Carta da Terra no Brasil

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quinta-feira, 17 de março de 2011

Uma abordagem sobre a caça comercial esportiva no Brasil


Anderson Luis do Valle -Biólogo pós-graduado em Etologia e Analista Ambiental do IBAMA Sede.

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Recorrentemente manifestações de apreço pela caça esportiva com finalidade comercial inquirem as autoridades a justificarem-se em relação ao porquê de não se autorizar tal "prática amistosa" no Brasil. Tais pressões têm ganhado mais adeptos, leigos, que equivalem a caça esportiva ao manejo de fauna, solicitam abertura dos Parques Nacionais ao esporte, e ainda citam supostos benefícios às economias em outros países.
Nesse sentido, é necessário uma abordagem técnica ao tema. Primeiramente, caça esportiva e manejo sustentável são termos técnicos distintos. Manejo sustentável implica em técnica especifica para exploração de bens e recursos naturais sem a extinção do mesmo ou do ambiente em que se encontra. E isso não é feito em nenhum país que autoriza a caça esportiva. Para se manejar de forma sustentável uma determinada população, vários fatores devem ser considerados: entre eles o tamanho da população, a variabilidade genética, período reprodutivo, a razão sexual, comportamento de cuidado à prole e a interferência da espécie na cadeia trófica. Conhecido isso, os indivíduos com menor potencial reprodutivo, freqüência genética mais comum, fora de período reprodutivo, que dispensem a necessidade de cuidados com a prole, em populações suficientemente grandes e cujo impacto nas cadeias tróficas correlacionadas, tanto por competição com outros predadores, como por manterem os níveis equilibrados das espécies em grau maior ou menor de sua relação trófica poderiam ser suprimidos.
Porém, exatamente os indivíduos importantes para a conservação da espécie, ou seja, os mais raros, mais fortes e maiores são justamente os troféus de caça. Nesse sentido, um leão macho que defende em um território suas fêmeas, filhotes e recursos alimentares, ao ser retirado deixará vago um nicho ecológico que será ocupado por outro macho. Menos forte, mas suficientemente capaz de matar os filhotes de seu antecessor para que assim as fêmeas possam se libertar dos cuidados maternos e gerar descendentes do novo sucessor. Esse novo macho também expulsará os machos jovens de seu território, os quais ainda imaturos, provavelmente morrerão competindo por espaço e alimento em território de outros líderes. Por fim, pequenas oscilações nas populações de indivíduos de interesse para os caçadores podem favorecer a expansão de populações de predadores competidores, inclusive de outras espécies, que por outra ocasião, devido à competição, não se sobrepujariam.
Os países da África que permitem a caça apresentam características comuns entre si, mas distintas do Brasil. Por exemplo, Zimbábue é uma das mais devastadas economias do mundo. Apresenta a maior taxa de inflação do planeta, e quedas sucessivas do Produto Interno Bruto há anos. Sua moeda desvaloriza-se a taxas oficiais de 4500% ao mês. No Brasil, a receita líquida do turismo é vinte vezes maior do que o caixa de Zimbábue. São realidades econômicas tão diferentes que não é possível sequer estabelecer algum tipo de comparação, pois nesse país onde 94% da população encontra-se desempregada, não há ações de prioridade a manejo sustentável de fauna. Outro equívoco nesta comparação é que ambos possuem ecossistemas diferentes e preocupações ambientais distintas. No Brasil, os crimes contra unidades de conservação envolvem roubo de madeira pública, fauna, minérios, água, invasão da agricultura e pecuária, loteamento de áreas e fogo. Há escasso quantitativo de fiscalização, mas leigos que pleiteiam autorizações para caça esportiva acreditam que poderia haver um fiscal acompanhando os amantes da caça mata adentro. E depois? Qual suporte que o Estado necessitaria ter para controlar a carne proveniente de caça, diferenciá-la de caças ilegais, garantir sanidade ao material, inclusive em seu transporte? Não é uma questão de que se o Estado não tem como controlar então proíbe. É o princípio da precaução. Não há por que submeter o ecossistema e a população a um risco se há formas muito mais rentáveis como o turismo de observação. O melhor mesmo seria trocar as armas de caçadores por máquinas fotográficas!

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