal anterior à patriarcal. Segundo elas, o relato  do pecado original seria introduzido no interesse do patriarcado como uma peça de culpabilização das mulheres para arrebatar-lhes o poder e consolidar o domínio do homem. Os ritos e os símbolos sagrados do matriarcado teriam sido diabolizados e retroprojetados às origens na forma de um relato primordial, com a intenção de apagar totalmente os traços do relato feminino anterior. O atual relato do pecado original coloca em xeque os quatro símbolos fundamentais do matriarcado.

O primeiro símbolo atacado é a mulher em si que na cultura matriarcal representava o sexo sagrado, gerador de vida. Como tal ela simbolizava a Grande-Mãe. Agora é feita a grande sedutora.

No segundo, desconstrói-se o símbolo da serpente que representava a sabedoria divina que se renovava sempre como se renova a pele da serpente.

No terceiro, desfigura-se a árvore da vida, tida como um dos símbolos principais da vida, gestada pelas mulheres, agora colocada sob o interdito:"não comais nem toqueis de seu fruto"(3,3).

No quarto, se distorce o caráter simbólico da sexualidade, tida como sagrada, pois permitia o acesso ao êxtase e ao conhecimento místico, representada pela relação homem-mulher.

Ora, o que faz o atual relato do pecado original? Inverte totalmente o sentido profundo e verdadeiro desses símbolos. Desacraliza-os, diaboliza-os e  transforma o que era bênção em maldição.

A mulher é eternamente maldita, feita um ser inferior. sedutora do homem que "a dominará"(Gen 3,16). O poder de dar a vida será realizado entre dores (Gn 3,16).
 
A serpente será maldita, feita inimigo fidagal da mulher que lhe ferirá a cabeça mas que será  mordida no calcanhar (Gn 3,15).
A árvore da vida e da sabedoria cái sob o signo do interdito. Antes, na cultura matriarcal, comer da árvore da vida era se imbuir de sabedoria. Agora comer dela significa perigo letal (Gn 3,3).

O laço sagrado entre o homem e a mulher é substituido pelo laço matrimonial, ocupando o homem o lugar de chefe e a mulher de dominada (Gn 3,16).

Aqui se operou uma desconstrução profunda do relato anterior, feminino e sacral. Hoje todos somos, bem ou mal, reféns do relato adâmico, antifeminista e culpabilizador como está no Gênesis.

Por que escrever sobre isso? É para reforçar o trabalho das téologas feministas que nos apontam quão profundas  são as raízes da dominação das mulheres. Ao resgatarem o relato mais arcaico, feminista, elas visam propor uma alternativa mais originária e positiva na qual apareça uma relação nova com a vida, com os gêneros, com o poder, com o sagrado e com a sexualidade.

Leonardo Boff escreveu com Rose Marie Muraro o livro "Feminino&Masculino", Record 2010.


segunda-feira, 21 de março de 2011

Com-paixão: a mais humana das virtudes



Leonardo Boff
Teólogo
                                                

Três cenas aterradoras: o terremoto no Japão, seguido de um devastador tsunami, o vazamento deletério de gases radioativos de usinas nucleares afetadas e os deslizamentos destruidores, ocorridos nas cidades serranas do Rio de Janeiro, provocaram em nós, com certeza, duas atitudes: compaixão e solidariedade.

Primeiro, irrompe a com-paixão. A compaixão talvez seja, entre as virtudes humanas, a mais humana de todas, porque não só nos abre ao outro, como expressão de amor dolorido,  mas ao outro  mais vitimado e mortificado. Pouco importam a ideologia, a religião, o status social e cultural das pessoa. A compaixão anula estas diferenças e faz estender as mãos às vitimas. Ficarmos cinicamente indiferentes, mostra suprema desumanidade que nos  transforma em  inimigos de nossa própria humanidade. Diante da desgraça do outro não há como não sermos os samaritanos compassivos da parábola bíblica.

A com-paixão implica assumir a paixão do outro. É transladar-se ao lugar do outro para estar junto dele,  para sofrer com ele, para chorar com ele, para sentir com ele o coração despedaçado. Talvez não tenhamos nada a lhe dar e até as palavras nos morram na garganta. Mas o importante é estar aí junto dele e jamais permitir que sofra sozinho. Mesmo que estejamos a milhares de quilômetros de distancia de nossos irmãos e irmãs japoneses ou perto de nossos vizinhos das cidades serranas cariocas, o padecimento deles é o nosso padecimento, o seu desespero é o nosso desespero, os gritos lancinantes que lançam ao céu, perguntando, "por que, meu Deus, por que?" são nossos gritos lancinantes. E partilhamos da mesma dor de não recebermos nenhuma explicação razoável. E mesmo que existisse, ela não desfaria a devastação, não reergueria as casas destruídas nem ressuscitaria os entes queridos mortos, especialmente as crianças inocentes.

A compaixão tem algo de singular: ela não exige nenhuma reflexão prévia, nem argumento que a fundamente. Ela simplesmente se nos impõe porque somos essencialmente seres com-passivos. A compaixão refuta por si mesma noção do biólogo Richard Dawkins do "gene egoísta". Ou o pressuposto de Charles Darwin de que a competição e o triunfo do mais forte regeriam a dinâmica da evolução. Ao contrário, não existem genes solitários, mas todos são inter-retro-conectados e nós humanos somos enredados em teias incontáveis de relações que nos fazem seres de cooperação e de solidariedade.

Mais e mais cientistas vindos da mecânica quântica, da astrofísica e da bioantropologia sustentam a tese de que a lei suprema do processo cosmogênico é o entrelaçamento de todos com todos e não a competição que exclui. O sutil equilíbrio da Terra, tido como um superorganismo que se autoregula, requer  a cooperação de um sem número de fatores que interagem entre si, com as energias do universo, com a atmosfera, com a  biosfera e com  próprio o sistema-Terra. Esta cooperação é responsável por seu equilíbrio, agora perturbado pela excessiva pressão que a nossa sociedade consumista e esbanjadora faz sobre todos os ecossistemas e que se manifesta pela crise ecológica generalizada.

Na compaixão se dá o encontro de todas as religiões, do Oriente e do Ocidente, de todas éticas, de todas as filosofias e de todas as culturas.  No centro está a dignidade e a autoridade dos que sofrem, provocando em nós a compaixão ativa.

A segunda atitude, afim à compaixão, é a solidariedade. Ela obedece à mesma lógica da compaixão. Vamos ao encontro do outro para salvar-lhe a vida, trazer-lhe água, alimentos, agasalho e especialmente o calor humano. Sabemos pela antropogênese que nos fizemos humanos quando superamos a fase da busca individual dos meios de subsistência e começamos a buscá-los coletivamente e a distribui-los cooperativamente entre todos. O que nos humanizou ontem, nos humanizará ainda hoje. Por isso é tão comovedor assistir como tantos e tantas se mobilizam, de todas as partes, para ajudar as vítimas e pela solidariedade dar-lhes o que precisam e sobretudo a esperança de que, apesar da desgraça, ainda vale a pena viver.

Leonardo Boff é autor do livro O princípio compaixão e cuidado, Vozes 2009.

quinta-feira, 17 de março de 2011

A Revolução pela Educação: algumas considerações




Valéria Viana Labrea[1]

Ao ler esse documento encaminhado ao Ministro da Educação, ficou claro alguns aspectos: é um documento político que propõe uma pauta que, em muitos aspectos, desconsidera ou minimiza o que já vem sendo feito ao longo dos anos. Os avanços e conquistas, seja em políticas públicas seja na formação do educador não estão sendo considerados. Mas o que mais me chama a atenção é que nesse documento não está presente a discussão que os educadores – em especial os educadores populares – realizam entre si e com a sociedade desde, no mínimo, a década de 60.

Me parece que para fazer valer um ponto de vista, é silenciada mais uma vez, as vozes dos educadores. Trabalho com educação popular há 10 anos e não me reconheço nas descrições, nossas lutas históricas servem de pano de fundo, mas não são debatidas com o aprofundamento que o tema merece.

De saída, na página 11 a proposta é apresentada como “as propostas necessárias para fazer uma revolução na educação brasileira”. A pergunta que me ficou é: a quem interessa uma revolução nesses termos? A quem interessa romper um muro de atraso em relação aos países desenvolvidos (p.12)? Por que não existe uma problematização sobre o modelo adotado pelos países desenvolvidos e apenas aderência ao que já está posto? Desde quando os educadores e a sociedade combinaram que essa é a lógica que queremos perpetuar? A quem interessa que o terceiro mundo adote como padrão um modelo insustentável? Quem nos convenceu que também devemos ter a chance de ajudar a acabar com os recursos do planeta?

Muitas das reivindicações do texto são as nossas reivindicações históricas: plano de carreira (salário, formação continuada, infra-estrutura), educação pública de qualidade, escola para todos, valorização do professor, monitoramento e avaliação continuada...enfim, a pauta está colocada a tempos. O que precisamos é de respostas. Em alguns momentos, dependendo do humor dos políticos e do que eles possam vir a ganhar conosco, avançamos, estagnamos ou mesmo retrocedemos. Isso está profundamente errado, é um equívoco estratégico vincular uma política publica de educação aos desejos de um partido político que está governo. A pauta que é do governo deveria ser resguardada. Não sei como, com esse congresso e planalto fisiológico. Mas é fato que a educação – e todas as áreas chaves pro Brasil – avançam ou não na dependência da boa vontade dos políticos. Isso tem que ser revisto.

Um aspecto que sempre me surpreendeu foi que, ao contrário do que é alardeado na mídia e pelos políticos quando se referem ao fracasso da educação básica, a formação de professor no nível superior é excelente. Universidade pública, excelentes professores, conteúdo atualíssimo, participação em projetos de extensão ao longo de toda a graduação, bolsas de pesquisa.

Ao contrário da universidade, a escola pública, coitada, continua presa em um currículo padronizado, com conteúdos mínimos, ignorando toda a riqueza e diversidade regional, desconsiderando a história do aluno e seus desejos e interesses. Não se consegue “ensinar” nenhum dos conteúdos aprendidos na universidade. Lá (na universidade), para ficarmos em um exemplo da minha área de formação - Letras -  enquanto se aprende a desconstruir a gramática, percebendo que ela só faz sentido para quem lê e escreve e que ler e escrever se aprender lendo e escrevendo e não decorando regras, na escola pública é feito o caminho inverso: o professor decora uma gramática normativa bem burrinha porque é isso que os alunos têm que aprender. Alguém, que desconhece lingüística, teoria da aquisição da linguagem, leitura e produção textual, todas as contribuições que a enunciação e a teoria do discurso deram para a formação do leitor crítico, alguém, provavelmente um técnico cheio de boas intenções, sem  nunca ter visto os alunos reais, baseados em modelos idealizados, decidiu arbitrariamente o que sujeitos reais deveriam aprender, quais os conhecimentos eram ou não pertinentes. Esse técnico provavelmente nunca leu sequer Paulo Freire.

O sujeito, ao se deparar com essa realidade, tem duas alternativas: ou é um professor, até mesmo um bom professor e repete conhecimentos padrões que podem ou não repercutir no educando, dependendo do mérito pessoal dele (professor) e do interesse do educando. Ou pode se assumir como um educador, que a partir dos conhecimentos adquiridos na universidade, aprender a trabalhar com uma turma específica, a partir do que é relevante para aquela comunidade de aprendizagem. Assim, ele se descobre um ser de reflexão-ação, de agir-no-mundo e cria, junto com seus educandos, o que Edgar Morin chama de conhecimento pertinente, porque pertence à comunidade, é produzido pela comunidade, na comunidade, para dar respostas às suas questões específicas.

Então, o que eu acredito é o seguinte: o governo deve dar condições para que o professor faça aquilo que aprendeu a fazer na universidade, sem tentar conformá-lo em um padrão universal, limitado e limitante. “Receitas de bolo” não levam a lugar nenhum. Sim, aumente o salário, arrume a escola, dê bolsa para a família do aluno poder mantê-lo na escola, mas, por favor, parem de interferir nos conteúdos arbitrariamente! Ou ao menos conversem com os cursos de licenciatura. Aprendemos a refletir na universidade e na escola pública o estado exige que fiquemos somente reproduzindo conhecimentos descontextualizados.

A quem interessa que nosso aluno seja tão desmotivado na escola e passe acreditar que os conteúdos são difíceis e inacessíveis? A quem interessa analfabetos sem criticidade? Me parece que isso interessa aos políticos, porque assim continuam se perpetuando no poder manobrando analfabetos políticos e interessa ao mercado, quem mantém os pobre refém de padrões de consumo sem refletir sobre seu ser no mundo.

Concordo com o texto quanto à percepção de que estamos em um momento crítico. Nosso modelo – o outro, o estrangeiro – é um não-modelo porque esse padrão está esgotando os recursos, é fonte das desigualdades e do sentimento de apartação que tanto discutimos. Assim, a pergunta que deve guiar qualquer revolução é: quem queremos ser? O que estamos dispostos a fazer para conseguir vir a ser quem queremos? O que cabe ao Estado, ao mercado e a comunidade?

Para finalizar, eu acredito que a maior parte das propostas tenham valor. Mas acho que seu interlocutor deveria ser, preferencialmente, o educador. Conhecer quem é o educador, sua formação, a diferença entre o discurso universitário – libertário – e a realidade nas escolas – reprodutora. Acho que a realidade desse educador pode vir a surpreender: estamos aí, trabalhando muito e no silêncio, sendo falados mas nunca ouvidos. Acho que a revolução na educação passa por colocar o educador como protagonista e esquecer essa tendência ao padrão, que ignora a especificidade. E claro, criar um outro modelo, justo, includente, talvez mais pobre, mas com certeza também mais digno.






[1]  Valéria Viana labrea é Mestre Educação e Gestão Ambiental do Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília. Este artigo foi escrito como uma crítica ao documento “Revolução pela Educação” formulado pelo Senador Cristovam Buarque, a pedido dele quando foi meu professor no CDS. Embora meio datado, acho que muito do que está escrito ainda faz sentido para mim. 

Uma abordagem sobre a caça comercial esportiva no Brasil


Anderson Luis do Valle -Biólogo pós-graduado em Etologia e Analista Ambiental do IBAMA Sede.

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Recorrentemente manifestações de apreço pela caça esportiva com finalidade comercial inquirem as autoridades a justificarem-se em relação ao porquê de não se autorizar tal "prática amistosa" no Brasil. Tais pressões têm ganhado mais adeptos, leigos, que equivalem a caça esportiva ao manejo de fauna, solicitam abertura dos Parques Nacionais ao esporte, e ainda citam supostos benefícios às economias em outros países.
Nesse sentido, é necessário uma abordagem técnica ao tema. Primeiramente, caça esportiva e manejo sustentável são termos técnicos distintos. Manejo sustentável implica em técnica especifica para exploração de bens e recursos naturais sem a extinção do mesmo ou do ambiente em que se encontra. E isso não é feito em nenhum país que autoriza a caça esportiva. Para se manejar de forma sustentável uma determinada população, vários fatores devem ser considerados: entre eles o tamanho da população, a variabilidade genética, período reprodutivo, a razão sexual, comportamento de cuidado à prole e a interferência da espécie na cadeia trófica. Conhecido isso, os indivíduos com menor potencial reprodutivo, freqüência genética mais comum, fora de período reprodutivo, que dispensem a necessidade de cuidados com a prole, em populações suficientemente grandes e cujo impacto nas cadeias tróficas correlacionadas, tanto por competição com outros predadores, como por manterem os níveis equilibrados das espécies em grau maior ou menor de sua relação trófica poderiam ser suprimidos.
Porém, exatamente os indivíduos importantes para a conservação da espécie, ou seja, os mais raros, mais fortes e maiores são justamente os troféus de caça. Nesse sentido, um leão macho que defende em um território suas fêmeas, filhotes e recursos alimentares, ao ser retirado deixará vago um nicho ecológico que será ocupado por outro macho. Menos forte, mas suficientemente capaz de matar os filhotes de seu antecessor para que assim as fêmeas possam se libertar dos cuidados maternos e gerar descendentes do novo sucessor. Esse novo macho também expulsará os machos jovens de seu território, os quais ainda imaturos, provavelmente morrerão competindo por espaço e alimento em território de outros líderes. Por fim, pequenas oscilações nas populações de indivíduos de interesse para os caçadores podem favorecer a expansão de populações de predadores competidores, inclusive de outras espécies, que por outra ocasião, devido à competição, não se sobrepujariam.
Os países da África que permitem a caça apresentam características comuns entre si, mas distintas do Brasil. Por exemplo, Zimbábue é uma das mais devastadas economias do mundo. Apresenta a maior taxa de inflação do planeta, e quedas sucessivas do Produto Interno Bruto há anos. Sua moeda desvaloriza-se a taxas oficiais de 4500% ao mês. No Brasil, a receita líquida do turismo é vinte vezes maior do que o caixa de Zimbábue. São realidades econômicas tão diferentes que não é possível sequer estabelecer algum tipo de comparação, pois nesse país onde 94% da população encontra-se desempregada, não há ações de prioridade a manejo sustentável de fauna. Outro equívoco nesta comparação é que ambos possuem ecossistemas diferentes e preocupações ambientais distintas. No Brasil, os crimes contra unidades de conservação envolvem roubo de madeira pública, fauna, minérios, água, invasão da agricultura e pecuária, loteamento de áreas e fogo. Há escasso quantitativo de fiscalização, mas leigos que pleiteiam autorizações para caça esportiva acreditam que poderia haver um fiscal acompanhando os amantes da caça mata adentro. E depois? Qual suporte que o Estado necessitaria ter para controlar a carne proveniente de caça, diferenciá-la de caças ilegais, garantir sanidade ao material, inclusive em seu transporte? Não é uma questão de que se o Estado não tem como controlar então proíbe. É o princípio da precaução. Não há por que submeter o ecossistema e a população a um risco se há formas muito mais rentáveis como o turismo de observação. O melhor mesmo seria trocar as armas de caçadores por máquinas fotográficas!

sexta-feira, 11 de março de 2011

Tolerância zero à mutilação genital feminina




Leonardo Boff
Teólogo/Filósofo
                                                    

A globalização como etapa nova da humanidade e da própria Terra, colocou não apenas as pessoas e os povos  em contacto uns com os outros. Propagou também mundo afora seus vírus e bactérias, suas plantas e frutas, suas culinárias e modas, suas visões de mundo e religiões inclusive seus valores e anti-valores. É da natureza humana e da história, não como defeito mas como marca evolucionária, o fato de sermos sapientes e dementes e que, por isso, surgirmos como seres contraditórios. Por isso, junto com as dimensões luminosas que mostram o lado melhor do ser humano, por onde nos enriquecemos mutuamente, comparecem também as dimensões sombrias, tradições seculares que penalizam porções enormes da população. Por isso, devemos ser críticos uns aos outros, para identificar práticas desumanas  que não são mais toleráveis.

Nós ocidentais, por exemplo, somos individualistas e dualistas, tão centrados em nossa identidade  a ponto de termos grande dificuldade em aceitar os diferentes de nós. Tendemos a tratar os diferentes como inferiores. Isso fornece a base ideológica ao nosso espírito colonialista e imperialista, impondo a todo mundo os nossos valores e visão de mundo.

Semelhantes limitações encontramos em todas as culturas. Mas há limitações e limitações. Algumas delas violam todos os parâmetros da decência e basta o  simples senso  comum, para torná-las inaceitáveis. Elas parecem-se antes a violações e a crimes que tradições culturais, por mais ancestrais que se apresentem. E não adianta virem antropólogos e sociólogos da cultura saírem a campo defendendo-as em nome do respeito às diferenças. O que é cruel é cruel em qualquer cultura e em qualquer parte do mundo. A crueldade, por desumana, não tem direito de existir.

Refiro-me especificamente  à mutilação genital feminina. Ela é praticada secularmente em 28 países da África, no Oriente Médio e no Sudeste da Ásia e em vários países europeus onde há a imigração destes países. Calcula-se que atualmente existam no mundo entre 115-130 milhões de mulheres genitalmente mutiladas. Outras três milhões são anualmente ainda submetidas a tais horrores, incluindo 500 mil na Europa.

De que se trata? Trata-se da remoção do clitóris e dos lábios vaginais e até, em alguns locais,  da suturação dos dois lados da vulva em meninas com a idade entre 4-14 anos. Isso é feito sem qualquer preocupação higiênica com tesouras, facas, navalhas, agulhas e até pedaços afiados de vidro. São inimagináveis os gritos de dor e de horror, as hemorragias e as infecções que podem levar à morte, os choques emocionais e padecimentos sem conta, como podem ser comprovados em alguns youtubes da internet que não aconselho a ninguém ver.

Na Europa tais práticas são criminalizadas. As mães levam então as filhas aos países de origem, a pretexto de conhecerem os parentes. E ai são surpreendidas com tal horror que mais que uma prática cultural é uma agressão e grave violação dos direitos humanos. Por detrás funciona o mais primitivo machismo que visa impedir que a mulher tenha acesso ao prazer sexual transformando-a em objeto para o prazer exclusivo do homem. Não sem razão a Organização Mundial da Saúde denunciou tal prática como tortura inaceitável.

Vejo duas razões que desqualificam certas tradições culturais e que nos levam a combatê-las. A primeira é o sofrimento do outro. Lá onde a diferença cultural implica desumanização e mutilação do outro, ai ela encontra seu limite e deve ser coibida. Ninguém tem direito de impor sofrimento injustificado ao outro. A segunda razão é a Carta dos Direitos Humanos da ONU de 1948 subscrita por todos os Estados. Todas as tradições culturais devem se confrontar com aqueles preceitos. Práticas que comportam violação da dignidade humana devem ser proibidas e até criminalizadas. A lei suprema é tratar humanamente os seres humanos. Na mutilação genital temos a ver  com uma convenção social  desumana e nefasta. Dai se entende a instauração do dia 6 de fevereiro como o Dia Internacional de Tolerância Zero à Mutilação Genital Feminina.

Em cada 8 de março, Dia Internacional da Mulher, é o momento de nos solidarizarmos com estas meninas, vitimas de uma tradição cultural feroz e inimiga da vida e do prazer.

quarta-feira, 9 de março de 2011

A poetisa, a mística e a gata

Leonardo Boff
Teólogo, filósofo e escritor

A Igreja Católica italiana apresenta em sua história uma contradição fecunda. Por um lado há a presença forte do Vaticano, representando a Igreja oficial com sua massa de fiéis mantidos sob vigilante controle social pelas doutrinas e especialmente pela moral familiar e sexual. Por outro, há a presença de cristãos leigos e leigas não alinhados, resistentes ao poder monárquico e implacável da burocracia da Cúria romana mas abertos ao evangelho e aos valores cristãos sem romper com o Papado embora críticos de suas práticas e do apoio que dá a regimes conservadores e até autoritários.

Assim temos a figura de Antônio Rosmini no século XIX, fino filósofo e crítico do antimodernismo dos Papas. Modernamente identificamos figuras como Mazzolari, Raniero La Valle, Arturo Paoli, a eremita Maria Campello. Entre todos destaca-se Adriana Zarri, eremita, teóloga, poetisa e exímia escritora. Além de vários livros, escrevia semanalmente no diário Il Manifesto e quinzenalmente na revista de cultura Rocca.

Era duríssima contra o atual curso da Igreja sob os Papas Wojtyla e Ratzinger a quem acusava diretamente de trair os intentos de reforma provados pelo Concílio Vaticano II (1962-1965) e voltar a um modelo medieval de exercício de poder e de presença da Igreja  na sociedade. Veio a falecer no dia 18 de novembro de 2010 com  mais de 90 anos.

Visitei-a por algumas vezes em seu eremitério perto de Strambino no norte da Itália. Vivia só num enorme e vetusto casarão, cheio de rosas e com sua gata de estimação Arcibalda.  Tinha uma capela com o Santíssimo exposto para onde se recolhia várias horas por dia em oração e profunda meditação. 

Na conversa com ela, queria saber tudo das comunidades eclesiais de base, do engajamento da Igreja na causa dos pobres, dos negros e dos indígenas. Tinha um carinho especial pelos teólogos da libertação por causa da perseguição que sofriam por parte das autoridades do Vaticano que os tratavam, segundo ela, “a bastonadas”enquanto usavam luvas de pelica aos seguidores do cismático  Mons. Lefebvre. 

Seu último artigo, publicado três dias antes de sua morte, dedicou-o à gatinha de estimação Arcibalda. Com ela, como pude testemunhar pessoalmente, possuía uma relação afetuosa como de íntimos amigos. Aquilo que a nossa grande psicanalista junguiana Nise da Silveira descreveu em seu livro Gatos, a emoção de lidar o confirmou Zarri:”o gato tem a capacidade de captar o nosso estado de alma; se me vê chorando, logo vem lamber minhas lágrimas”. Contam que a gata  esteve junto dela enquanto expirava. Ao ver os amigos chegarem para o velório, se enrolava, nervosa, na cortina da sala. Como se soubesse a hora, discretamente, pouco antes de fecharem o féretro, entrou discretamente na capela.

lguém, sabendo do amor da gatinha por Adriana Zarri, pegou-a no colo e a aproximou ao rosto da defunta. Fixou-a longamente e parecia que lacrimejava. Depois colocou-se debaixo do féretro e aí permaneceu em absoluta quietude.

Isso me reporta  à nossa gata, a Branquinha. Parece uma menina frágil e elegante. Apegou-se de tal maneira à minha companheira Márcia que sempre a acompanha e dorme a seus pés, especialmente, quando passa por algum aborrecimento. Ela capta seu estado de alma  e procura consolá-la roçando-se nela e miando suavemente.

Adriana Zarri deixou uma epígrafe que vale a pena ser reproduzida: ”Não me vistam de preto: é triste e fúnebre. Nem me vistam de branco porque é soberbo e retórico. Vistam-me de flores amarelas e vermelhas e com asas de passarinho. E Tu, Senhor, olhe minhas mãos. Talvez tenham colocado um rosário, talvez uma cruz. Mas se enganaram. Nas mãos tenho folhas verdes e sobre a cruz, a tua ressurreição. E sobre minha tumba não coloquem mármore frio com as costumeiras mentiras para consolar os vivos. Deixem que a terra escreva, na primavera, uma epígrafe de ervas. Ali se dirá que vivi e que espero. Então, Senhor, tu escreverás o teu nome e o meu, unidos como duas pétalas  de papoulas”.

A  escritora e mística dos olhos abertos, Adriana Zarri, nos mostrou como viver e morrer  bela e docemente. 

O amor entre Clara e Francisco de Assis

Leonardo Boff
Teólogo, filósofo e escritor


Francisco (+1226) e Clara (+1253), ambos de Assis, são figuras das mais queridas da cristandade, das quais nos podemos realmente orgulhar. Os dois uniam três grandes paixões: pelo Cristo pobre e crucificado, pelos pobres, especialmente os hansenianos e um pelo outro.  O amor por Cristo e pelos pobres não diminuía em nada o amor profundo que os unia, mostrando que entre pessoas que se consagram a Deus e ao serviço dos outros pode existir  verdadeiro amor e relações de grande ternura. Há entre Francisco e Clara algo misterioso que conjuga Eros e Ágape, fascinação e transfiguração. Os relatos conservados da época falam dos encontros freqüentes entre eles. No entanto, “regulavam tais encontros de modo tal que aquela divina atração mútua pudesse passar despercebida aos olhos dos homens, evitando boatos púbicos”.


Logicamente, numa pequeníssima cidade como Assis,  todos sabiam tudo de todos. Assim também do amor entre Clara e Francisco. Uma legenda antiga refere-se a este diz-que-diz-que com terníssima candura:”Certa feita, Francisco havia ouvido alusões inconvenientes. Foi a Clara e disse-lhe: Comprendeste, irmã, o que o povo diz de nós? Clara não respondeu. Sentiu que seu coração começava a parar e que, se dissesse uma palavra mais, iria chorar. É tempo de separar-nos, disse Francisco. Então, tu vais à frente e, antes de vir a noite, terás chegado ao convento. Eu irei sozinho e te acompanharei e longe, conforme o Senhor me conduzir. Clara ajoelhou-se no meio do caminho. Pouco depois, recuperou-se, levantou-se e continuou a caminhar, sem olhar para trás. O caminho passava por um bosque. De repente, ela se sentiu sem forças, sem consolo e sem esperança, sem uma palavra de despedida antes de separar-se de Francisco. Aguardou um pouco.  Pai, disse, quando nos veremos de novo? Quando o verão voltar, quando as rosas florescerem, respondeu Francisco. E então, naquele momento, algo maravilhoso aconteceu. Parecia que por sobre os campos cobertos de neve, tivesse chegado o verão e irrompessem milhares e  milhares de flores. Depois de uma perplexidade inicial, Clara se apressou, colheu um ramalhete de rosas e o entregou nas mãos de Francisco”. E a legenda termina dizendo:”Desde aquele momento em diante, Francisco e Clara nunca mais se separaram”.

Estamos diante da linguagem simbólica das lendas. Mas são elas que guardam o significado dos fatos primordiais do coração e do amor. “Francisco e Clara nunca mais se separaram”, quer dizer, souberam articular seu mútuo o amor com o amor a Cristo, aos pobres de tal forma que era um só grande amor. Efetivamente jamais saíram um do coração do outro. Uma testemunha da canonização de Clara diz com grazie que Francisco para ela “parecia-lhe ouro de tal forma claro e lúcido que ela se via também toda clara e lúcida como se fosse num espelho”. Dá para expressar melhor a fusão de amor entre duas pessoas de excepcional  grandeza de alma?

Em suas buscas e dúvidas ambos se consultavam e buscavam na oração um caminho. Um relato biográfico da época conta: “Certa feita, cansado, Francisco chega a uma fonte de águas cristalinas. Põe-se a olhar, por longos instantes, para estas águas claras. Depois, tornou a si e disse alegremente a seu amigo íntimo Frei Leão: Frei Leão, ovelhinha de Deus, que pensas que vi nas águas claras da fonte? A lua, que se espelha lá dentro, respondeu Frei Leão. Não, irmão, não via lua, mas sim, o rosto claro de nossa irmã Clara, cheio de santa alegria, de sorte que todas as minhas tristezas desapareceram”.

Agora em 2011 se celebram os 800 anos da fundação por Clara da Segunda Ordem, a das Clarissas. O relato histórico não poderia ser mais carregado de densidade amorosa. Francisco combinara com Clara que na noite do domingo de Ramos, belamente adornada,  fugisse de casa e viesse encontrá-lo na capelinha que havia construído, a Porciúncula. Efetivamente ela fugiu. Chegou à igrejinha e lá estavam Francisco e seus companheiros com tochas acessas. Alegres a aplaudiram e a receberam com extremo carinho. Francisco cortou-lhe os belos cabelos louros. Era o símbolo de sua entrada no novo caminho religioso. Agora eram dois num só e mesmo caminho e até hoje “nunca mais se separaram”.

terça-feira, 1 de março de 2011

Carta de apoio a institucionalização da Educação Ambiental no IBAMA

Demorou, mas tá acontecendo. A mobilização para a reinstitucionalização da Educação Ambiental é um necessidade e o IBAMA abriu espaço para a participação social. Vamos ao debate!

---------- Mensagem encaminhada ----------

De: Michelle Milhomem mymilhomem@gmail.com

Olá Pessoal,
Nós servidores do IBAMA, que trabalham e/ou acreditam que a Educação Ambiental é um instrumento para a sociedade proteger melhor o meio ambiente, elaboramos uma Carta que será entregue à Ministra do Meio Ambiente reivindicando (mais uma vez) a institucionalização da EA no IBAMA.

Em 2007, com a criação do ICMBio, foi extinta a Coordenação Geral de Educação Ambiental do Ibama, e nenhum outro lócus institucional foi criado para abrigar a EA no Instituto.

Essa mobilização em prol da reinstitucionalização da EA no IBAMA não é nova. Já foram feitas diversas mobilizações. O Departamento de Educação Ambiental do MMA realizou o Encontro de Educadores Ambientais do IBAMA e do ICMBio em 2008 e obteve o comprometimento do então ministro Carlos Minc. Além disso, foi realizada uma mobilização que originou um abaixo assinado de educadores e educadoras presentes no VI Fórum Brasileiro de Educação Ambiental, no Rio de janeiro, em 2009; e da mesma forma, o tema já foi pauta na reunião do Comitê Assessor do Órgão Gestor (MMA e MEC) da PNEA e foi objeto de requerimento da ASIBAMA ao MMA, e o IBAMA ainda está sem uma estrutura organizacional que abrigue a Educação Ambiental.

No ICMBio, não há um locus para a EA, entretanto, existe uma coordenação, e estão sendo realizadas ações em vistas à construção da EA no Instituto. Mas sabemos que sem uma diretriz, sem um locus institucionais as práticas não sobrevivem e enraizam estrturalmente. Em relação ao IBAMA, percebemos que o que permanece é somente a ação de EA, do PPA, alocada na Diretoria de Qualidade Ambienal, sem uma institcionalização em um setor, apesar da persistência e envolvimento de vários educadores que continuam atuantes no Instituto, alguns, inclusive que em determinados momentos tentaram fazer uma ação mais articulada.

Nesse momento de mudanças de dirigentes no MMA/Presidência do IBAMA e Diretoria de EA no MMA, mais uma vez tenta-se chamar a atenção para este fato e revindicar ações no sentido da re-estruturação da EA no IBAMA.

A carta que será entregue está obtendo adesões de apoio de diversos segmentos e é nesse sentido que escrevo a vocês. Quem quiser aderir, pode fazer comentários sobre seu apoio diretamente no blog http://eaibama.wordpress.com/2011/02/25/carta-aberta-ao-mma/#comments, ou respondendo este e-mail.

Se quiserem, encaminhem este e-mail para suas listas.

Obrigada!
Michelle Milhomem