Carta da Terra no Brasil

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quinta-feira, 17 de março de 2011

A Revolução pela Educação: algumas considerações




Valéria Viana Labrea[1]

Ao ler esse documento encaminhado ao Ministro da Educação, ficou claro alguns aspectos: é um documento político que propõe uma pauta que, em muitos aspectos, desconsidera ou minimiza o que já vem sendo feito ao longo dos anos. Os avanços e conquistas, seja em políticas públicas seja na formação do educador não estão sendo considerados. Mas o que mais me chama a atenção é que nesse documento não está presente a discussão que os educadores – em especial os educadores populares – realizam entre si e com a sociedade desde, no mínimo, a década de 60.

Me parece que para fazer valer um ponto de vista, é silenciada mais uma vez, as vozes dos educadores. Trabalho com educação popular há 10 anos e não me reconheço nas descrições, nossas lutas históricas servem de pano de fundo, mas não são debatidas com o aprofundamento que o tema merece.

De saída, na página 11 a proposta é apresentada como “as propostas necessárias para fazer uma revolução na educação brasileira”. A pergunta que me ficou é: a quem interessa uma revolução nesses termos? A quem interessa romper um muro de atraso em relação aos países desenvolvidos (p.12)? Por que não existe uma problematização sobre o modelo adotado pelos países desenvolvidos e apenas aderência ao que já está posto? Desde quando os educadores e a sociedade combinaram que essa é a lógica que queremos perpetuar? A quem interessa que o terceiro mundo adote como padrão um modelo insustentável? Quem nos convenceu que também devemos ter a chance de ajudar a acabar com os recursos do planeta?

Muitas das reivindicações do texto são as nossas reivindicações históricas: plano de carreira (salário, formação continuada, infra-estrutura), educação pública de qualidade, escola para todos, valorização do professor, monitoramento e avaliação continuada...enfim, a pauta está colocada a tempos. O que precisamos é de respostas. Em alguns momentos, dependendo do humor dos políticos e do que eles possam vir a ganhar conosco, avançamos, estagnamos ou mesmo retrocedemos. Isso está profundamente errado, é um equívoco estratégico vincular uma política publica de educação aos desejos de um partido político que está governo. A pauta que é do governo deveria ser resguardada. Não sei como, com esse congresso e planalto fisiológico. Mas é fato que a educação – e todas as áreas chaves pro Brasil – avançam ou não na dependência da boa vontade dos políticos. Isso tem que ser revisto.

Um aspecto que sempre me surpreendeu foi que, ao contrário do que é alardeado na mídia e pelos políticos quando se referem ao fracasso da educação básica, a formação de professor no nível superior é excelente. Universidade pública, excelentes professores, conteúdo atualíssimo, participação em projetos de extensão ao longo de toda a graduação, bolsas de pesquisa.

Ao contrário da universidade, a escola pública, coitada, continua presa em um currículo padronizado, com conteúdos mínimos, ignorando toda a riqueza e diversidade regional, desconsiderando a história do aluno e seus desejos e interesses. Não se consegue “ensinar” nenhum dos conteúdos aprendidos na universidade. Lá (na universidade), para ficarmos em um exemplo da minha área de formação - Letras -  enquanto se aprende a desconstruir a gramática, percebendo que ela só faz sentido para quem lê e escreve e que ler e escrever se aprender lendo e escrevendo e não decorando regras, na escola pública é feito o caminho inverso: o professor decora uma gramática normativa bem burrinha porque é isso que os alunos têm que aprender. Alguém, que desconhece lingüística, teoria da aquisição da linguagem, leitura e produção textual, todas as contribuições que a enunciação e a teoria do discurso deram para a formação do leitor crítico, alguém, provavelmente um técnico cheio de boas intenções, sem  nunca ter visto os alunos reais, baseados em modelos idealizados, decidiu arbitrariamente o que sujeitos reais deveriam aprender, quais os conhecimentos eram ou não pertinentes. Esse técnico provavelmente nunca leu sequer Paulo Freire.

O sujeito, ao se deparar com essa realidade, tem duas alternativas: ou é um professor, até mesmo um bom professor e repete conhecimentos padrões que podem ou não repercutir no educando, dependendo do mérito pessoal dele (professor) e do interesse do educando. Ou pode se assumir como um educador, que a partir dos conhecimentos adquiridos na universidade, aprender a trabalhar com uma turma específica, a partir do que é relevante para aquela comunidade de aprendizagem. Assim, ele se descobre um ser de reflexão-ação, de agir-no-mundo e cria, junto com seus educandos, o que Edgar Morin chama de conhecimento pertinente, porque pertence à comunidade, é produzido pela comunidade, na comunidade, para dar respostas às suas questões específicas.

Então, o que eu acredito é o seguinte: o governo deve dar condições para que o professor faça aquilo que aprendeu a fazer na universidade, sem tentar conformá-lo em um padrão universal, limitado e limitante. “Receitas de bolo” não levam a lugar nenhum. Sim, aumente o salário, arrume a escola, dê bolsa para a família do aluno poder mantê-lo na escola, mas, por favor, parem de interferir nos conteúdos arbitrariamente! Ou ao menos conversem com os cursos de licenciatura. Aprendemos a refletir na universidade e na escola pública o estado exige que fiquemos somente reproduzindo conhecimentos descontextualizados.

A quem interessa que nosso aluno seja tão desmotivado na escola e passe acreditar que os conteúdos são difíceis e inacessíveis? A quem interessa analfabetos sem criticidade? Me parece que isso interessa aos políticos, porque assim continuam se perpetuando no poder manobrando analfabetos políticos e interessa ao mercado, quem mantém os pobre refém de padrões de consumo sem refletir sobre seu ser no mundo.

Concordo com o texto quanto à percepção de que estamos em um momento crítico. Nosso modelo – o outro, o estrangeiro – é um não-modelo porque esse padrão está esgotando os recursos, é fonte das desigualdades e do sentimento de apartação que tanto discutimos. Assim, a pergunta que deve guiar qualquer revolução é: quem queremos ser? O que estamos dispostos a fazer para conseguir vir a ser quem queremos? O que cabe ao Estado, ao mercado e a comunidade?

Para finalizar, eu acredito que a maior parte das propostas tenham valor. Mas acho que seu interlocutor deveria ser, preferencialmente, o educador. Conhecer quem é o educador, sua formação, a diferença entre o discurso universitário – libertário – e a realidade nas escolas – reprodutora. Acho que a realidade desse educador pode vir a surpreender: estamos aí, trabalhando muito e no silêncio, sendo falados mas nunca ouvidos. Acho que a revolução na educação passa por colocar o educador como protagonista e esquecer essa tendência ao padrão, que ignora a especificidade. E claro, criar um outro modelo, justo, includente, talvez mais pobre, mas com certeza também mais digno.






[1]  Valéria Viana labrea é Mestre Educação e Gestão Ambiental do Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília. Este artigo foi escrito como uma crítica ao documento “Revolução pela Educação” formulado pelo Senador Cristovam Buarque, a pedido dele quando foi meu professor no CDS. Embora meio datado, acho que muito do que está escrito ainda faz sentido para mim. 

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